Zélia Duncan cresceu com vergonha da própria voz. Grave demais, presente demais, diferente. Anos depois, essa voz se tornaria uma das mais reconhecíveis da música brasileira. Lançando Agudo Grave, seu 21º trabalho em 45 anos de carreira, Zélia é a convidada deste episódio de The Business of Life, apresentado por Nilton Bonder.
A história por trás do título vem de longe, cercada de simbolismo. Nascida em Niterói e criada em Brasília, Zélia cresceu numa família de cantores: o avô Alcides tinha uma voz muito grave; a avó Zélia — de quem adotou o Duncan, seu sobrenome artístico — tinha voz aguda, de soprano. “Ter esse ‘agudo grave’ na minha vida é muito forte,” diz.
Aos 12 anos, ganhou um violão da mãe, que chamou um amigo seresteiro para lhe dar aulas. Mas o instrumento acabou revelando outra vocação. O professor logo percebeu que Zélia cantava mais do que tocava. A mãe também reparou. “Eu passo pela sala e você nunca está tocando. Você sempre está cantando,” dizia.
A carreira começou aos 16, quando Zélia enviou uma fita para uma seleção da Sala Funarte, em Brasília. Cantou músicas de Elis Regina, Milton Nascimento, Ivan Lins e Paulinho da Viola — repertório que, segundo ela, talvez não fosse “próprio” para sua idade. Venceu a seleção e, ao lado de músicos profissionais, lotou a sala por quatro dias. “Aquela voz que me envergonhava começou a dar sentido à minha vida,” diz.
Na mesma época, descobriu ser gay. Mas foi a mãe quem a “tirou do armário”, anos depois. “Ela disse: ‘Olha, eu sei o que fulana era sua. Não quero mais você se escondendo.”
Zélia diz que grande parte de seu aprendizado veio da relação com o público. “Eu aprendi muito no camarim,” diz. Durante anos, fãs entraram para contar que suas músicas tinham mudado suas vidas; aos poucos, Zélia passou a se reconhecer nelas também. “Quando eu entendi que eu era a pessoa que entrava no meu camarim, minha vida mudou,” diz.
Zélia diz não querer ficar presa a sucessos — como Catedral e Alma — e sente que precisa seguir oferecendo o novo. “O artista que não se arrisca está se arriscando terrivelmente,” diz.
Como lição de vida, fala sobre tempo e humildade. “Eu estourei aos 30. Tem gente que estoura aos 15, aos 18… Então, com 30 anos, eu já sabia que o sol não brilhava pra mim,” diz. Hoje, prefere olhar para o agora. “Gostaria que as pessoas valorizassem o tempo delas e dos outros.”
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