A ação do banco Inter caiu 15% ontem, depois da divulgação do resultado do primeiro trimestre. Embora haja dúvidas sobre a asset quality do banco, a queda “reflete algo maior do que apenas uma trajetória de custo de crédito um pouco pior que a esperada”, disse o BTG Pactual.

Na visão do analista Eduardo Rosman e equipe, os investidores estão “jogando a toalha” porque o Inter não tem um diferencial claro: perdeu o posto de “banco digital mais barato” para o PicPay, não é a franquia premium – esse lugar foi ocupado pelo Nubank – e “deixou de ser visto como o beneficiário mais claro da tese de consignado privado”. 

Para o BTG, também há algum ceticismo com o plano 60-30-30, em que o banco prevê chegar, em 2027, a 60 milhões de clientes (eram 44 milhões no primeiro tri), 30% de índice de eficiência (43,8% no tri reportado) e 30% de ROE em 2027 (ante os 15,5% atuais).

Na call de ontem, o management disse que o plano é “mais um norte estratégico do que um guidance formal”, escreveram os analistas. “Isso provavelmente aumenta a importância do Investor Day da próxima segunda-feira como uma oportunidade potencial para realinhar expectativas”. 

Em relação ao primeiro tri, o BTG destacou que os resultados vieram “amplamente em linha”: o crescimento de receita ficou próximo de 30%, o lucro aumentou 38% na comparação anual e as margens melhoraram. 

Além disso, “o management continuou transmitindo uma visão construtiva sobre o crescimento no médio prazo”. 

Os pontos de atenção foram um custo de crédito – a relação entre as provisões e a carteira de crédito – acima do esperado. 

O banco elevou o soft guidance para esse indicador de um intervalo de 5% a 5,5% para cerca de 6% no restante do ano. 

O motivo é o crescimento da carteira de consignado privado, que exige provisionamento upfront, criando uma pressão temporária sobre o custo de crédito antes de o banco lucrar efetivamente com esses empréstimos. 

Essa nova estimativa, segundo o BTG, deve levar a mais uma rodada de revisões de lucro, empurrando o consenso de R$ 1,8-1,9 bilhão para mais perto de R$ 1,7 bilhão em 2026.

O Inter reconheceu uma piora na asset quality mas disse que a deterioração está dentro do esperado em meio a um ambiente macro difícil – e que sua estrutura de funding e modelo digital de distribuição permitem que o banco continue crescendo. 

Além disso, cerca de 70% do crédito do banco tem garantias.

O Inter vale US$ 3 bilhões na Nasdaq. Depois da queda de ontem, a ação negocia a cerca de 1,4x o valor patrimonial – ainda levemente acima do PicPay (1,3x) e com um prêmio de 40% sobre o Agibank (1x).

O P/L está em 8,5x, assumindo um lucro de R$ 1,7 bilhão para 2026 – abaixo do PicPay (9,1x), praticamente em linha com o Itaú (8,7x) e acima de Bradesco (6,9x) e Agibank (5,2x). 

“Apesar de momentum e narrativa continuarem fracos, o valuation está se tornando cada vez mais atraente,” disse o BTG, que tem recomendação de ‘compra’ para o papel.