BOSTON – As eleições de midterm nos EUA começaram a tomar forma esta semana, quando alguns estados-chave foram às urnas definir quem serão os candidatos dos dois partidos em novembro.

No Partido Democrata, os resultados escancaram a falta de rumo.

À deriva desde a acachapante vitória de Donald Trump em 2024, a oposição vive uma disputa interna entre duas facções que buscam assumir as rédeas do partido. 

De um lado, políticos veteranos do establishment. Do outro, o grupo Democratic Socialists of America (DSA), que ganhou força nacional com a eleição de Zohran Mamdani, um membro desta ala mais radical, como prefeito de Nova York.

Os resultados das primárias democratas ilustram bem essa batalha pela alma do partido.

Na disputa pela candidatura a senador por Michigan, Abdul El-Sayed, um membro do DSA, derrotou Haley Stevens, uma deputada federal por quatro mandatos, por uma diferença de pouco mais de 15 mil votos.

El-Sayed se apresentou como o candidato anti establishment e disse que os Democratas precisam rejeitar a influência das grandes corporações em prol de uma agenda mais progressista. 

Embora ele negue ser um “Democrata socialista”, recebeu apoio de diversos membros do grupo, além de ser um forte crítico da ajuda dos EUA a Israel.

Stevens foi eleita para o Congresso em 2018 depois de atuar como chefe de gabinete da força-tarefa do setor automotivo do Presidente Barack Obama, quando ajudou a supervisionar os resgates financeiros de General Motors e Chrysler. 

Ela foi fortemente apoiada por grupos pró-Israel e defende a continuidade do envio de ajuda ao país.

“Existe muita preocupação e raiva em relação ao governo Trump, e El-Sayed foi melhor do que Haley Stevens em mostrar empatia aos eleitores de Michigan e em oferecer soluções possíveis,” o professor emérito de ciência política da Universidade de Michigan, Michael Traugott, disse ao Brazil Journal.

“O apoio que o AIPAC [o lobby pró-Israel] deu a Stevens e a grande quantia de dinheiro enviada pela campanha foi explorado por El-Sayed, que usou isso para mostrar que ele representaria melhor o cidadão médio de Michigan contra o interesse dos grupos organziados.”

A ala moderada do partido defendia a candidatura de Stevens por considerar que ela teria mais chances contra Mike Rogers, o candidato Republicano ao cargo que venceu as primárias sem disputa.

A vaga do Senado em Michigan é essencial para que os Democratas consigam obter a maioria na Casa. Eles precisam ganhar cinco cadeiras no Senado para obter 52 senadores, o que configura maioria, já que o vice-presidente do país é considerado o presidente do Senado e tem o voto de Minerva.

Atualmente os Democratas contam com 45 senadores e 2 independentes que se alinham ao partido na maioria das votações.

Os candidatos do DSA em Michigan também mostraram força nas disputas para a Câmara. No distrito que representa Detroit, o atual deputado Shri Thanedar perdeu para Donavan McKinney. Os dois são progressistas, mas McKinney bateu forte no “genocídio” em Gaza, enquanto Thanedar teve uma postura pró-Israel.

Mas se em Michigan o DSA mostrou força, no Missouri sofreu uma de suas maiores derrotas.

Em um dos poucos distritos Democratas do Estado, a ex-deputada Cori Bush – membro do DSA e que integrava o The Squad, o grupo de deputadas de esquerda liderado por Alexandria Ocasio-Cortez e Ilhan Omar – perdeu a disputa para Wesley Bell, que já a havia derrotado há dois anos. 

A expectativa de Bush era de que a crescente influência do DSA no partido pudesse recolocá-la no Congresso. Mas Bell recebeu o apoio de Democratas tradicionais, como o líder da minoria, Hakeem Jeffries, e a ex-presidente da Câmara, Nancy Pelosi.

“Só alguns candidatos conseguem usar o rótulo de “democrata socialista” e considerá-lo útil em suas campanhas. El-Sayed foi muito cuidadoso em não usar esse termo durante a campanha,” disse Traugott.

“Trump e os republicanos vêm testando esse discurso de equiparar o socialismo democrático ao comunismo. Isso é uma espécie de estratégia de desmobilização: mesmo que os republicanos não consigam converter essas pessoas em eleitores, se conseguirem deixá-las suficientemente incomodadas ou preocupadas a ponto de ficarem em casa, a diferença na participação eleitoral pode acabar favorecendo os republicanos.”

Na Virgínia, o caminho democrata foi o mesmo: nomes ligados ao establishment.

O Estado é uma das maiores apostas dos Democratas para obter a maioria na Câmara, onde hoje têm 212 assentos ante 218 dos Republicanos – além de um independente e 4 vagas em aberto.

Shannon Taylor, a promotora-chefe do Estado, venceu a primária e enfrentará Rob Wittman. (Havia sete candidatos, e Taylor teve 20% dos votos.)

A outra primária foi vencida por Elaine Luria, que derrotou três adversários e enfrentará (de novo) a republicana Jen Kiggans, a mesma Republicana que já a derrotou em 2024.