Bernard Arnault está em modo contenção de crise.
O maior empresário da França abandonou sua postura low profile no domingo, depois que o Le Monde publicou uma matéria afirmando que seus cinco filhos estão disputando o controle da LVMH numa trama à la Succession, a série épica da HBO.
Arnault estreou uma conta no X para desmentir a reportagem, numa movimentação tão enfática que aumentou as suspeitas de que algo realmente esteja acontecendo nos bastidores.

A notícia veio em um momento em que o controlador da LVMH começa a ser mais questionado sobre seu plano sucessório. O empresário, hoje com 77 anos, não deve profissionalizar a gestão da empresa, como o mercado preferiria.
Nos anos 70, Arnault teve dois filhos com Anne Dewavrin: Delphine e Antoine.
Hoje a filha mais velha tem 51 anos e é CEO da Dior; e o primeiro dos quatro filhos homens, de 49 anos, também está no management da marca francesa e é o chefe de comunicação da LVMH.
Delphine é casada com o empresário Xavier Niel, o controlador da telecom Iliad, que segundo o Le Monde protagoniza brigas com Hélène Mercier, a segunda e atual mulher de Arnault.
Niel, que é um acionista do próprio Le Monde, é acusado de tentar influenciar as decisões da esposa para beneficiar seus negócios.
Antoine, o irmão de Delphine, superou a fama de baladeiro e se tornou essencial na LVMH. Além de comandar a comunicação, está no comitê executivo da holding e no board da Dior.
Quando Delphine e Antoine se aproximavam dos 20 anos, Arnault teve Alexandre, Frédéric e Jean com Hélène.
Antecipando disputas, o empresário fez com que os rebentos mais velhos batizassem os mais novos para promover a integração entre os filhos, mas a relação entre os irmãos nunca teve espaço para ser funcional, segundo o Le Monde.
Hélène se tornou um ponto importante de fricção com os filhos mais velhos do empresário e, na última década, posicionou seus filhos para disputar diretamente os principais cargos de liderança da LVMH.
Delphine inicialmente não queria assumir a empresa, mas ganhou uma plataforma ao lado de Niel, com quem tem dois filhos. Em 2023, assumiu a cadeira na Dior, superando seu meio-irmão Alexandre na disputa.
Apesar de ser quase 20 anos mais novo que Delphine, Alexandre, hoje com 34 anos, acreditava merecer assumir a Dior no lugar da irmã depois de uma temporada na Tiffany & Co.
Mas como seus resultados na joalheria não foram lá essas coisas, Alexandre acabou como o número 2 da Moët Hennessy – num momento em que a indústria de bebidas está em crise.
Enquanto isso, Frédéric, de 31 anos, despontou como um dos favoritos da linha sucessória dos Arnault. Ele chefiou a Tag Heuer antes de assumir no ano passado a Loro Piana, a queridinha do quiet luxury e um dos principais negócios do grupo.
O caçula Jean, de 28 anos, atua hoje como diretor da divisão de relógios da Louis Vuitton, e vem causando uma boa impressão no mercado em um cargo que tem pouco peso na receita total do grupo.
Pessoas próximas a Arnault dizem que o empresário está se expondo mais para depender menos da imprensa, que estaria cobrindo sua família e seus negócios de forma “injusta”.
Arnault teria ficado especialmente chateado porque ele, os filhos e os principais executivos da LVMH foram entrevistados pelos repórteres do Le Monde para a matéria.
Durante as conversas com o jornal, o empresário disse que “o sistema da LVMH é meritocrático, e isso vale também para os filhos”.
Antoine, por sua vez, afirmou que não há problemas entre os irmãos. “Apenas questões menores que foram exageradas. Algumas pessoas gostam de causar confusão,” disse.

Para o Le Monde, o cenário de divisão é claro, e os principais executivos da empresa costumam escolher uma facção para tentar ajudar a ascender ao trono.
No ano passado, os filhos de Arnault decidiram comprar o Paris FC para que pudessem cuidar de um clube de futebol juntos e afastar rumores de atritos – mas, a julgar pelo Le Monde, a imprensa francesa não acreditou na trégua.
Por enquanto, parece que Arnault terá que continuar fazendo campanha para legitimar os filhos como sucessores.
A ação da LVMH, que sofre com a crise do mercado de luxo, cai 27% desde o início do ano. A empresa vale € 235 bilhões na Bolsa.











