Era questão de tempo – e aconteceu.
Um modelo desenvolvido por uma startup chinesa acaba de alcançar o desempenho dos melhores sistemas de AI das empresas americanas, trazendo novos questionamentos sobre os valuations de algumas Big Techs dos EUA.
O large language model chamado Kimi K3, da startup Moonshot, tem 2,8 trilhões de parâmetros e é o maior modelo open source do mundo. O sistema, que vem aparecendo no topo de rankings em diversos testes comparativos, estará disponível para download gratuito no próximo dia 27, segundo a empresa chinesa.
Quanto maior o número de parâmetros, maior o número dos ‘neurônios’ do modelo – e maior tende a ser a capacidade de processamento de informações e de conhecimento armazenado.
Muitas empresas mantêm essa informação sob sigilo. A Anthropic, dona do Claude, não divulga o número de parâmetros de seus modelos. Mas segundo o Wall Street Journal, pesquisadores estimaram que o Claude Opus 4.8, lançado em maio, tem mais de 1,5 trilhão de parâmetros.
De acordo com resultados apresentados pela Moonshot, o Kimi K3 superou o Opus 4.8 e o GPT 5.5 da OpenAI na maioria dos benchmarks de programação e agentes, embora ainda fique ligeiramente atrás dos dois modelos mais avançados das americanas, o Fable 5 (da Anthropic) e o GPT-5.6 Sol (da OpenAI).
Fundada em 2023 por ex-alunos da Universidade de Tsinghua, a Moonshot tem sede em Beijing. Seu CEO é Yang Zhilin, que já passou pelo Google e a Meta. A startup, que recebeu aportes de gigantes chinesas como Alibaba e Tencent, já é avaliada em US$ 31,5 bilhões. Seu faturamento anualizado atingiu US$ 200 milhões em abril.
Segundo a Bloomberg, Yang, de 33 anos, é fanático por rock. As salas de reunião da empresa levam nomes como Radiohead, Led Zeppelin, Queen e Nirvana. Originalmente, a Moonshot se chamava ‘Dark Side of the Moon’ em chinês, uma referência ao seu disco favorito, da banda Pink Floyd. Os planos de assinatura do Kimi têm nomes baseados nas indicações de andamento da música clássica: Adagio, Andante e Moderato.
O breakthrough da Moonshot já vem sendo chamado de ‘momento DeepSeek 2’ – uma referência ao pequeno terremoto que a chinesa DeepSeek causou nas ações das Big Techs no início do ano passado, depois de também apresentar um LLM extremamente capaz e com um custo de desenvolvimento que é uma fração do total investido pelas americanas.
Em um teste cego de preferência de usuários, o Kimi K3 ficou em primeiro lugar no quesito engenharia de interface web, superando o Fable.
A evolução dos softwares chineses de código aberto desafia o modelo de negócio das empresas americanas, que cobram pela utilização de tokens – as unidades de informação das ferramentas de AI. Os resultados trazem também questionamentos sobre a necessidade de se realizar investimentos maciços na construção de data centers, como vêm fazendo as hyperscalers americanas.
David Sacks, investidor de companhias de tecnologia e consultor da Casa Branca para o tema, afirmou em um post no X que os EUA estão a caminho de perder a corrida da AI.
“É preocupante. Pela primeira vez, um modelo chinês, o Kimi K3, alcançou o primeiro lugar na Frontend Code Arena e apresenta desempenho igual ou próximo ao estado da arte em outros benchmarks,” disse Sacks, um crítico das iniciativas de regulação da tecnologia.
“Enquanto isso, os EUA se complicam em meio a impasses: políticos e burocratas estão proibindo novos data centers, acumulando leis estaduais e pressionando pela criação de agências federais para pré-aprovar os modelos de fronteira da AI,” afirmou.
Os chineses estão conseguindo entregar resultados tão potentes quanto os frontier models dos EUA – e gastando uma fração em hardware e treinamento de sistemas. Isso coloca ainda em dúvida a política dos EUA de impedir a exportação para a China dos chips de AI mais avançados produzidos pela Nvidia.
Analistas do Bank of America disseram que, apesar das restrições persistentes de hardware e capacidade computacional, o K3 demonstra que o escalonamento de parâmetros aliado à inovação arquitetônica pode proporcionar um salto de patamar para os principais modelos chineses.
O custo médio dos serviços pagos dos serviços chineses é 1/10 do cobrado pelas concorrentes americanas. Para realizar uma unidade de tarefa de inteligência padronizada usando o Kimi 2.6 ou o V4 Flash da DeepSeek, o preço fica entre US$ 0,02 e US$ 0,33. A mesma tarefa com o Claude Fable 5 sai por US$ 2,75, de acordo com informações da Artificial Analysis citadas pela Bloomberg.
Os resultados da Moonshot contribuíram para a tendência de correção nas ações das empresas de tecnologia.
O índice de semicondutores Philadelphia SE caiu 1,9% hoje e 10% na semana. Ainda assim, o índice mantém uma alta de 62% no acumulado do ano, ante um ganho de 9% do S&P 500.
O ETF Round Hill Magnificent Seven, com as principais Big Techs dos EUA, caiu 1,9% no dia.
A Nvidia caiu 2,6% e perdeu o posto de empresa mais valiosa do mundo. Com um market cap de US$ 4,8 tri, voltou a ficar atrás da Apple – que sobe 22% no ano e negocia na máxima histórica, valendo US$ 4,9 trilhões.






