A Anvisa revogou hoje todas as resoluções e medidas provisórias que proibiam a venda de medicamentos pela Shoppe, Rappi, iFood, Mercado Livre e Americanas – um movimento que torna cada vez mais próxima a liberação definitiva deste tipo de venda pelos marketplaces

A revogação vem na esteira da lei 15.357, de março deste ano, que liberou os supermercados para terem farmácias dentro de seus espaços e permitiu que as farmácias contratem canais digitais e plataformas de ecommerce para a logística e entrega.

A Anvisa revogou as resoluções anteriores por elas não estarem mais de acordo com a nova legislação – mas disse que a revogação “não implica em autorização automática de comercialização de produtos farmacêuticos”, e que isso está condicionado à regulamentação que ainda será editada.

“Foi um passo administrativo importante, mas ainda não foi a liberação definitiva. É como se ela estivesse limpando o terreno porque vai regular em breve, mas, a rigor, ela ainda não liberou nada,” disse um executivo do setor de farmácias, que acredita que a regulamentação deve sair ainda este ano. 

Com a liberação cada vez mais próxima, o sellside já começou a ponderar os potenciais impactos para o setor de farmácias. 

No BTG, o analista Luiz Guanais disse ver o anúncio de hoje como a remoção de uma incerteza regulatória sobre o modelo de marketplace, mas que não enxerga “uma mudança fundamental sobre quem pode vender medicamentos,” já que a lei ainda coloca a figura das farmácias no centro da transação.  

“Continuamos acreditando que o moat competitivo das grandes redes de farmácias … vai muito além da proximidade física. O sucesso do ecommerce farmacêutico depende da combinação de tráfego qualificado, profundidade de sortimento, disponibilidade de estoque e nível de serviço, áreas nas quais as grandes redes omnichannel possuem vantagens estruturais relevantes,” escreveu o analista.

Para ele, “uma rede densa de lojas funciona simultaneamente como infraestrutura de aquisição de clientes, base de estoque e uma rede distribuída de fulfillment, permitindo que uma rede já estabelecida combine amplo sortimento com entrega rápida e click-and-collect.”

Segundo Guanais, isso faz com que o modelo de players como iFood e Mercado Livre continue dependendo das farmácias parceiras para sortimento, precisão do estoque e qualidade do fulfillment.

É diferente, portanto, do delivery de alimentos.

“Compras de medicamentos exigem uma molécula, dosagem, marca ou apresentação específica, tornando a disponibilidade de cada SKU e a qualidade do sortimento muito mais importantes,” escreveu ele. “Redes independentes menores podem oferecer ao iFood capilaridade geográfica, mas não conseguem replicar a amplitude do sortimento, a profundidade de estoque, a escala de compras, a quantidade de dados de clientes e a padronização do serviço das maiores redes.”

O BTG tem recomendação de ‘compra’ para os três maiores players listados do setor: RD Saúde, Pague Menos e Panvel. 

O setor de farmácias executou uma transformação digital gigantesca nos últimos anos, saindo de R$ 1 bi de vendas digitais antes da pandemia para os R$ 27 bi de hoje.

“Hoje, todas as nossas lojas já são hubs logísticos com visibilidade em tempo real do estoque,” Sérgio Mena Barreto, o presidente da Abrafarma, que representa as grandes redes de farmácias, disse ao Brazil Journal. “Quando um setor tem essa infraestrutura tecnológica e solução logística já prontas como as que temos, a entrada dos marketplaces não muda tanto o jogo assim.”

Mas ele disse que há uma preocupação crescente em relação ao impacto que a venda nos marketplaces pode gerar na oferta de farmácias em regiões mais afastadas do País. 

“Nos EUA, está acontecendo o que eles chamam de ‘desertificação de farmácias’. Com o avanço da digitalização há regiões – geralmente mais pobres e afastadas – onde você não encontra mais uma farmácia física a menos de 10 milhas de distância, e isso está causando um problema de saúde relevante.”

Ao contrário do senso comum, Barreto disse que quem vai acabar usando mais os marketplaces são as próprias grandes redes, e não as pequenas, já que são elas que têm estoque, capacidade de venda e capital de giro. 

“As redes da Abrafarma estão em 1,6 mil cidades. Nas 3,5 mil cidades restantes estão só as pequenas. Se os marketplaces passarem a suprir essas pequenas cidades com o estoque das grandes, tem o risco de ter uma quebra geral e uma desertificação de farmácias nessas regiões,” disse ele. 

O anúncio de hoje vem quatro meses depois do Mercado Livre ter iniciado um projeto-piloto de venda de medicamentos no formato 1P (comprando os produtos e vendendo direto ao consumidor). O projeto foi viabilizado pela aquisição da Memed no ano passado, que possuía uma licença de farmácia em São Paulo.

O iFood também já vendia medicamentos em sua plataforma, no modelo 3P, mesmo antes da aprovação da lei de março deste ano – mas corria um risco regulatório relevante, que agora deixou de existir. 

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