A Magnífica Humanidade criada por Deus encontra-se hoje perante uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos. Cada geração recebe em herança a tarefa de dar forma ao seu tempo: de fazer amadurecer a história como um lugar onde a dignidade de cada pessoa seja salvaguardada, a justiça promovida e a fraternidade possibilitada. 

Assim o Papa Leão 14 abre sua primeira encíclica, chamada Magnifica  Humanitas – Sobre a salvação da pessoa humana na era da inteligência artificial – um texto com uma proposta de reposicionamento não apenas dos católicos, mas de toda a humidade ante as transformações tecnológicas e suas consequências.

Embora o Papa tenha apresentado publicamente o documento hoje, a encíclica foi assinada no dia 15, data no 135º aniversário da Rerum Novarum – Das Coisas Novas, em português – a famosa e influente encíclica escrita por Leão 13 em 1891, na qual o pontífice tratou das transformações sociais e econômicas da Revolução Industrial, particularmente a respeito da dignidade dos operários. O texto de hoje retoma também a doutrina derivada do seminal Cidade de Deus, a obra de Santo Agostinho escrita no século V.

Sem condenar o avanço tecnológico, o Papa afirma que ele não pode ser feito ao custo do sacrifício da dignidade humana, e sugere a criação de mecanismos para proteger empregos e dar mais segurança ao desenvolvimento da tecnologia.

O documento resultou das interações do pontífice com especialistas e até mesmo empreendedores da inteligência artificial – entre eles, teve destaque a contribuição do cientista de computação canadense Christopher Olah, um dos fundadores da Anthropic.   

Em um trecho, o documento fala também sobre a “normalização das guerras” movidas por questões econômicas ou de poder, em um mundo onde “ressurgem formas de luta por expansão territorial que se pensavam superadas.”

O Papa pede que o uso da AI no campo bélico fique sujeito “aos mais rigorosos compromissos éticos, no respeito pela dignidade humana e pela sacralidade da vida, evitando uma corrida ao armamento.”

Padre Anderson Pedroso

“A força desta encíclica é repropor a doutrina social da Igreja,” o reitor da PUC-Rio, Padre Anderson Antonio Pedroso, disse ao Brazil Journal. “Na encíclica, as pessoas podem encontrar os parâmetros e os princípios para dialogar com as novas tecnologias e com esse mundo que será transformado.”

A seguir, trechos de nossa conversa com o reitor.

 

Qual o simbolismo dessa nova encíclica?

Encíclica quer dizer ‘a carta que gira’ – uma carta para o mundo todo, um tipo de documento de comunicação do Papa em uma linguagem mais universal, porque ele não quer falar só para os católicos.

Leão 13 foi o Papa da Rerum Novarum, a encíclica social por excelência. Foi escrita no ápice da Revolução Industrial, e o documento posiciona a Igreja diante desse momento de mudança de época.

Agora, Leão 14, no auge da revolução tecnológica, posiciona a Igreja diante desse novo tempo.

Além disso, são dois papas ligados aos agostinianos.

Na primeira frase da nova encíclica, o Papa fala humanidade – isso é fundamental, porque é a humanidade que está em jogo. E é uma referência a Santo Agostinho, que tem um livro extraordinário, chamado Cidade de Deus.

A cidade é uma grande metáfora para falar da realidade terrena e dos valores transcendentes. Agostinho fala sobre a cidade de Deus – onde a convivência é pautada por valores transcendentes e valores humanos elevados – e sobre as realidades terrenas.

A Igreja precisa dar uma palavra sobre as realidades terrenas. Ela não é feita para se dedicar a um discurso de espiritualidade desconectada do mundo. Tanto que a nova encíclica, na sua conclusão, fala sobre a encarnação.

A encarnação é o filho de Deus que se fez homem, a maior realidade do cristianismo. É o que faz o cristianismo diferente de todas as religiões. Deus entrou no mundo.

Essa encíclica nos lembra que a Igreja deve falar de todas as realidades – principalmente as que tocam a dignidade humana.

O discurso de que a Igreja não deve falar sobre isso é uma falácia. A igreja deve falar sim, mas com fundamento na sua doutrina social.

Há todo um ensinamento desde Agostinho, no século IV, sobre as implicações da Igreja nas realidades terrenas. A força desta encíclica é repropor a doutrina social da Igreja.

Como deve ser vista, então, a inteligência artificial?

A inteligência artificial é como a ponta do iceberg, porque, no fundo, não é uma encíclica sobre a inteligência artificial, é sobre a doutrina católica nesta era,

O Papa fala da questão do trabalho, que é o tema da Rerum Novarum, e comenta as implicações e consequências que a inteligência artificial vai trazer.

Na encíclica, as pessoas podem encontrar os parâmetros e os princípios para dialogar com as novas tecnologias e com esse mundo que será transformado.

Em um tempo de extremismos, a doutrina social da igreja oferece um parâmetro muito equilibrado de pensamento – nem de extrema esquerda nem de extrema direita, com princípios fundamentais de convivência e de salvaguarda da dignidade humana.