A guerra no Oriente Médio pode “derrubar as economias” e os preços do petróleo podem atingir US$ 150 se o Estreito de Ormuz permanecer fechado, disse o ministro do Petróleo do Catar em uma alarmante entrevista publicada hoje no Financial Times

A sombria projeção vem um dia após a Guarda Revolucionária do Irã afirmar que atacou um petroleiro americano em Ormuz. 

Passam por ali cerca de 20% dos barris negociados globalmente, e o Irã disse que pretende manter a travessia fechada enquanto durar o conflito. 

“Do jeito que estamos vendo os ataques, trazer navios para o estreito é muito perigoso. Será difícil convencer os navios a entrar,” disse o ministro catariano Saal al-Kaabi ao FT. 

Ele acrescentou que o mercado de gás natural também sofrerá impactos severos e que levaria “semanas ou meses” para as exportações serem normalizadas mesmo se o conflito fosse encerrado hoje.

Os preços do petróleo Brent disparavam para mais de US$ 90 nesta manhã, repercutindo a entrevista do ministro. Antes da guerra, estavam na casa dos US$ 70. 

Ontem, com o barril nos US$ 85, um ex-assessor da Casa Branca para assuntos de energia, Bob McNally, da Rapidan Energy Group, disse à CNBC que o mercado parecia ainda “muito otimista” sobre Ormuz.

Na véspera, dados da Bloomberg mostravam que a passagem de petroleiros pelo estreito havia caído a praticamente zero, mas a maior parte dos analistas e bancos ainda esperava uma interrupção curta.

A Goldman Sachs apontou como cenário-base só mais cinco dias de exportações “muito baixas, em 15% do normal” passando pelo estreito. O banco subiu a projeção de Brent para o segundo tri em US$ 10, para US$ 76 por barril. 

McNally, da Rapidan Energy, disse que havia muito ceticismo com os riscos geopolíticos após diversos eventos que poderiam ter afetado os preços do petróleo terem levado apenas a um salto de curto prazo nos últimos anos.

À CNBC, ele fez referência à fábula do “menino que gritava lobo”, lembrando várias preocupações apaziguadas rapidamente desde um incidente em 2019, quando o Irã atacou instalações da Aramco na Arábia Saudita. 

Naquela ocasião, o ex-CEO da Enauta, Decio Oddone, chegou a comparar o evento a um “11 de setembro” para o setor de petróleo, mas o impacto sobre os preços durou poucos dias. 

Neste ano, a maior parte dos analistas tinha como cenário um petróleo em forte queda antes do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, devido a perspectivas de um grande excedente de oferta. 

Nos últimos dias, com o Irã atacando diversas infraestruturas de petróleo de países vizinhos em retaliação, bancos começaram gradualmente a revisitar as projeções. 

Diversos analistas citaram em relatórios que o Brent pode superar os US$ 100 com uma interrupção prolongada no fluxo em Ormuz, mas essa hipótese ainda não é o cenário-base para a maioria deles. 

Nos últimos dias, Donald Trump disse que os EUA poderiam fornecer seguros e até escoltar petroleiros em Ormuz, embora não tenha ficado imediatamente claro como isso poderia ocorrer. 

A corretora de seguros e consultoria de risco Marsh disse que 150 embarcações precisaram mudar de rota e pelo menos cinco sofreram danos, representando uma exposição estimada em US$ 90 milhões em valor de casco marítimo, excluindo impactos sobre carga e responsabilidades. 

As taxas de seguro para trânsito passaram de cerca de 0,25% sobre o valor do casco antes do último fim de semana para cerca de 1,25% ontem à tarde. 

“Espera-se que isso aumente nos próximos dias, à medida que intensifica possibilidades de fechamento de Hormuz.” 

Principal compradora dos barris que passam pela região, a China disse que pretende negociar com o Irã para garantir a passagem de embarcações.

Com a disparada do barril do petróleo, tem aumentado a defasagem entre os preços dos combustíveis da Petrobras e os valores internacionais, potencialmente pressionando resultados da divisão de refino da companhia. 

Ontem, o diesel da Petrobras era vendido cerca de 30% abaixo da chamada paridade de importação, e a gasolina 24% abaixo, segundo dados do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). 

Pela atual política de preços, adotada desde o início do Governo Lula, a Petrobras tem segurado mais as cotações do diesel e da gasolina, visando não repassar “volatilidade” aos consumidores. 

A CEO da estatal, Magda Chambriard, disse há pouco em teleconferência que essa prática está mantida e que os preços ainda não são discutidos na diretoria. 

“Tenho recebido muitas perguntas como essa: isso valeu quando o preço do petróleo caiu, mas isso vai valer quando aumentar, e quando aumentar tão vertiginosamente como agora? Nossa resposta é sim, vale a mesma coisa.”

Na Eneva, que compra gás natural liquefeito da Catar Energy para sua termelétrica de Porto de Sergipe, analistas questionaram a empresa sobre impactos da guerra em teleconferência de resultados hoje. 

O diretor de Comercialização da Eneva, Marcelo Lopes, disse que a Catar Energy deve seguir atendendo o contrato com carregamentos enviados a partir dos EUA.

“O incidente no Oriente Médio não deve inicialmente afetar as cargas aqui em Sergipe. Não enxergamos esse risco por hora. Em uma impossibilidade de receber gás da Catar Energy, iremos a mercado.”