O GPA – que entrou em recuperação extrajudicial no começo de março – chegou a um acordo com seus credores para reestruturar sua dívida de R$ 4,5 bilhões, cortando esse valor em mais de 50%, para R$ 2,1 bilhões. 

O acordo prevê três alternativas para os credores. Um total de R$ 1,5 bilhão em dívidas terá dois anos de carência e pagamento escalonado, com a vasta maioria vencendo em 2031. 

Outros R$ 2 bilhões terão deságio de 70% e vencimento em 2036, com correção pelo CDI do período. 

O R$ 1 bilhão restante será trocado por uma debênture conversível em ações. A conversão poderá ser feita em quatro janelas, nos primeiros semestres de 2027, 2029, 2030 e 2031. O preço de conversão será a média ponderada dos 90 pregões anteriores, com desconto de 20%. 

A proposta foi apoiada por credores que detêm 57,5% dos passivos: os bancos Itaú, HSBC, Rabobank e BTG Pactual, além da Itaú Asset. O mínimo legal é 50% mais um. 

Os credores podem aderir a qualquer uma das condições propostas até a homologação do acordo pela Justiça, o que deve levar cerca de 30 dias, o CFO Pedro Albuquerque disse ao Brazil Journal.

Mas – e essa ressalva importa –, para ser incluído nas duas opções sem haircut, é preciso oferecer crédito para a empresa: capital de giro, risco sacado ou compra de uma nova debênture. O plano prevê ainda novo financiamento para a o GPA de até R$ 200 milhões, a ser integralmente realizado por credores.

Caso a adesão a uma das opções ultrapasse o valor proposto no acordo – por exemplo, se a soma dos passivos dos interessados nas debêntures conversíveis for maior que R$ 1 bilhão –, haverá um rateio proporcional ao total da dívida de cada um, disse Albuquerque.

“A construção desse plano foi liderada pelos bancos,” disse o credor de uma asset. “Participamos menos do que gostaríamos. Agora precisamos sentar para conversar e ver como operacionalizar.” 

Mas ele disse ver a proposta como viável. Gestoras que têm fundos de pensão como cotistas podem ter dificuldade para colocar dinheiro novo no GPA, já que as fundações geralmente limitam investimentos em papéis com ratings baixos como o da companhia (CCC pela Fitch).

Fundos multimercado e high yield não teriam problemas, segundo este credor.

Para um advogado que trabalha para parte dos credores com papéis do GPA, o plano anunciado pelo GPA “é o maior roubo da historia do mercado de capitais”.

Segundo esse advogado, a proposta prevê que o crédito mínimo a ser ofertado pelos credores deve ser de R$ 15 milhões, o que inviabiliza a participação de assets com baixa exposição aos títulos da companhia e pessoas físicas. “Boa parte da conta da reestuturação será paga por esses credores.”

Ele disse que pretende entrar com um pedido de impugnação dessa cláusula dos R$ 15 milhões.

Para o CEO Alexandre Santoro, o acordo é um “marco que dá um novo horizonte para a empresa”. 

“Ainda temos uma agenda relevante para a frente. Concluindo essa negociação, podemos nos concentrar na estratégia operacional,” disse ele. “O importante é que a operação rodou normalmente durante toda a negociação com os credores.”

Segundo Santoro, os desembolsos que o GPA faria para pagar principal e juros de 2026 a 2028, que somavam R$ 5,2 bilhões, caem para cerca de R$ 800 milhões com a reestruturação.

É uma redução importante e condizente com o fluxo de caixa livre operacional da companhia, que somou R$ 669 milhões em 2025 – na época, insuficiente para pagar o custo da dívida, de R$ 920 milhões.

Esse custo inclui, além do pagamento de juros, as despesas com descontos de recebíveis e garantias, que somam entre R$ 250 e 300 milhões por ano, segundo um profissional que conhece os números da empresa.

O GPA vale R$ 1,3 bilhão na B3. O papel subiu 8,8% hoje – antes do plano se tornar público – e outros 4% ontem. A ação cai 31% desde o início do ano.