Antes de Daniella Marques entrar no mercado financeiro, o mercado financeiro já havia entrado em sua vida.
Dos 8 aos 12 anos de idade, ela saía da aula e ia “brincar de trabalhar” na agência do Banco do Brasil em Barra Mansa, no interior do Rio, onde seu pai era escriturário e depois gerente.
Aos 13 começou a ler jornais de economia e acompanhar a Bolsa de Valores, e aos 18 entrou na PUC-Rio, onde teve aula com alguns dos pais do Real.
Agora, aos 46, Marques tem sido a porta-voz mais eficiente de Flávio Bolsonaro quando o assunto é economia, dominando os debates com “cortes Tramontina” que fazem os antipetistas soltar foguetes, visitando nove estados (até ontem), participando de dezenas de podcasts e reunindo-se diariamente com públicos que vão da Fiesp ao board do Itaú, dos evangélicos a feirantes do Brás.

Em muitos desses périplos, Marques faz dobradinha com Rogério Marinho, o coordenador da campanha e Senador pelo Rio Grande do Norte, por quem sempre mostra deferência.
Nas entrevistas, Marques desconstrói a “herança maldita” do PT e vende a agenda de Flávio: instaurar um “capitalismo popular” que vai colocar o Estado a serviço das pessoas e reativar a mobilidade social no País.
Esta é a segunda aposta de Marques num Bolsonaro.
No governo de Jair, ela foi o braço direito de Paulo Guedes como Secretária de Produtividade e Competitividade no Ministério da Economia, e assumiu a Caixa depois que o presidente do banco foi afastado sob acusações de assédio.
E ainda que o grande debate da eleição deste ano seja mais sobre o STF e Daniel Vorcaro do que sobre propostas, a campanha flaviana não está só na retórica.
Junto com Adolfo Sachsida – seu ex-colega de Ministério – Marques coordena 27 grupos temáticos que estão trabalhando em dezenas de portarias, decretos, MPs, PLs e PECs para empreender um ajuste fiscal, uma reforma do Estado e uma desburocratização da economia nos primeiros 100 dias de Governo.
“Só em normas tributárias já identificamos 1.000 regras a serem revogadas,” disse Marques.
Não será a primeira vez. Em 2019, quando era secretário especial de Previdência e Trabalho, Marinho extinguiu mais de 2.700 tipos de multas a que um empreendedor estava sujeito pela Norma Regulamentadora 28, que dispõe sobre procedimentos de fiscalização, embargo e interdição de empresas e concentrava 90% das multas.
Marques divide o plano econômico de Flávio em três pilares.
O pilar macro é “o básico que precisa ser feito”: um ajuste das contas públicas e uma reforma do Estado, incluindo uma ampla reforma administrativa.
O pilar micro é promover a expansão da produtividade, o fortalecimento da segurança jurídica e a revogação de impostos e burocracias. “Vamos trabalhar em tudo isso que está espelhado no Custo Brasil para o País poder voltar a ganhar competitividade.”
Por fim, o terceiro é o que ela chama de “inclusão produtiva e mobilidade social,” e que tem no empreendedorismo “a grande ferramenta de transformação social.”
“Nosso programa é de um capitalismo popular, de rampa econômica, para que o brasileiro possa crescer junto com o Brasil. Hoje tem um hiato grande: os empresários não conseguem contratar, e a população está pobre,” Marques disse ao Brazil Journal enquanto pegava o filho na escola – uma raridade numa agenda de campanha que tipicamente inclui entrevistas a duas rádios por dia, gravações para as redes sociais e múltiplos eventos à noite.

