Um fundo ancorado pela BNDESPar e pela Vale que pretende mobilizar até R$ 1 bilhão para apoiar a exploração de minerais críticos no País acaba de começar a captar e pretende fazer seus primeiros aportes ainda neste ano.

O veículo é administrado por um consórcio das gestoras Régia Capital, Ore Investments e BB Asset – sendo que esta última, do Banco do Brasil, já captou mais de R$ 100 milhões com grandes clientes para um fundo que comprará cotas do FIP.

A BNDESPar e a Vale se comprometeram a participar com 25% do capital comprometido total do fundo, com um mínimo de R$ 100 milhões e no máximo R$ 250 milhões cada.

Estarão no radar negócios ligados a terras raras, nióbio, cobre, urânio, grafite, lítio e diversos outros dos chamados “minerais críticos”. 

“Quando olhamos o Brasil como nação, a única chance que temos de participar das indústrias do futuro é através dessa mineração,” Marcio Correia, o diretor de investimentos da Régia Capital, disse ao Brazil Journal.

“Só na fase de exploração estamos falando de projetos com investimentos na casa de R$ 50 milhões, R$ 100 milhões. Então se você tem uma maneira de fomentar um capital mais ‘paciente’, mais barato, isso ajuda muito.”

Com BNDES e Vale interessados em apoiar esse desenvolvimento, o Ore Régia FIP de Minerais Críticos foi estruturado após uma licitação do banco estatal para selecionar gestores. Voltado a investidores profissionais, ele tem prazo de dez anos – quatro para a fase de investimentos e até seis para posterior venda das participações.

Uma das gestoras escolhidas, a Ore, especializada em investimentos em mineração, já trouxe um pipeline com “centenas” de possíveis oportunidades, segundo Correia. 

O avanço do setor, no entanto, estará diretamente ligado aos detalhes da regulamentação que está sendo discutida no Congresso.

Um texto inicial já foi aprovado na Câmara, e o Governo está tentando acelerar sua votação no Senado, aproveitando inclusive o interesse do Presidente Trump pelas terras raras do Brasil.

Para Correia, é positivo que o Governo queira estabelecer um marco legal para fomentar investimentos, e o texto inicial traz diversos avanços para incentivar a indústria.

Mas alguns pontos propostos na legislação – como a criação de um Conselho comandado por Brasília que terá atribuição de homologar operações de fusões e aquisições no setor, além de contratos internacionais de fornecimento – demandam “muito cuidado.”

O gestor citou como exemplo a Bolívia, que estatizou a indústria de lítio no Governo Evo Morales, e hoje não é mais um player relevante no setor, mesmo tendo as maiores reservas do mundo.  

“A regulamentação de como vai funcionar as coisas é crítica. Se a regulamentação for boa, sensacional. Se ela for ruim, matou de vez,” disse Correia.

Eventuais limitações a contratos de venda antecipada da produção – os offtake agreements – também poderiam colocar tudo a perder, segundo ele.

“O offtake é super importante para que as empresas consigam se financiar para a fase de desenvolvimento. Se mexer nisso, não vai nem acontecer a mineração no Brasil.” 

O Instituto Brasileiro de Mineração, que representa as empresas do setor, também defende que é preciso definir com clareza os poderes do conselho governamental previsto no projeto em tramitação.

Na Câmara, deputados retiraram do texto a obrigação de o conselho aprovar previamente transações e contratos de exportações, substituindo-a por uma obrigação de “homologação” – mas a mudança não foi suficiente para afastar preocupações. 

Para Correia, o que a legislação deveria fazer é “não atrapalhar” o desenvolvimento da mineração. “Essa é a grande chance, é a vantagem competitiva que temos.”