O lixo segue valendo milhões.

O Grupo Multilixo está comprando 100% da RCR Ambiental numa transação de R$ 150 milhões – a maior aquisição da empresa paulistana desde que foi fundada em 1996.

A aquisição também é a 28ª da Multilixo desde que a companhia controlada pela família Urias iniciou um ciclo de consolidação de mercado em 2018. Até agora, o maior cheque havia sido os R$ 120 milhões pagos pela Engep Ambiental, em 2019.

Hoje a maior empresa de coleta no setor privado do País, a Multilixo estima haver desembolsado cerca de R$ 600 milhões em M&As até agora.

08 05 Flavio Urias ok

A empresa tem uma receita anual estimada em R$ 1,5 bilhão, fontes do setor disseram ao Brazil Journal. A companhia não abre o faturamento.

A compra da RCR também marca a entrada mais forte da Multilixo em outros estados, já que 20% da receita da RCR vêm do Rio de Janeiro e de Goiás. Hoje praticamente todo o faturamento da Multilixo vem de São Paulo.

A RCR chamou a atenção da Multilixo por uma atividade ainda pouco difundida: a recuperação fiscal de produtos vencidos e avariados.

A empresa cuida da destruição documentada dessas mercadorias, especialmente em operações industriais, farmacêuticas e de outros setores regulados. Com isso, o cliente pode dar baixa nos estoques, reconhecer a perda para fins tributários e comprovar que os produtos não voltaram ao mercado.

Esse negócio responde por metade da receita da RCR. Os outros 50% vêm do gerenciamento tradicional de resíduos.

“É um negócio altamente regulado e com uma barreira de entrada tremenda,” Lucas Urias, o diretor de estratégia e inovação da Multilixo, disse ao Brazil Journal. “E é contracíclico, porque representa um benefício para o cliente em vez de ser apenas um custo.”

A lógica da aquisição passa pelo cross-selling. A Multilixo poderá oferecer a recuperação fiscal a seus mais de 8 mil clientes, enquanto usa a carteira da RCR no Rio e em Goiás para vender os serviços que já oferece em São Paulo.

“Há pelo menos três anos discutimos quando seria o momento de sair de São Paulo,” disse Lucas.

A companhia tem mais de 30 unidades operacionais, 4 mil funcionários e 1.200 caminhões, movimenta quase 50 mil toneladas de resíduos por mês e atende 12 mil pontos de coleta diariamente.

Entre os clientes da Multilixo estão empresas como McDonald’s, GPA, Carrefour e Sabesp. 

A coleta responde por metade do faturamento, seguida por reciclagem (20%), aterros (15%) e biometano (15%).

A companhia foi fundada pelos irmãos Flávio, Silvio, Sandro e Danilo – mas a história da família com o lixo começa antes.

Nos anos 1980, Flávio e Sandro criaram um negócio de coleta de papel e papelão nas ruas e nos escritórios do centro de São Paulo. Em 1993, a família fundou a Flacipel, dedicada à reciclagem. Três anos depois veio a Multilixo.

A companhia prevê investir cerca de R$ 350 milhões este ano, sem considerar a aquisição. Para 2027, o capex será de R$ 400 milhões – o maior da história da companhia e voltado apenas ao crescimento orgânico.

Deste total, R$ 100 milhões serão destinados ao biometano: o grupo pretende dobrar a capacidade da usina inaugurada em Jambeiro em 2023 e construir uma segunda unidade em Americana.

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Nos próximos três anos, 80% dos investimentos devem financiar a verticalização da operação e levar ao interior a tecnologia que o grupo já utiliza na região metropolitana de São Paulo.

“Temos uma estrutura de reciclagem que não perde para nenhuma empresa no mundo,” disse Lucas. 

Apesar do volume de investimentos, a Multilixo opera com alavancagem de apenas 0,6x EBITDA.

A família também já começou a preparar a sucessão. Lucas, filho de Flávio, entrou no grupo há seis anos para ajudar na profissionalização. 

A expectativa é que Flávio deixe a gestão e migre para o conselho por volta de 2028.

A Multilixo também trabalha para estar pronta para receber um investidor ou eventualmente abrir o capital – embora não exista a decisão de fazer um IPO.

“A janela está fechada e essa discussão nem existe hoje,” disse Lucas. “Mas trabalhamos todos os dias para ter uma empresa modelo, preparada para um IPO, para receber outro sócio ou para qualquer movimento que seja necessário.”