Recentemente, ela estava às quatro e meia da manhã no Shopping Brás para conversar com os sacoleiros. Lá, uma sacoleira lhe relatou que “nem na pandemia as vendas estavam tão ruins”, e que preferia continuar informal porque se formalizar exigia muita burocracia, “papel demais.”
Outro feirante a reconheceu de imediato:
“Você parece aquela mulher brava que fica sempre do lado do Flávio Bolsonaro.”
“Sou eu mesmo!” respondeu Marques.
“É? Minha mulher é sua fã,” devolveu o feirante.
Nas redes sociais, um de seus vídeos que mais repercutiu foi um formato na TV Celular (o canal oficial da campanha de Flávio no Youtube) em que Marques debate com 13 pessoas que se dizem de esquerda.
Quando os debatedores questionaram (com argumentos sofríveis e inúmeras confusões conceituais) a tentativa de privatização dos Correios no Governo Bolsonaro, Marques ligou sua motosserra verbal.
“Você tem dúvida de que você tem celular hoje porque a telefonia foi privatizada? A privatização da Embraer foi boa? Ela hoje não é uma empresa global de referência? A privatização da Vale foi boa? A Vale cresceu ou diminuiu depois que foi privatizada? Empregou mais gente ou não? Então, se o Correio tivesse sido privatizado e profissionalizado a gestão, e naquela época tinha valor, valia de R$ 3 a 4 bilhões, ele não tinha sido sucateado. Agora que se eu te entregar por R$ 1 você vai levar R$ 9 bilhões de dívida. Quer comprar o Correio?”
Quando outro questionou seu lugar de fala dizendo que Marques só via “a realidade da Faria Lima”, ela devolveu lembrando sua origem proletária, filha de um escriturário e de uma costureira. “Minha avó pariu nove filhos em casa. Minha mãe ia para escola pública com um caderno num saco de arroz,” disse ela, antes de partir para a jugular do PT.
“Um projeto que vitimiza as pessoas para perpetuar a pobreza, não funciona. A proteção assegurada social é o primeiro passo da sua jornada. Quando você tiver filhos, você quer que o filho dependa de você a vida inteira ou que ele voe sozinho?”
Num debate com o Ministro da Fazenda, Dario Durigan, na Globonews, foi ela quem tentou tirar o lugar de fala do oponente.

“Quando você está com inflação mais 8,5% de juros real, é insustentável. E isso não é opinião de um ou de outro. É o espelho na tela do credor da dívida, que está mundo afora e não está acreditando em nada do que está sendo dito, porque infelizmente o que ele [Durigan] fala não está colocado no plano de Governo,” disse Marques. “E por isso o coordenador do plano de Governo [de Lula] não está aqui debatendo com a gente.”
Como é comum na classe média, Marques estudou em escolas particulares para tentar o vestibular na universidade pública. Mas quando entendeu a qualidade do corpo docente da PUC-Rio, pediu ao pai para investir mais quatro anos na filha.
Entrou no curso de economia, mas depois mudou para administração porque tinha que trabalhar de dia. Começou no mercado com um estágio no Banco Prosper, e depois foi para a Mercatto, onde foi gestora de um fundo de ações.
Em 2013, a Mercatto e a BR Investimentos, de Paulo Guedes, se fundiram com o family office de Julio Bozano criando a Bozano Investimentos, e Marques se tornou a diretora de compliance, risco e operações. Ficou lá até 2019, quando foi para o governo com Guedes.
Durante quase toda a carreira, Marques disse que viu o constrangimento que as mulheres sofrem no mercado de trabalho – especialmente no mercado financeiro.
O trauma a mobilizou e, anos depois, quando foi presidente da Caixa, ela criou o Caixa pra Elas, um programa de enfrentamento à violência contra mulheres (com espaço físico dedicado em 1.000 agências) e para promover a inclusão e autonomia financeira das clientes do banco.
Na campanha de Flávio, Marques está assumindo o papel que Guedes teve com Bolsonaro. Num jantar com empresários, o próprio Flávio disse que Marques é “meu braço direito, esquerdo, minha perna direita e minha perna esquerda.”
A efetividade de Marques tem feito muita gente especular que ela quer o Ministério da Fazenda – mas ela diz que o assunto sequer está em pauta.
“Tem muita gente boa aqui ajudando, e eu não estou preocupada com cargo. Meu intuito foi me doar para a campanha como porta-voz de um time técnico, que foi o que já funcionou antes.”











