Até recentemente, prevalecia em meios mais conservadores uma visão cética em relação à transição energética, frequentemente percebida como excessivamente associada a narrativas ideológicas e menos ancorada em fundamentos econômicos ou estratégicos.
Essa leitura, que eu também compartilhava, parecia razoável à luz do debate dominante à época. Os acontecimentos recentes – em especial a guerra envolvendo o Irã – impõem, no entanto, uma reavaliação dessa perspectiva.
A guerra expôs, mais uma vez, uma fragilidade estrutural da economia global: a dependência crítica de energia proveniente de regiões geopoliticamente instáveis. O debate sobre transição energética, frequentemente tratado como uma agenda ambiental ou ideológica, precisa ser reposicionado. Não se trata mais de preferência política. Trata-se de gestão de risco.
Poucos pontos ilustram essa vulnerabilidade com tanta clareza quanto o Estreito de Ormuz. Aproximadamente 20% de todo o petróleo consumido no mundo passa diariamente por essa rota estreita, localizada em uma das regiões mais voláteis do planeta. Trata-se de um verdadeiro gargalo do sistema energético global: qualquer interrupção, ainda que parcial, tem potencial imediato de desorganizar mercados, pressionar preços e gerar efeitos inflacionários em escala global.
Os eventos recentes no Oriente Médio mostram que este risco está longe de ser teórico. Tensões envolvendo o Irã colocam em xeque não apenas a estabilidade regional mas o funcionamento de cadeias produtivas inteiras ao redor do mundo. O petróleo, nesse contexto, deixa de ser apenas uma commodity e passa a ser um instrumento de poder – e potencialmente de coerção.
Essa realidade levanta uma questão incômoda mas inevitável: é racional que o crescimento econômico global dependa, em larga medida, de regiões sob influência de regimes instáveis ou ideologicamente radicalizados? Sob a ótica de gestão de risco, a resposta é claramente negativa.
É à luz de tudo isso que a transição energética precisa ser reinterpretada. Por muito tempo, ela foi tratada como agenda ambiental ou associada a pautas progressistas. Embora relevante, esse enquadramento é limitado. A diversificação da matriz energética deve ser entendida antes de tudo como uma estratégia de redução de risco sistêmico.
Reduzir a dependência de petróleo – especialmente daquele proveniente de regiões sensíveis – significa diminuir a exposição a choques externos fora do controle das economias nacionais. Significa também reduzir a capacidade de atores regionais de utilizar energia como instrumento de pressão global.
Além da dimensão geopolítica, há um impacto direto sobre a estabilidade social. Choques no preço do petróleo rapidamente se traduzem em inflação, aumento do custo de transporte, alimentos e energia. Esse efeito é regressivo e atinge com maior intensidade as camadas mais vulneráveis da população. Em outras palavras, a dependência energética não é apenas risco econômico: é fator de instabilidade social.
A transição energética não deve ser vista como uma ruptura abrupta, mas como um processo estratégico de diversificação. Energias renováveis, eficiência energética e novas tecnologias não são apenas alternativas ambientais, são instrumentos de resiliência econômica e política.
Mais do que isso, o debate atual já não se limita à substituição de fontes energéticas, mas se expande para uma agenda mais ampla de reconfiguração de cadeias produtivas, incluindo movimentos de onshoring e regionalização, bem como o desenvolvimento de novas fronteiras de produção energética – inclusive na própria indústria de petróleo. A busca por segurança energética passa, assim, a caminhar lado a lado com a ampliação da autonomia industrial e com a redução da exposição a riscos externos concentrados.
Historicamente, choques energéticos redefiniram a geopolítica global. O cenário atual indica que estamos diante de mais um desses momentos – com a diferença de que, desta vez, existe um caminho viável para reduzir essa vulnerabilidade estrutural.
No fim, a questão não é ambiental nem ideológica – é de vulnerabilidade estrutural. A transição energética, nesse contexto, deixa de ser uma agenda de futuro e passa a ser uma estratégia imediata de proteção econômica e estabilidade social.
Edison Ticle é CFO da Minerva Foods.











