“Decola, Galeão!”

Foi assim que o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, comemorou o resultado do leilão da concessão do maior aeroporto do Rio no fim de março.

Na licitação, o grupo espanhol Aena aceitou pagar uma outorga de R$ 2,9 bilhões ao Governo Federal para assumir a gestão do terminal até 2039, vencendo uma disputa com a suíça Zurich e os atuais operadores, a Vinci Compass e a Changi.

Não é só a Aena que está fazendo uma aposta bilionária no Galeão: a aérea Gol está investindo forte para fazer do aeroporto seu hub internacional e, futuramente, sua principal base de operações no País.

Os números recentes ajudam a explicar a empolgação das empresas. O Galeão vive uma clara retomada, com recorde de passageiros em 2025 – um crescimento de 23,5% sobre 2024 – e a expectativa de uma nova máxima histórica este ano, de acordo com a atual operadora, RioGaleão. 

A Aena, que projeta assumir a concessão no segundo semestre, ainda destacou um importante fator por trás de seu apetite pelo Galeão: o aeroporto tem espaço de sobra para a decolagem sonhada pelo prefeito do Rio.

“A infraestrutura atual tem capacidade suficiente para absorver o tráfego esperado durante o restante do período de concessão. E não há obrigação contratual de realização de novos investimentos em capital (capex),” disse a companhia logo após a licitação. 

Para o sócio-diretor da A&M Infra, David Goldberg, essa característica deverá fazer do ativo “uma cash cow” para seus acionistas, o que explica a disputa acirrada no leilão, no qual a concessão foi oferecida após uma repactuação de obrigações com o Governo. 

“O Galeão tem uma capacidade enorme, é um aeroporto muito grande. Não precisa expandir capacidade. É só ocupar, tem apenas investimentos marginais para fazer. O problema ali era o contrato, que estava totalmente desequilibrado,” disse Goldberg. 

Pelo lado do crescimento no número de passageiros e voos, o aeroporto ainda é apoiado pelas limitações no Santos Dumont, no curto prazo, e pelo potencial esgotamento da capacidade de expansão de Guarulhos, no longo prazo. 

“Guarulhos hoje tem duas pistas relativamente próximas. Elas não têm operação completamente independente por essa proximidade. Então tem uma determinada capacidade que, em algum momento, vai chegar no limite. A partir do momento em que Guarulhos não conseguir colocar mais voos internacionais, esses passageiros têm que ir para algum lugar,” disse Goldberg. 

Para a Gol – que está fazendo investimentos totais de US$ 1,2 bilhão em suas operações no Galeão, criando um hub a partir do qual vai lançar diversos novos voos internacionais – outro grande trunfo do terminal é justamente seu endereço. 

“O PIB do Rio é parecido com o de Buenos Aires, mas Buenos Aires tem o dobro de voos internacionais. E pelo espectro internacional, qual dessas cidades é mais conhecida para um europeu, um americano? A imagem do Rio remete ali aos anos dourados,” o vice-presidente comercial e de estratégia da Gol, Mateus Pongeluppi, disse ao Brazil Journal.

“O tema da segurança pública já foi muito forte, mas vemos a cidade entrando em uma espiral positiva.” 

Com este olhar, em julho a Gol começará a operar três voos semanais do Rio para Nova York, e em setembro, quatro voos semanais para Lisboa. Também há planos de iniciar em breve rotas para Orlando e Paris. 

“A infraestrutura do aeroporto é fantástica pra esse tipo de conexão. A cidade do Rio de Janeiro tem o seu atrativo natural,” disse Pongeluppi.

A companhia já tem mais de 30 trajetos domésticos e internacionais partindo do Galeão, e a expectativa é que as operações ali se tornem suas maiores em algum momento no futuro, superando São Paulo. 

Essa estratégia da Gol acabou até gerando um fruto curioso – um marketing gratuito por parte do ex-prefeito Eduardo Paes (agora candidato ao Governo do Estado).

Paes usou sua conta no X para criticar empresas aéreas que estão usando a imagem do Rio em peças publicitárias às vésperas da Copa do Mundo mas não investem em suas operações na cidade. 

Tem demanda e tem estrutura pra isso. Cadê mais voos internacionais no Galeão? Cadê mais conexões para cidades do interior como Campos, Macaé e Cabo Frio?,” cobrou Paes na rede social. 

“A única empresa que merece a gratidão e o reconhecimento pela aposta no Rio é a Gol, que de fato está ampliando suas operações aqui. E sou garoto propaganda mesmo: acho que todo mundo aqui no Rio tinha que sempre que possível optar pela Gol.” 

Se por um lado esse apoio político tem favorecido a retomada do terminal, por outro também é um fator de incerteza.

Até antes da pandemia, o Galeão era o quarto aeroporto com mais passageiros do Brasil. Depois, caiu para a décima posição em 2022. 

O movimento de recuperação visto a partir de 2023 foi viabilizado em parte com medidas defendidas por Paes e adotadas pelo Presidente Lula para restringir o movimento no Santos Dumont.

Essas políticas, no entanto, tiveram idas e vindas, e não são necessariamente populares – o Galeão é mais distante do centro da cidade e o caminho até lá é a Linha Vermelha, temida por muitos por incidentes de violência urbana. 

Governos futuros poderiam rever esses incentivos ao Galeão? Essa pergunta chegou inclusive a afastar alguns potenciais interessados no leilão.

O novo contrato de concessão prevê reequilíbrio econômico-financeiro em alguns casos se houver uma mudança nas restrições ao Santos Dumont – mas não é totalmente claro como isso funcionaria, e as limitações ao aeroporto “rival” são previstas para durar só até 2028.

Enquanto isso, o Galeão encerrou 2025 em terceiro lugar entre os aeroportos mais movimentados do País, com 17,8 milhões de passageiros. 

Este ano, os atuais concessionários projetam 19,5 milhões. Entre janeiro e março, a movimentação já foi a maior para o período na história do aeroporto, com 5,2 milhões, uma alta de 19% na comparação anual.

A expansão foi de 20% nos passageiros domésticos e 17% nos internacionais.