Em 2025, o mercado de capitais brasileiro alcançou o recorde de R$ 963 bilhões em ofertas públicas. Desse total, R$ 493 bilhões vieram da emissão de debêntures, que financiaram empresas de 26 setores da economia. No mesmo período, nenhuma empresa abriu capital no país, em um jejum de quase cinco anos interrompido apenas em maio deste ano.

O problema não é da Bolsa, do governo, das empresas.  É nosso, um problema do Brasil.

À primeira vista, a leitura é a de que falta dinheiro. A intuição é compreensível, mas imprecisa. Recursos existem, e o recorde de 2025 comprova. O que os números revelam é outra coisa: o capital está disponível para compromissos de curto e médio prazo, e escasso para o horizonte de dez ou quinze anos que uma abertura de capital representa.

A diferença entre um caso e outro não é liquidez. É previsibilidade, um ativo que o Brasil não tem conseguido acumular porque o destrói a cada mandato.

O investimento no Brasil ficou abaixo de 17% do PIB em 2025. Não por falta de projetos, mas porque o crescimento da dívida pública mantém os prêmios de risco e as taxas de juros de longo prazo acima dos observados em países emergentes comparáveis.

O efeito é conhecido de quem decide investimento: projetos economicamente viáveis deixam de sair do papel, não porque sejam ruins, mas porque o custo do dinheiro os torna inviáveis no prazo em que precisariam maturar.

Vale distinguir duas coisas que costumam ser tratadas como uma só. A Selic responde a decisões de política monetária e ao ciclo econômico. O juro de longo prazo, que é o que decide se um projeto de dez anos sai do papel, responde a outra coisa: à expectativa sobre a trajetória fiscal do país pelos próximos anos.

Por isso a responsabilidade fiscal não é um tema paralelo ao custo de capital. É a sua condição.

O tamanho do que se perde nesse caminho pode ser medido. O valor de mercado das companhias brasileiras equivale hoje a cerca de 30% do PIB, patamar muito inferior ao de pares internacionais.

Nas economias desenvolvidas, o mercado de capitais é o principal mecanismo de transformação da poupança em investimento produtivo. No Brasil, ele opera bem abaixo dessa função, e não por falta de poupança.

Não é um debate restrito a quem acompanha a bolsa. 

Em 2024, as 270 maiores companhias abertas brasileiras responderam por 17,9% do PIB, empregaram diretamente 2,8 milhões de trabalhadores e pagaram cerca de R$ 640 bilhões em tributos. Ampliar o mercado de capitais é ampliar a base que sustenta emprego, renda e arrecadação, e não um arranjo de interesse de quem já está listado.

É com esse diagnóstico que a Abrasca apresentou uma agenda de propostas para o período de 2027 a 2030 às equipes econômicas de todas as campanhas presidenciais. São cinco eixos, e nenhum deles pede tratamento especial para empresa alguma.

O primeiro é tratar o mercado de capitais como política de Estado, com diretrizes que atravessem mandatos. O segundo é a simplificação tributária com neutralidade econômica. A carga tributária bruta do governo geral alcançou 32,4% do PIB em 2025, cerca de 12 pontos percentuais acima da média dos países da América Latina, e mudanças que afetem empresas, investimento ou instrumentos de financiamento tendem a produzir melhores resultados quando precedidas de avaliação consistente de seus impactos.

Os demais tratam da preservação da segurança jurídica e da concorrência leal, da responsabilidade fiscal como base da estabilidade macroeconômica e da qualidade regulatória, o que inclui o fortalecimento institucional da Comissão de Valores Mobiliários, com autonomia técnica, orçamento compatível com suas responsabilidades e capacidade de modernização tecnológica. Fortalecer o regulador não significa multiplicar obrigações. Significa concentrar fiscalização onde o risco é relevante.

Nenhum desses pontos é novidade, e é justamente esse o argumento. São temas que atravessam governos de orientações distintas sem que o país tenha conseguido transformá-los em compromisso duradouro. A instabilidade, mais do que qualquer medida isolada, é o que se precifica.

O que está em jogo não é a escolha de um instrumento, e sim a decisão de manter uma direção. Regra estável, transição bem desenhada quando a regra muda e clareza sobre as contas públicas valem mais para quem investe do que qualquer incentivo pontual. É desse conjunto que nasce a queda consistente dos juros, e é dela que depende um mercado de capitais do tamanho da economia brasileira.

A pergunta que a agenda leva aos candidatos, portanto, não é quanto o País pretende investir. É por quanto tempo está disposto a manter uma regra de pé.

 

Cátilo Cândido é presidente-executivo da Abrasca, a Associação Brasileira das Companhias Abertas.