A Viveo acaba de anunciar um aumento de capital de até R$ 870 milhões para tentar virar a página da alavancagem, o principal problema que tem pesado sobre a tese da distribuidora de medicamentos.
O aumento será feito por meio da emissão de até 966,4 milhões de ações ao preço de R$ 0,90 cada – um desconto de 26,8% em relação ao fechamento de ontem, de R$ 1,23.
Para atrair interessados num momento em que a empresa negocia perto do low histórico, a Viveo permitirá que as novas ações também sejam adquiridas por meio da conversão de debêntures.

A operação será ancorada pela DNA Capital, um veículo da família Bueno que detém 37% da Viveo. O acionista de referência se comprometeu a subscrever o mínimo da oferta – R$ 427 milhões – por meio da conversão de debêntures.
Para os debenturistas, há um incentivo econômico relevante.
Segundo Flavia Carvalho, a diretora de RI e M&A da Viveo, as debêntures da Viveo têm sido negociadas no mercado secundário com desconto de 55% a 60%, mas poderão ser usadas na conversão pelo valor de face.
O aumento de capital vem poucos dias depois de a companhia concluir uma renegociação com os debenturistas para alongar o perfil da dívida.
As assembleias foram concluídas na primeira quinzena de junho e empurraram os vencimentos das debêntures para 2034, com uma carência para amortização do principal até 2029.
Segundo Flavia, o aumento de capital “não era uma condição dos debenturistas”. “A negociação foi pelo alongamento, e o aumento de capital é mais um passo na trajetória de desalavancagem,” disse ao Brazil Journal.
A Viveo fechou o primeiro tri com dívida líquida de R$ 2,9 bilhões e alavancagem de 3,88x – abaixo do covenant e o menor nível desde o terceiro tri de 2024.
Considerando apenas a conversão mínima da DNA, a alavancagem cairia para cerca de 3,3x. Se o aumento de capital for integralmente subscrito – e todo em conversão de dívida – a alavancagem cairá para cerca de 2,7x.
A operação é uma tentativa de resolver a assimetria que tem marcado a Viveo nos últimos trimestres: a operação melhorou, mas o balanço continuou pressionado.
No primeiro tri, a receita líquida cresceu 1,7%, para R$ 2,8 bilhões, enquanto o EBITDA ajustado avançou 30,4%, para R$ 208 milhões, com a margem subindo para 7,4% – o sexto trimestre consecutivo de expansão.
A margem bruta chegou a 15,8%, o maior patamar desde o segundo trimestre de 2023.
Ainda assim, a companhia reportou prejuízo líquido de R$ 57 milhões, pressionada pelo resultado financeiro negativo de R$ 173 milhões – e é esse problema que o aumento de capital tenta endereçar.
Desde que assumiu a companhia em janeiro, André Clark tem tentado reposicionar a Viveo menos como uma distribuidora tradicional e mais como uma plataforma de infraestrutura crítica para o setor de saúde.
“Nosso negócio é processo,” disse Clark. “A Viveo é uma infraestrutura crítica de logística que serve o setor de saúde.”
Clark diz que a Viveo deixou de buscar volume a qualquer preço e passou a ser mais seletiva nos contratos, priorizando clientes e fornecedores que remunerem a confiabilidade da operação.
“Não somos um trader que compra barato e vende caro,” disse ele. “Quando o cliente quer simplesmente fluxo de produto, não somos o parceiro certo. Quando ele quer confiabilidade, estabilidade e capacidade de entrega no Brasil inteiro, ele escolhe a gente.”
O executivo diz que essa disciplina comercial explica boa parte da recuperação da margem e que o ganho de margem bruta no primeiro tri apareceu em todos os canais e não apenas num negócio isolado.
Segundo o CEO, a Viveo vem atacando uma agenda de eficiência operacional: revisão de portfólio, gestão de pricing, otimização logística, racionalização de despesas, redução de perdas, melhor gestão de estoques e capital de giro, além de treinamento da equipe em metodologias como Lean Six Sigma.
É o que Clark chama de back to basics e que virou o “centro da estratégia”.
“Uma coisa é estabilizar a companhia. Essa etapa foi cumprida,” disse o CEO. “Agora é levar a companhia para um nível de variância e número de erros muito menor.”
Na visão do CEO, o cenário do mercado de saúde é positivo para a Viveo. A companhia está exposta a tendências como o envelhecimento da população, o crescimento dos medicamentos especiais e o avanço dos GLP-1 – que já se tornaram um dos negócios mais relevantes da companhia.
Mesmo que o aumento de capital tenha sucesso, Clark diz que a empresa não pensa em voltar a crescer por M&As. “A própria estrutura de capital era uma desvantagem comparativa e tem que virar uma vantagem comparativa,” disse Clark.
A Viveo vale R$ 397 milhões na B3.
O JP Morgan foi o assessor financeiro exclusivo da operação.
O Stocche Forbes fez a assessoria jurídica.











