NOVA YORK – O mundo voltou a olhar para os emergentes – e desta vez, o Brasil pode estar melhor posicionado do que parece. 

Para Augusto Urmeneta, presidente do Bank of America na América Latina, o Brasil está no melhor momento para atrair investimentos desde o ápice do otimismo, no começo da década passada. 

“Tem os problemas de sempre? Sim. Mas acredito que é um dos melhores momentos do Brasil desde 2011,” Urmeneta disse ao Brazil Journal

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Segundo o peruano, que também é head de global corporate e investment banking, o atual cenário geopolítico, em especial os EUA se aproximando da América Latina, tende a beneficiar o Brasil – seja qual for o próximo presidente. 

“Minha visão é que o Brasil pode acabar sendo o principal emerging market, excluindo a China, nessa próxima fase. O investidor local é muito mais negativo sobre o Brasil do que o investidor estrangeiro.”

Se isso acontecer, o País pode ser beneficiado pela abundância de dinheiro no mundo. Segundo o BofA, há US$ 8 trilhões parados em money market funds nos EUA e outros US$ 3 trilhões de dry powder em private equity.

O fluxo para emergentes ex-China também disparou para US$ 96 bilhões, quase o dobro de todo o ano anterior.

Mas se há dinheiro entrando no mercado, só uma fatia pequena está indo para as empresas brasileiras e latinas. 

Um exemplo são as companhias de tecnologia da região, que acumulam queda de 17% desde janeiro, segundo levantamento do banco, mesmo entregando crescimento de receita e lucro acima de muitos pares globais.

Segundo o executivo, a entrada de dinheiro no Brasil ainda é um trade tático de parte dos investidores, mas que com a queda dos juros deve se tornar algo estrutural. 

“Quando os juros começarem a cair de forma mais relevante, os fluxos locais também devem voltar,” disse.

Veja os principais trechos da conversa, durante o Latin America Private Tech Trailblazers Summit, que o banco organiza anualmente.

Na sua opinião, o que podemos esperar da economia brasileira no atual momento geopolítico?

A América Latina está se tornando mais importante para os Estados Unidos, e dentro da região o único grande mercado consumidor de escala é o Brasil.

O México é muito forte, mas tem uma dinâmica muito mais industrial.

Já o Brasil, além de ter um mercado interno consumidor muito relevante, também é um país muito empreendedor. 

Acredito que é um dos melhores momentos do Brasil desde 2011. A minha visão é que o Brasil pode acabar sendo o principal emerging market, excluindo a China, nessa próxima fase.

Mas não vemos esse otimismo na bolsa brasileira, com exceção de algumas blue chips. Por que o re-rating ainda não aconteceu?

Os fundamentos estão aí, tanto de top line quanto de bottom line, então deveria haver um catch-up. Mas há alguns fatores e o primeiro é liquidez. 

Algumas empresas grandes, como Mercado Livre e Nubank, têm boa liquidez, mas outras não. E, no mundo da tecnologia, quando os investidores procuram oportunidades, hoje a prioridade está muito concentrada nos Estados Unidos, principalmente por causa de AI. 

O capital está indo para onde há liquidez e exposição a esse tema. Já fora de tech, a América Latina tem se beneficiado mais da tese de commodities e da expectativa de queda de juros.

Mas o fluxo estrangeiro para o Brasil hoje está focado no segundo maior juro real do mundo ou há apostas de longo prazo?

O investidor quer liquidez e boas histórias a preços atraentes. O IPO da Compass mostrou isso: havia demanda internacional forte. Ainda vejo espaço para um rally maior porque os fundamentos estão aí. Mas a expectativa de queda de juros é central nesta tese.

Os fundos locais ainda seguem com resgates, enquanto os internacionais estão entrando. Quando os juros começarem a cair de forma mais relevante, os fluxos locais também devem voltar.

Então ainda é mais um trade tático do que estrutural?

Ainda não diria que é estrutural, mas acho que pode virar.

As eleições brasileiras podem atrapalhar esse movimento?

Minha visão é que pode até mudar o presidente, mas a realidade fiscal não altera tanto assim. Se Lula continuar, o mercado já sabe o que esperar. Se houver mudança, pode melhorar ou piorar. Mas o ponto principal vai continuar sendo o fiscal, que vai ser um desafio para qualquer presidente. 

Independentemente disso, vejo o Brasil como oportunidade. O grande problema são os juros. Não dá para conviver com Selic de 14,5% por muito tempo.

O estrangeiro tem menos medo de um eventual Lula 4 do que o investidor local?

Sim. Acho que isso pesa menos para o investidor estrangeiro do que para o investidor doméstico. As companhias brasileiras, de forma geral, são bem administradas.

Você acha que o investidor local é pessimista demais?

O investidor local é muito mais negativo sobre o Brasil do que o investidor estrangeiro e sempre foi assim.

E o curioso é que o Brasil é um país extremamente empreendedor. Mesmo com juros altíssimos, todo mundo continua criando empresas, buscando capital, construindo coisas.

Vocês são muito críticos com vocês mesmos.

Vocês estão otimistas com a retomada dos IPOs?

Acho que as empresas vão começar a pensar em IPO no momento em que os juros caírem de forma mais substancial.

Mas existe oportunidade porque há companhias que não são necessariamente gigantes, mas têm bons fundamentos. Atuam em mercados com baixa penetração, por exemplo, então a história é boa.

O ponto é que, por enquanto, elas não estão precisando disso porque o mercado privado cresceu muito e passou a oferecer capital com prazos mais longos. Isso dá mais respiro para essas empresas.

Então, você não vê uma necessidade de uma corrida por IPOs?

Eu tenho quase 30 anos fazendo isso e já vi vários ciclos. Sempre vai haver oportunidades e se não tiver IPO, vai ter M&A e outras transações acontecendo.

E, honestamente, se esse ciclo demorar um pouco mais, talvez até seja melhor.

Vai permitir criar escala para as empresas, que podem  consolidar mercados, fazer fusões e construir companhias maiores e mais relevantes para o mercado global.

Durante o evento do BofA em Nova York, Nicolas Szekasy, sócio e fundador da Kaszek, disse que 2021 foi uma bolha – especialmente nas empresas tech. Você concorda?

Acho que houve um boom global, e a América Latina surfou essa onda. Tinha muitos investidores fazendo várias apostas ao mesmo tempo, esperando que uma desse muito certo.

Isso mudou e hoje os investidores estão muito mais seletivos. 

Mas eu não compararia aquilo com a bolha da internet dos anos 2000, por exemplo. Ali havia empresas sem produto nenhum. 

Em 2021 houve exagero? Sim. Algumas companhias talvez não fossem tão boas? Sim. Mas também havia muita empresa real, com produto real e mercado real.

Você acha que pode haver um cenário parecido com AI, ainda mais pelos altos investimentos em infraestrutura?

Há muitos datacenters sendo construídos, sem dúvida. Mas a questão é: isso está sendo feito sem demanda real ou não?

Hoje, todo mundo está usando computadores, celulares e tudo está operando na capacidade máxima. Então, aparentemente, a necessidade existe.

A grande pergunta é se essa demanda vai continuar no longo prazo. Eu acho que sim, pois ainda estamos vendo o começo dessa transformação.

Mas um ponto importante é que esses ganhos ainda não aparecem claramente nos números das empresas. Ainda não se vê CEOs dizendo: “minha produtividade subiu 15% porque implementei AI”.

Esse timing é o risco. Mas que a AI vai mudar o mundo, vai.