O Brasil levou décadas para eliminar o sarampo, e em 2016 recebeu pela primeira vez a certificação internacional de país livre da doença.
Dez anos depois, a reintrodução do vírus e a queda da cobertura vacinal obrigam São Paulo a montar uma campanha de vacinação em massa para milhões de pessoas.
A campanha, que começou este mês, alcança toda a população de 6 meses a 59 anos da capital paulista, Guarulhos e São Bernardo do Campo — um universo estimado em mais de 10 milhões de pessoas.
Nos primeiros cinco dias foram aplicadas 292,7 mil doses contra o sarampo na cidade de São Paulo.
A mobilização ocorre após a confirmação de novos casos e diante do risco de o vírus voltar a se espalhar em uma população que acumulou bolsões de pessoas sem proteção. Até agora são 23 casos confirmados no estado.
O movimento de queda da cobertura vacinal, porém, começou antes da pandemia e se aprofundou nos últimos anos. Segundo o médico sanitarista Gonzalo Vecina, fundador e primeiro presidente da Anvisa e professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, o Brasil mantinha historicamente índices de vacinação de 90% a 95%, mas essa cobertura chegou a cair para 60% durante um período de dois a três anos.
O resultado, diz ele, foi o acúmulo de uma população que não sabe sequer se está protegida contra o sarampo. “Hoje, a vacinação, de uma maneira geral, caiu abaixo do que é chamado nível de imunidade de rebanho,” Vecina disse ao Brazil Journal.

O sarampo é particularmente preocupante porque está entre as doenças mais contagiosas conhecidas. Enquanto uma pessoa infectada pelo coronavírus transmitia a doença, em média, para outras três no início da pandemia, no caso do sarampo esse número chega a 15.
O Ministério da Saúde estima que cerca de uma em cada 20 crianças com sarampo desenvolva pneumonia. A encefalite aguda, por sua vez, pode atingir de uma a quatro crianças a cada mil.
A doença também tende a ser mais grave em adultos, podendo provocar complicações como encefalite e até levar à morte. É justamente esse grupo de adultos que pode ter ficado desprotegido após a queda da vacinação nos últimos anos.
A campanha em São Paulo acontece em um momento em que o sarampo avança em outros países das Américas. De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), a Guatemala notificou mais de 30 mil casos e 26 mortes. Já o México registrou cerca de 12 mil casos e 17 mortes. E os EUA enfrentam o maior surto da doença em 35 anos, com 2.465 casos confirmados.
O Brasil recebeu a certificação de livre da doença pela primeira vez em 2016, depois de anos sem transmissão sustentada do vírus. Mas perdeu o status três anos depois, após a reintrodução do sarampo e mais de 12 meses de circulação endêmica. A transmissão foi interrompida em junho de 2022 e, em novembro de 2024, o país foi novamente reconhecido pela OPAS como livre do sarampo.
A conquista, portanto, não é definitiva. Enquanto houver circulação do vírus em outras partes do mundo, países que interromperam a transmissão precisam manter altas coberturas vacinais, vigilância epidemiológica e capacidade de identificar rapidamente casos importados.
Considerado referência mundial em vacinação, o Brasil criou o Programa Nacional de Imunizações em 1973. O PNI distribui atualmente cerca de 300 milhões de doses de imunobiológicos por ano e mantém uma rede de aproximadamente 38 mil salas de vacinação em todo o País.
Ao longo de sua história, o programa ajudou o Brasil a eliminar ou controlar doenças como a poliomielite, rubéola, difteria e tétano.
O sucesso, porém, criou um paradoxo. À medida que doenças imunopreveníveis deixaram de fazer parte do cotidiano dos brasileiros, a percepção sobre o risco também diminuiu. A queda da cobertura vacinal abriu espaço para a formação de bolsões de pessoas suscetíveis.
A queda da vacinação também coincidiu com o crescimento da hesitação vacinal e com a maior circulação de discursos contrários às vacinas. O fenômeno, porém, é mais amplo do que o chamado movimento antivacina. Entre os fatores apontados pelo Ministério da Saúde estão a perda de confiança, a menor percepção do risco das doenças, dificuldades de acesso aos serviços e falhas de comunicação.
A deterioração começou antes da pandemia. Depois de atingir patamares próximos de 95% em meados da década passada, a cobertura de diversas vacinas infantis caiu de forma contínua. A recuperação recente ainda não foi suficiente para devolver o País ao padrão necessário para manter a proteção coletiva.
O dado mais atual do Ministério da Saúde ajuda a entender o cenário: em 2025, a cobertura nacional da tríplice viral foi de 92,9% para a primeira dose e apenas 78,3% para a segunda.
Para Vecina, o problema não se resolve apenas com campanhas de vacinação. O país precisa recuperar a capacidade de acompanhar individualmente quem está protegido e quem ficou para trás — algo que, segundo ele, deveria estar integrado à atenção primária e à Estratégia Saúde da Família.
“Nós temos 50 mil unidades de saúde num País que tem 5.700 municípios. Praticamente todas as cidades têm pelo menos uma unidade básica de saúde,” disse Vecina.
A própria poliomielite oferece um exemplo de como essa vigilância precisa ser permanente. O Brasil não registra casos da doença desde 1989, mas o PNI continua atualizando o esquema de vacinação.
Em novembro de 2024, o País abandonou a tradicional vacina oral, a “gotinha”, e passou a utilizar exclusivamente a vacina inativada e injetável, seguindo recomendações internacionais.
A campanha de multivacinação começou na semana passada em todo o País e vai até o dia 1º de setembro, com 20 imunizantes do calendário nacional. O objetivo é atualizar a caderneta de crianças e adolescentes menores de 15 anos.
O desafio do PNI, portanto, não é apenas recuperar a cobertura perdida. É manter a população protegida contra doenças que deixaram de fazer parte do cotidiano justamente porque a vacinação funcionou.






