O Mercado Livre – mais uma vez – cresceu num ritmo brutal no ecommerce e no Mercado Pago no segundo tri, batendo o consenso em cerca de 4%.

O problema é que a margem, a grande dúvida do mercado, veio ainda mais baixa que o esperado.

A receita líquida disparou 50% para US$ 10,2 bilhões – o maior avanço em quatro anos e o 30º trimestre consecutivo com uma alta superior a 30%. Un-f…-believable para uma companhia desta escala.

O consenso esperava US$ 9,78 bilhões.

Mesmo superando as expectativas no top line, a margem operacional ficou em apenas 6,7% – uma queda de 5,5 pontos percentuais na comparação anual e de 0,2 ponto ante o primeiro tri. O consenso apontava para uma margem de 6,9%. 

A margem é a menor numa base comparável desde os 6,2% do primeiro tri de 2022. O lucro operacional caiu 17% para US$ 683 milhões. 

A maior parte da pressão está associada à decisão do MELI de reduzir o valor mínimo para o frete grátis para R$ 19 em junho do ano passado, disse o diretor de RI, Richard Cathcart. 

“Mas um ano depois, a conversão está muito mais alta, as pessoas estão comprando com mais frequência, mais categorias e estão permanecendo mais na plataforma,” Cathcart disse ao Brazil Journal. “Isso não é um efeito passageiro. É um impacto duradouro e estrutural.”

No Brasil, o GMV cresceu 39% em moeda constante, e o número de itens vendidos avançou 56%. A taxa de conversão aumentou 1,1 ponto desde a redução do limite do frete grátis, enquanto o número de itens comprados por usuário cresceu 19%.

Segundo o executivo, as novas safras de compradores também estão adquirindo mais produtos, em mais categorias, e apresentando maior retenção que as anteriores. 

Mas o frete não foi a única pressão.

A margem bruta caiu 2,8 pontos em relação ao primeiro tri, refletindo também descontos para pagamentos com PIX, a redução das tarifas cobradas dos vendedores e investimentos para conquistar clientes do Mercado Pago, especialmente no México.

Vinte e sete anos depois que Marcos Galperin abriu o MELI como um site de leilões de produtos usados em Buenos Aires, a companhia ainda está reinvestindo os ganhos de eficiência porque ainda enxerga um espaço muito grande para crescer. 

Isso porque, segundo Cathcart, um cliente do MELI compra em média de 12 a 13 produtos por ano – menos de 10 no Brasil – comparado a mais de 50 nos EUA.

“Existe um cenário de longo prazo em que esse negócio gera margens muito mais altas. Mas seria um erro apressar todo o negócio para chegar nesse cenário num prazo artificial,” disse o executivo, sem dar prazo para que as margens voltem a crescer. 

A justificativa do MELI para a estratégia está no comportamento dos chamados “usuários ecossistêmicos”: aqueles que utilizam tanto o marketplace quanto o Mercado Pago.

Este grupo cresceu 37% em número de usuários no trimestre, acima dos 26% de crescimento dos compradores únicos e dos 30% dos usuários ativos do Mercado Pago. Desde o fim de 2023, a participação dos usuários ecossistêmicos na base total aumentou 8 pontos percentuais.

Segundo Richard, o lucro por usuário ecossistêmico é “múltiplas vezes maior” que a soma do resultado gerado por um cliente exclusivo do comércio e outro exclusivo da fintech.

“Nosso foco é maximizar o número de usuários ecossistêmicos e o engajamento desses usuários,” disse o diretor. “É algo único para a gente e um foco cada vez mais forte para a companhia.”

O Mercado Pago também acelerou e chegou a 88 milhões de usuários ativos mensais – no Brasil, a base cresceu 38%; no México, 45%.

Os chamados ativos sob gestão – o dinheiro que os usuários mantêm nos produtos de rendimento e investimento do Mercado Pago – avançaram 68% para US$ 23 bilhões, enquanto a carteira de crédito cresceu 75% e superou US$ 16 bilhões.

Apesar da aceleração, a inadimplência permaneceu controlada. O percentual da carteira com atrasos entre 15 e 90 dias ficou em 7%, próximo das mínimas históricas. Entre os usuários do cartão, a inadimplência ficou em 4,6%.

Cathcart atribuiu o desempenho à combinação dos modelos de machine learning com os dados proprietários do comércio e do Mercado Pago.

As provisões para perdas de crédito quase dobraram, de US$ 690 milhões para US$ 1,28 bilhão, passando de 10,2% para 12,5% da receita consolidada.

Parte dessa pressão decorre da regra contábil americana aplicada ao MELI: a companhia reconhece 100% da perda esperada no momento da concessão do crédito, enquanto a receita de juros entra gradualmente durante a vida do empréstimo ou do cartão.

Outra avenida que está ganhando escala é a publicidade, uma das linhas de maior margem do MELI. O Mercado Ads faturou mais de US$ 1 bilhão no primeiro semestre. 

No segundo tri, sua receita cresceu 62% em moeda constante, e a empresa superou pela primeira vez 10% de participação do mercado latino-americano de publicidade digital, tornando-se a terceira maior plataforma do segmento.

Em 2020, essa participação era de apenas 2%.

A companhia também vem apostando em ferramentas de inteligência artificial para aumentar a adesão de pequenos e médios vendedores e melhorar o retorno das campanhas. 

“Quanto mais crescemos na publicidade, mais recursos temos para decidir se queremos investir um pouco mais aqui ou ali,” disse Richard.