Um veterano da mineração que fez carreira na Vale e CSN, José Carlos Martins acaba de assumir como o novo chairman da Cedro para conduzir um plano de investimentos de R$ 10 bilhões que passará não só pelo minério de ferro, mas também por infraestrutura própria. 

Conselheiro da companhia do empresário Lucas Kallas desde sua fundação, ele quer executar metade desse capex até 2030, e para isso buscará parceiros. Um IPO não está nos planos agora, dada a sua avaliação de que o mercado tem uma “visão negativa e distorcida” sobre as perspectivas do setor.

“Eu não perco o meu sono por causa do minério de ferro,” Martins disse em uma conversa com o Brazil Journal na qual expôs as teses que guiarão a estratégia da Cedro nos próximos anos.

“Você pode ver que empresas como a Vale estão recomprando suas ações. Quando elas fazem isso é porque acham que o papel está barato. O mercado não está enxergando na indústria de mineração o múltiplo que seria o ideal para nós listarmos. Então listar hoje seria diluir o acionista, não faz muito sentido”.

Ao invés da Bolsa, a Cedro está considerando alternativas incluindo fundos de private equity para apoiar seu capex. 

“O que estamos procurando realmente são fontes de financiamento, sejam locais ou internacionais, e também parceiros que queiram vir participar do capital conosco,” disse Martins. 

Para garantir retornos – e atrair investidores – a Cedro aposta na extração de minério com alto teor de ferro, de até 68% (acima do padrão de referência global, de 62%), e num projeto de produção de pellet feed em Mariana, Minas Gerais.

Este produto, conhecido como “o minério verde”, é adotado para fabricação de aço por meio da técnica de “redução direta”, que usa gás natural ao invés de carvão, reduzindo as emissões de carbono no processo.

O projeto do pellet feed é orçado em cerca de R$ 3 bilhões e está avançando para a fase de licenciamento.

“É uma tecnologia mais recente e que está crescendo no mundo,” disse o chairman. “Nós acreditamos em uma continuidade da demanda pelo minério de ferro, mas tem que ser de melhor qualidade. O minério bom vai expulsar o minério ruim do mercado.” 

Ao mesmo tempo, Martins vê uma tendência de redução na concentração de ferro no minério mundial, causada pela sobreexploração de minas antigas devido à dificuldade para se investir em novas unidades – seja pela questão ambiental ou pela visão negativa sobre o setor que predomina no mercado.

“Se não abrem mais minas, o que acontece? Tentam exaurir as que já existem. Aí os custos sobem e a qualidade cai. Por exemplo: se você tinha um minério com teor de 62% e passa a produzir com 61%, precisa de 20 a 30 milhões de toneladas a mais para obter o mesmo volume de ferro. Por isso eu digo que não tem motivo para preocupação.” 

Apesar dessa confiança no futuro da mineração, a Cedro está preocupada, sim, com os gargalos de infraestrutura no País. 

Por isso, a companhia decidiu investir em um porto e uma ferrovia próprios, com capex de R$ 3,5 bilhões e R$ 3 bilhões, respectivamente.

“Acreditamos que nos próximos anos vai faltar porto no Brasil. Com a retomada da produção da Vale e outros investimentos na mineração em Minas Gerais, vai faltar capacidade. Então nós nos antecipamos,” disse Martins.

Dois anos atrás, Cedro arrematou a concessão por 35 anos para seu terminal em Itaguaí (RJ), e vai instalar ali um projeto com capacidade para movimentar até 15 milhões de toneladas por ano.

Será o “Porto do Meio”, entre os terminais da Vale e da CSN.

“Estamos nos preparando para um cenário de escassez portuária mais para a frente. O porto vai nos dar a possibilidade de participar diretamente do mercado externo e também atender outros mineradores que tenham interesse” disse Martins. 

Já a ferrovia é uma shortline ligando uma região de mineração em Minas a uma linha da MRS que depois levará as cargas até o porto de Sepetiba. O projeto atenderá outras mineradoras que hoje carregam suas produções com caminhões. 

A própria Cedro não prevê utilizar o ramal, pois movimentará seu minério com correias transportadoras elétricas até o terminal. 

Os projetos estão todos em fase de licenciamento, com o porto em estágio mais avançado. 

“A legislação ambiental brasileira é bastante exigente, como tem que ser realmente. Mas podia ser um pouco mais ágil,” disse Martins.