As seguradoras estão descobrindo um novo bolso no mercado de capitais.
A Avla Seguros, a Galapagos Capital, a Tivio Capital e a fintech Marvin estruturaram a primeira emissão de Letra de Risco de Seguro (LRS) efetivamente distribuída a investidores institucionais, numa operação de R$ 126 milhões.
A emissão foi feita pela Avla tendo como lastro o seguro de um contrato comercial entre uma fabricante de eletrônicos e uma grande varejista.
Os investidores âncoras da LRS são a Tivio Capital – a gestora dedicada a ativos alternativos do Grupo Bradesco – e a própria Galapagos. Ambas ficaram com mais da metade da oferta.

A remuneração do título não foi divulgada, mas executivos envolvidos na operação disseram ao Brazil Journal que, devido à novidade do instrumento, a taxa saiu com um prêmio sobre estruturas comparáveis de crédito privado com risco semelhante, precificadas ao redor de CDI + 4,5%.
Mais do que o tamanho da operação – a maior do tipo já feita no Brasil – a LRS inaugura uma tese potencialmente relevante: permitir que seguradoras busquem capital diretamente com investidores, em vez de depender apenas do mercado tradicional de resseguros.
“Até a chegada da LRS, a alternativa era usar o próprio balanço ou resseguradores,” disse o CEO da Avla Brasil, Felippe Astrachan.
Na prática, a LRS, um instrumento criado pelo marco legal da securitização em 2022, transforma o risco de seguro em um ativo financeiro.
Funciona assim: uma seguradora emite uma apólice e transfere o risco para uma sociedade seguradora de propósito específico (SSPE), veículo regulado criado para securitizar esse risco.
Com isso, a estrutura emite a letra para investidores – num processo semelhante aos vistos nos CRIs e FIDCs.
O dinheiro captado fica segregado como garantia da operação. Se o evento segurado não acontecer, o investidor recebe o principal de volta mais remuneração. Se houver sinistro, os recursos podem ser usados para cobrir a perda.
Em termos simples, é como se o mercado de capitais passasse a fazer parte do trabalho historicamente exercido pelos resseguradores.
A peça central da operação é a Galapagos, que criou no passado uma SSPE para realizar esse tipo de transação.

Na prática, a empresa atua como uma espécie de ressegurador alternativo: recebe o risco da seguradora, estrutura a operação e o redistribui ao mercado por meio da emissão da LRS, “trazendo investidores independentes para dentro da estrutura,” disse Roberto Takatsu, o CFO da Galapagos.
A Galapagos já havia feito duas operações de LRS antes: uma de R$ 100 milhões e outra de R$ 13,5 milhões, ambas em seguro garantia e com capital proprietário ou de investidores ligados à própria casa.
Além da Galapagos, o IRB emitiu R$ 33,7 milhões em uma operação no ano passado.
A nova emissão é a primeira com distribuição efetiva a investidores externos. A ambição agora é transformar a SSPE numa plataforma para ampliar a capacidade do mercado de seguros.
Takatsu disse que a Galapagos tem entre 12 e 15 operações em pipeline, começando por crédito e garantia, mas avançando também para vida, planos de saúde, previdência e risco de longevidade.
A demanda da Avla pela LRS surgiu por limitações práticas. A seguradora chilena, que já distribuiu mais de R$ 1 bilhão em prêmios no País, percebia que havia uma demanda muito grande de clientes por mais capacidade de seguro de crédito, mas não conseguia acessar o capital.
“Nem a gente nem o mercado segurador estavam conseguindo atender completamente essa demanda,” disse Astrachan.
Para a Tivio, a LRS é uma nova classe de ativo alternativo com retorno atrativo, menor volatilidade e descorrelação em relação a renda fixa e ações tradicionais.
No exterior, estruturas semelhantes – conhecidas como Insurance Linked Securities (ILS) – já formam um mercado de mais de US$ 60 bilhões, concentrado principalmente em riscos catastróficos, como furacões e terremotos.











