A palhaçada em que se transformou a definição de uma candidatura ao Governo de Minas – obliterando o que restava da credibilidade do partido e do pré-candidato envolvidos – é apenas a ilustração mais crua da decadência da política brasileira e de uma sociedade cada vez mais indiferente ao futuro do País.
Minas – que já pariu alguns dos maiores homens públicos do Brasil – agora tem grandes chances de ser governada por um influencer que representa melhor do que ninguém a revolta da sociedade, mas que é incapaz de articular uma política pública sequer, ou de contribuir qualquer coisa além de sua própria revolta.
Como chegamos até aqui?
Com um misto de abdicação de responsabilidade por parte das elites e uma renúncia ao raciocínio por parte do brasileiro médio – tudo embalado pela espetacularização da política criada pelas redes sociais, que promovem quem grita ao invés de quem pondera, e quem é “famoso” ao invés de quem realmente tem conteúdo.
A elite brasileira está sumida. Parte dela está com a cabeça em Miami ou Portugal. Outra parte – que antes se organizava, com verdadeiro espírito público, para apoiar ou vetar candidatos – agora se limita a lamentar o País diariamente em grupos de Whatsapp. Uns se queimaram ao se envolver com a política, outros foram investigados por Alexandre de Moraes, e muitos (a maioria) perderam a capacidade de influir.
O Brasil tem que se perguntar se a lei que proibiu a doação das empresas – como se isto fosse “limpar” a política pós-Lava Jato – contribuiu para elevar a qualidade do debate ou, ao contrário, para criar uma seleção adversa, em que os maus candidatos conseguem se eleger com o (farto) dinheiro do Fundo Eleitoral e depois não têm que prestar contas a absolutamente ninguém.
Há ainda um terceiro grupo: a elite que só trabalha a favor de seus interesses setoriais ou cartoriais, e se adapta a qualquer governo: os maus e os péssimos. É a elite do “f@#$-se o País: meu pirão primeiro.”
Aqui, além de alguns grandes empresários conhecidos, incluem-se também os presidentes dos partidos, que na maioria dos casos oscilam entre a mediocridade e a venalidade, escolhendo apenas candidatos “para ganhar” – por piores e mais incapazes que sejam os nomes.
Mas o tal do “povo brasileiro” também precisa se ajudar.
A imprensa brasileira – um outro tipo de elite – sempre viu (e ainda trata) o “povo” como um pobre coitado, que vota mal porque tem baixa escolaridade e não tem acesso a boa informação (que ironia…).
Mas parece que o povo acreditou na narrativa e resolveu fazer jus a ela. Os personagens tétricos ou teratológicos que o Brasil envia a cada quatro anos ao Congresso, às Assembleias Legislativas e às Câmaras de Vereadores são cada vez mais da cepa do inacreditável.
Está na hora do brasileiro médio – o tal do povo – parar com o coitadismo e descobrir que ele depende mais de conseguir eleger um bom Governo do que as próprias elites.
A se acreditar em Lula, ele acabou com a fome no País, e hoje os mais humildes brasileiros possuem um smartphone (basta olhar dentro do ônibus). O Bolsa Família garante o acesso a nutrientes, e o acesso à informação já é amplo e democrático. Não cabe mais alegar ignorância. Povo que vota mal merece os governantes que tem.
Em todo o País, há inúmeros casos – muito conhecidos – de candidatos que não prestam. Uns, veteranos na política, já deram tudo o que tinham que dar e não têm uma ideia nova sequer há pelo menos 20 anos. Outros são mau-caráter. Outros já quebraram prefeituras e estados inteiros – mas estão aí, sem o menor pudor, candidatos outra vez.
Cabe à elite apontá-los. Cabe à imprensa expô-los. Cabe ao povo pará-los.
Mas obviamente, este editorial será lido apenas por uma elite desinteressada, enquanto o povo acompanha interessadíssimo o que realmente importa: o Big Brother da Rede Globo.











