Mesmo com o aumento da concorrência, o iFood conseguiu manter taxas de crescimento robustas no ano fiscal que terminou em março, em boa parte graças à estratégia de diversificação implementada pela companhia nos últimos cinco anos.

A maior empresa de food delivery da América Latina faturou mais de R$ 10 bilhões no ano fiscal de 2026 (que vai de abril de 2025 até março de 2026), um crescimento de 36% ano contra ano.

O EBITDA cresceu ainda mais, saltando 40% na comparação anual para R$ 2,2 bilhões.

Os números ficaram públicos agora há pouco como parte dos resultados anuais da Prosus, a holding holandesa que controla o iFood.

O CEO Diego Barreto disse que o crescimento foi impulsionado pelos novos negócios e categorias do iFood, incluindo a fintech, o ERP e categorias como mercado e farmácias. 

“Estamos com um nível de diversificação muito forte, mas sempre calcado no food delivery, que é o que garante a retenção,” o CEO disse ao Brazil Journal. “E todos esses novos negócios já estão no breakeven. Quando queremos acelerar, às vezes entramos no território negativo, e quando queremos priorizar rentabilidade vamos para o positivo, mas todos já são financeiramente independentes.”

No ano passado, o food delivery respondeu por 67% da receita da operação; as novas categorias, por 33%. Dois anos antes, as novas categorias respondiam por apenas 21%; e em 2025, por 23%. 

Um dos destaques do ano, segundo o CEO, foi o negócio de fintech, que engloba o banco digital para os merchants; a Zoop (uma espécie de banking as a service); e o Ifood Benefícios, a operação de benefícios corporativos que compete com a Sodexo e VR.

A fintech cresceu mais de 100% e fez uma receita de R$ 2,5 bilhões (um quarto do total).

O iFood Benefícios atingiu a marca de R$ 1 bilhão em recargas no mês passado, e, “se mantiver essas taxas de crescimento, tende a se tornar o líder deste mercado em 3 anos, superando as empresas tradicionais,” disse o CEO. 

Diego Barreto ok

Já a operação de food delivery (as entregas de restaurantes) cresceu ao redor de 20%, um ritmo um pouco menor que os novos negócios.

Diego disse que o crescimento do delivery está ligado ao destravamento de novas ocasiões de consumo – o que passa pela expansão do Turbo, as entregas em até 20 minutos, e do Hits, a sessão dentro do aplicativo que oferece entrega de refeições mais baratas, de até R$ 30.

“Nos últimos 12 meses testamos demais o Turbo, e hoje 70% das entregas de farmácias já são em 20 minutos. O food delivery sempre foi mais complexo porque tem o tempo de preparo do pedido, mas ano passado conseguimos avançar muito nisso,” disse o CEO.

Usando inteligência artificial, o iFood conseguiu entender melhor os dados e viu que alguns restaurantes “tinham capacidade operacional de produzir comida de forma mais rápida do que se imaginava.”

De posse desses insights, a empresa começou a trabalhar com os restaurantes para organizar melhor a operação e viabilizar a entrega rápida.

“Quando o restaurante percebe que ele destravou uma ocasião de consumo e que ele está se beneficiando disso, isso gera um alinhamento muito grande,” disse Diego.

Em relação ao Hits, o iFood vinha trabalhando desde 2018 para tornar o produto financeiramente viável – ou seja, para que o iFood não tivesse que queimar caixa para subsidiar a entrega de comida mais barata. 

Em setembro passado, “finalmente chegamos nessa equação, e desde então escalamos muito o Hits, que nos permite ganhar penetração no almoço de segunda a sexta,” disse ele.

De setembro para cá, os pedidos do Hits mais que dobraram, e o produto já responde por cerca de 8% de todos os pedidos do iFood. A expectativa é que no final deste ano essa penetração alcance entre 15% e 20%.

Os resultados do iFood vêm num ano em que a concorrência no food delivery aumentou significativamente, com a entrada de novos players como a 99 e a Keeta. 

Diego disse que o momento não é muito diferente de 2017 e 2018 com a entrada do Uber Eats e do Rappi. “É um play de muito uso de subsídio para tentar escalar uma operação que tenha uma volumetria interessante para os restaurantes e entregadores. Mas o que isso gerou foi um crescimento do mercado como um todo e não uma perda de market share nossa,” disse o CEO. 

Segundo ele, os concorrentes tiveram “um crescimento fortemente concentrado nas regiões periféricas, com pedidos de baixo valor e restaurantes pequenos, e com promoções de em média 50%. É um pedido que não parece ser saudável e que só continua existindo se os motivos que geraram o interesse do cliente continuarem existindo.”

Nos últimos anos, a Prosus construiu um ecossistema de outros negócios ao redor do iFood – incluindo a agência de viagens Decolar, a tiqueteira Sympla, e a OLX, o marketplace do mercado imobiliário onde a Prosus tem 50% do capital. 

Apesar de serem independentes, esses negócios operam de forma integrada – e eventualmente poderiam ser fundidos num só negócio no caso de um IPO, por exemplo. 

No ano passado a Decolar cresceu 39%, com mais de 20% de sua receita no Brasil vindo de clientes cuja jornada começou no iFood – uma prova, segundo Diego, de que a integração entre os negócios está funcionando. 

A Prosus reportou receita líquida de US$ 9,7 bilhões, e o EBITDA, de US$ 1,3 bilhão, triplicou em comparação a dois anos atrás, quando o brasileiro Fabrício Bloisi assumiu o comando. 

A Prosus começou em 2019, quando a Naspers – o conglomerado de mídia e tecnologia da África do Sul – fez o spinoff de uma série de ativos, incluindo sua participação de 22% na Tencent, a gigante chinesa de tecnologia.  A Tencent continua sendo de longe o maior ativo da Prosus.

A Naspers controla a Prosus com 72% do capital votante e 43% do capital total. O free float é de 57%.

A Prosus vale € 80,5 bilhões na Euronext Amsterdam.