O que precisa mudar para que o próximo governo faça mais do que apenas responder à próxima urgência?

A poucos dias da eleição, todos nos perguntamos quem vai ganhar. Eu prefiro outra pergunta: o que o Brasil vai ganhar depois que alguém ganhar?

A eleição decide quem terá o poder de escolher prioridades, mas o futuro do País depende também da nossa capacidade de sustentar essas prioridades quando a campanha acabar, a conversa mudar de assunto – e os resultados ainda estiverem longe.

O Brasil tem uma enorme capacidade de improviso. Diante de uma crise, a gente se adapta, encontra uma alternativa, tenta seguir. Essa capacidade existe nas empresas, nas famílias, nas cidades. Mas reação não é projeto, e talvez parte da nossa dificuldade esteja em admirar tanto a solução de última hora que deixamos de cobrar o trabalho paciente que evitaria a próxima urgência.

Quando o improviso vira rotina, seu custo deixa de chamar atenção. Está no empresário que adia um investimento, no trabalhador que perde horas no deslocamento, na família que reorganiza a vida para conseguir atendimento. O esforço para fazer o básico funcionar consome a energia que poderia construir algo melhor.

Os números recentes mostram por que uma leitura simplista não serve. No segundo trimestre, o desemprego caiu de 6,1% para 5,4%, enquanto o PIB cresceu 0,5% em relação ao trimestre anterior, segundo o IBGE. Há trabalho e atividade econômica. Há também a pergunta sobre a qualidade e a duração desse crescimento. Uma fotografia favorável não resolve o filme inteiro.

Do meu lugar no mundo dos negócios e da comunicação, vejo outro risco: o de confundirmos uma boa narrativa com uma boa execução. Uma campanha pode dar nome a um problema, mobilizar pessoas e abrir espaço para uma decisão. Isso tem valor, mas nenhum slogan, por melhor que seja, substitui a capacidade de entregar.

Talvez por isso o debate sobre o Brasil fique entre o entusiasmo e o desalento. Nenhuma dessas versões exige muito de nós. Uma dispensa o trabalho porque tudo dará certo; a outra dispensa o trabalho porque nada dará certo.

O caminho mais sério é o menos confortável. Exige escolher onde concentrar energia e aceitar que certas respostas levarão mais de um mandato. Educação, produtividade, segurança, infraestrutura e adaptação tecnológica não cabem no ritmo de uma manchete. Também não melhoram apenas porque entraram no discurso.

Continuidade não significa preservar tudo. Significa avaliar o que funciona, corrigir o que falhou e resistir à tentação de recomeçar apenas para colocar uma nova assinatura. Uma escola melhor, uma obra concluída ou um serviço público eficiente precisam valer mais que a autoria política da entrega.

E o tempo passou a custar mais caro. O IBGE projeta que a população brasileira pare de crescer em 2041. Envelhecer é uma mudança profunda na demanda por saúde, no mercado de trabalho e nas contas públicas. Adiar decisões agora significa enfrentá-las depois com menos margem.

Isso vale para o Estado e as empresas. A inteligência artificial, por exemplo, pode ajudar uma organização a produzir mais. Mas tecnologia aplicada a processos ruins também pode fazê-la produzir erros mais depressa. O ganho virá de formar pessoas, rever processos e medir o que de fato melhorou. É menos vistoso que anunciar uma transformação – e muito mais difícil de copiar.

Não acredito que o Brasil esteja condenado a repetir seus ciclos. Tampouco acho que uma eleição por si só nos colocará numa nova rota. O que está em disputa é algo mais exigente: nossa disposição de cobrar resultados sem exigir milagres, de discordar sem abandonar os fatos, e de apoiar decisões cujo benefício talvez não apareça amanhã.

O brasileiro já provou muitas vezes que sabe se virar. Mas nosso destino depende de uma ambição diferente: construir um País em que seja cada vez menos necessário se virar.

 

Hugo Rodrigues é sócio da WMcCann e empreendedor.