Em meio à volta das petroleiras internacionais à Venezuela desde a derrubada de Nicolás Maduro, o país está entrando no radar também de investidores interessados em seu setor elétrico. 

A própria retomada da indústria petrolífera vai demandar mais eletricidade, e ainda serão necessários investimentos massivos para recuperar um sistema fortemente deteriorado por mais de vinte anos de bolivarianismo.

A reconstrução dos sistemas de geração, transmissão e distribuição venezuelanos deve exigir entre US$ 15 bilhões e US$ 40 bilhões e pode levar até uma década, Francisco Morandi, um consultor e ex-vp global da AES, disse ao Brazil Journal

“Tem muita demanda de investidores para tentar entender o que está acontecendo e quando pode começar a haver oportunidades. Por um lado tem muito interesse, mas é um momento complexo. Vai precisar ser um investidor que tem um apetite a risco maior,” disse Morandi – um venezuelano que já foi diretor da Electricidade de Caracas.

Ele avaliou que os “principais cavalos” nessa corrida serão as próprias empresas de petróleo, como a Chevron e players independentes americanos, os wildcatters, muitos deles ligados a hedge funds, além de grupos de private equity.

“Não é uma AES ou uma EDF que vai entrar lá agora. É o que se chama de first mover. Você entra hoje para daqui alguns anos ser comprado por alguém que comece a ver esse negócio com mais tranquilidade.”

Alguns grupos brasileiros e colombianos, principalmente aqueles com boas relações com o governo americano, também são vistos como potenciais candidatos nesse jogo.

Já os chineses, que anos atrás seriam investidores naturais pela proximidade entre Pequim e Caracas e pela força de suas empresas no setor elétrico, devem ficar de fora devido ao papel preponderante dos EUA na nova Venezuela.

Um ponto chave para a atração do capital será a aprovação de uma nova lei para a indústria elétrica que está em discussão no Congresso e pretende abrir a porta para investimentos privados em parceria.

É um caminho inspirado nos Contratos de Participação Produtiva (CPP) aprovados recentemente para o setor de petróleo, que envolvem parcerias com a estatal PDVSA.

“Essa nova lei tem componentes atrativos, mas ainda tem elementos de altíssimo risco – por exemplo, a possibilidade de punição criminal em casos de descumprir indicadores de qualidade de serviço,” disse Morandi.

A expectativa é que o texto final seja votado nas próximas semanas.

Seria o primeiro passo para uma jornada longa. 

Morandi estima que serão necessários ao menos três anos e até uma década para recuperar a rede elétrica, estatizada por Hugo Chávez no final dos anos 2000.

Na época, o sistema de eletricidade do país era o terceiro maior da América Latina, atrás do Brasil e do México, com a presença de grandes grupos internacionais como a AES e uma infraestrutura de ponta.

“Quando eu trabalhei na Electricidade de Caracas, eles costumavam falar que suas linhas de transmissão e distribuição eram o Rolls-Royce do setor. Vinte anos depois, você pega cada fatia da cadeia – geração, transmissão, distribuição – e a situação é péssima em todas,” disse Morandi. 

Além disso, faltam até dados sobre a real situação do sistema, o que explica o enorme intervalo na projeção de investimentos necessários (que vai de US$ 15 bi a US$ 40 bi, a depender do estado das instalações existentes – com a conta provavelmente pendendo para o número maior).

Estima-se que a Venezuela tenha 36 gigawatts em capacidade instalada, mas dos quais apenas 12 GW ou 13 GW estão em condições de operar. Desses, cerca de 10 GW são em hidrelétricas, que estão sujeitas ao risco de menor produção devido à seca num ano em que é esperado um El Niño severo.

Enquanto isso, o consumo no país atinge picos de 15 GW, ou seja: já falta capacidade para atender a demanda.

“E nisso estou falando só da geração. Na transmissão e distribuição também são anos de falta de manutenção. Nas principais cidades as pessoas têm apagões todos os dias por duas, três horas. Em outras cidades, ainda pior, são horas e horas de falta de luz,” disse o consultor.

O caminho mais fácil para retomar os investimentos, na avaliação dele, seria por meio de sistemas de geração a gás associados à indústria petrolífera. 

“Mas, dito isso, você não pode ter um país em que convivem uma ilha do petróleo, onde a rede funciona, e um resto que não funciona. Vai precisar melhorar a transmissão e a distribuição, arrumar o sistema elétrico interligado. E isso vai demorar um tempo,” disse Morandi.

O desafio será enorme, inclusive porque hoje não há sequer crédito disponível para o país. 

Também não será tão simples expandir a geração a gás em meio a um momento de enorme demanda por turbinas no mundo que criou uma fila de anos para a entrega de novas máquinas pelas principais fabricantes.

Outro complicador é que, pela instabilidade econômica da Venezuela, os investidores devem exigir retornos em dólares, enquanto os cidadãos provavelmente não terão capacidade de bancar tarifas que assegurem uma atratividade aos negócios.

Nesse cenário, o Governo americano e bancos de desenvolvimento serão vitais para apoiar o processo, seja com financiamentos diretos ou estruturas de garantias, disse o consultor. 

Apesar de todos esses obstáculos, os primeiros negócios começam a se desenhar. A presidente Delcy Rodríguez assinou um memorando com a GE Vernova para restaurar 1 GW em turbinas em 24 meses e mais de 5 GW em quatro anos. 

A argentina IMPSA também assinou um acordo para concluir a hidrelétrica de Tocoma, de mais de 2 GW, e para restaurar turbinas já existentes na usina de Macagua.