O capitalismo é o principal motor do crescimento global, ou seria a luta interminável entre os que têm e os que não têm? Para o professor de Harvard Sven Beckert, a resposta para essa pergunta é: todas as opções acima.

Reflexões como essa surgem naturalmente ao longo das mais de mil páginas do livro Capitalism: A Global History (Compre aqui). Nele Beckert reúne mais de 30 anos de academia e pesquisas em algumas das mais prestigiosas faculdades americanas para tentar explicar o capitalismo, entender como chegamos até aqui e para onde vamos – ainda que nem mesmo o autor saiba ao certo.

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PhD em História Econômica pela Universidade de Columbia e professor de Harvard há mais de 15 anos, Beckert escreveu diversos livros sobre a formação da riqueza nos EUA, chegando a ser finalista do prêmio Pulitzer por sua obra Empire of Cotton: A Global History. Ele é professor titular de História Americana do século XIX em Harvard e co-chair do Programa de Estudos sobre o Capitalismo da universidade.

Com sua nova obra, tenta expandir o escopo de sua análise para compreender o capitalismo como fenômeno global. A tarefa não foi simples, e as 1.325 páginas da obra – a maior já publicada pelo Penguin Press – não deixam mentir sobre a complexidade do assunto.

“O capitalismo só pode ser compreendido a partir de uma perspectiva global,” disse Beckert ao Brazil Journal. “Muitas das histórias são irremediavelmente eurocêntricas. Elas começam em Florença, vão até Genebra, depois falam sobre Amsterdã, então sobre Manchester e Londres, talvez Nova York, mas ignoram completamente grande parte do planeta Terra. No século XXI, simplesmente não podemos mais contar esse tipo de história eurocêntrica.”

Ele defende que o capitalismo nasceu em cidades ao redor do planeta por obra de grupos multiculturais de comerciantes, que estabeleceram redes de negócios  abrangendo quase todo o mundo. 

O ponto de partida do livro é a cidade costeira de Aden, onde atualmente é o Iêmen. A obra traz então uma série de materiais históricos que discorrem sobre o avanço do sistema capitalista ao redor do globo, desde a China imperial até a exploração de colônias nas Américas, separando-os por “regimes”. 

O autor também busca questionar alguns sensos comuns, como o de que o comércio é uma ferramenta para a paz entre as nações. Para defender a tese, Beckert remonta aos tempos da Companhia das Índias Orientais e ressalta que por muito tempo comerciantes viajavam em frotas acompanhadas por navios de guerra, que usavam seus canhões como argumento para abrir mercados.

Seria esse o efeito que Trump buscava com suas tarifas?

“No regime neoliberal, a ideia de que o comércio produz paz, que remonta ao século XVIII, foi muito popular. Isso encorajou um tipo de leitura equivocada da história, porque se olharmos para a longa história do capitalismo vemos que a expansão do comércio andou frequentemente com diferentes tipos de coerções, desde guerras até colonialismo, escravidão, expropriação e outras coisas do tipo,” disse Beckert.

O autor defende que o capitalismo deve ser “compreendido historicamente” para entendermos como ele se desenvolveu e se transformou, mas pondera que o estudo da evolução dos regimes passados possa levar a uma conclusão clara do que virá no futuro. 

“Não devemos olhar para a história e pensar: Ok, é aqui que estamos agora e então podemos prever o futuro porque encontramos algo que é paralelo ao que temos hoje. A história sempre estará cheia de surpresas,” afirmou o historiador.

Ao fazer a separação dos “regimes” do capitalismo ao longo de séculos, o professor afirma que o momento atual – classificado por ele como “nova ordem liberal” – é de mudanças profundas, vistas pela última vez no século XIX.

Segundo ele, o fim do regime atual começou com a crise econômica de 2008, ganhando ímpeto com o fim do domínio geopolítico americano e a ascensão da China no tabuleiro global. Questionado sobre qual quadra da história estamos atualmente, Beckert disse que o momento atual é de uma “velha ordem se desintegrando” e uma “nova ordem que ainda não nasceu completamente.”

“A nova ordem liberal está sob ataque e minha expectativa é que ela não será ressuscitada. Estamos entrando em um novo momento, uma nova fase na história do capitalismo,” afirmou. “O que exatamente essa nova fase vai representar ainda é incerto.”