Acabou o oba-oba.

O leilão do Ceará para uma parceria público-privada em serviços de esgoto realizado ontem na B3 pode ter sido o marco de um novo momento para o setor de saneamento. 

Mas… “o pessoal não está mais rasgando dinheiro,” um especialista em estruturação de concessões disse ao Brazil Journal, comentando os resultados.

O Ceará esperava atrair R$ 7 bilhões em investimentos em esgoto em 128 municípios com cinco lotes de projetos. No final, recebeu proposta por apenas um, contemplando 23 cidades, e praticamente sem deságio.

Os maiores nomes da indústria – como Aegea, Sabesp, BRK e Iguá – ficaram de fora, assim como fundos de investimento que têm avaliado o setor.

Um consórcio formado por Terracom, CGD Concessões, Cosampa Construções, Gimma Engenharia, Ellenco e Vale do Rio Novo levou o único lote vendido, aceitando receber uma contraprestação totalizando R$ 3,74 bilhões em 28 anos, com um desconto de 1,15% frente ao teto ofertado.

“Os players estão em um momento mais seletivo, por razões diversas. Por compromissos já assumidos de outros leilões, ou questões de balanço, de endividamento,” disse o sócio da L.E.K Consulting, Clayton Souza.

Também contribuindo para a falta de interesse: o formato de PPP do leilão – menos rentável que uma concessão pura, e envolvendo mais riscos no relacionamento com o Poder Concedente – além da própria estruturação dos blocos.

É comum que os leilões incluam num mesmo contrato cidades maiores e mais rentáveis com outras de menor retorno – o conhecido “filé com osso”. 

No Ceará – que quatro anos atrás já havia licitado dois blocos com as regiões metropolitanas de Fortaleza e do Cariri, arrematados pela Aegea – o diagnóstico do mercado foi de que sobrou muito osso, sem filé.

“Se você não tem municípios que ajudam a puxar o retorno e a atratividade para cima, fica difícil,” disse Souza.

Além disso, o tempo passa e o prazo para cumprir as metas de universalização vai apertando, enquanto as empresas tradicionais estão cautelosas também pelo aprendizado dos leilões passados, que por vezes trouxeram operações mais complexas que o esperado, disse o sócio da A&M Infra, Luiz Gronau.

“Os grandes players praticamente todos olharam (o leilão do Ceará), os grandes fundos de infraestrutura olharam. Mas é uma visão de: ‘eu tenho bastante coisa para ser digerida, e agora já não vou ser tão ousado para ir para outros projetos que são realmente mais desafiadores.’”

Fora a tarefa mais complicada que os governos terão nesse ambiente de maior seletividade dos investidores, o resultado também evidencia que seria saudável para o Brasil atrair novos grupos para o mercado de saneamento.

Frente a um desafio gigante de universalização definido no marco legal, que demandará centenas de bilhões de reais, “é complexo só termos três ou quatro grandes empresas”, disse Souza, da L.E.K. “Faz sentido no médio prazo você ter novos entrantes.”

Por enquanto, a esperança de sangue novo nas disputas tem sido atendida pelos espanhóis.

Antes desse leilão do Ceará, as últimas licitações anteriores foram a da Cagepa, da Paraíba, em maio, e do município mineiro de Andradas, em junho, arrematadas pela Acciona e por um consórcio da Águas de Valência com a Senha Engenharia, respectivamente.

A Acciona venceu quatro concorrências públicas no setor de saneamento do País nos últimos dois anos, enquanto o grupo de Valência havia levado sua primeira em 2025, para uma concessão em São Miguel do Oeste, em Santa Catarina.

“Estive na Espanha um mês atrás e o Brasil aparece por lá como a grande bola da vez,” disse Gronau, da A&M Infra. “Exatamente pela necessidade de investimento. Será que vamos atrair mais players internacionais? Tem alguns grupos de fora já estudando há uns cinco anos.”