O Brasil tem potencial para ser um pólo de exploração de terras raras e desenvolver também uma cadeia de refino local, substituindo a China nesse mercado para boa parte do Ocidente – mas a ideia de criar uma estatal para cuidar do setor, a TerraBrás, poderia colocar tudo a perder.
A opinião é do diretor-presidente da Viridis Mining, uma companhia listada na bolsa australiana que está apostando alto em um projeto em Poços de Caldas (MG), com investimentos bilionários e projeção de início da produção em 2028.
“Se o Brasil quiser se transformar em um player forte em terras raras, é preciso que a tecnologia venha. E para construir essa cadeia de valor no País, você precisa trazer investimento estrangeiro,” o CEO Rafael Moreno disse ao Brazil Journal.
“Você não pode se basear em uma estatal, senão o capital não virá. E não só para terras raras. Isso vale para o lítio, níquel, todos outros minerais críticos.”
Além da mineração, o plano da Viridis envolve atrair a cadeia de processamento do setor para o País, e a empresa já tem conversas também com indústrias instaladas aqui para abastecê-las no futuro com as terras raras que serão extraídas e refinadas localmente.
“Essa é a oportunidade para o Brasil fornecer não só no mercado doméstico, mas para a América do Sul, América do Norte, todos os lugares. E se tornar como a China,” disse Moreno.
Entre os potenciais clientes com os quais a Viridis mantém contato estão montadoras de veículos elétricos com operações no Brasil e fabricantes de equipamentos como turbinas de energia.
“Tenho 120% de confiança que essa indústria local vai comprar isso localmente uma vez que a cadeia esteja aqui. Mas isso não vai acontecer se começarmos com isso de TerraBrás e outras coisas.”
No momento, o Congresso e o Governo discutem a criação de uma Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. O deputado Arnaldo Jardim é o relator do tema na Câmara, e ele pretende apresentar sua proposta para discussão em 4 de maio.
O PT, partido do presidente Lula, defende a criação da TerraBrás para gerir o setor – embora notícias recentes apontem que a ideia não deve prosperar. O PT também defende um regime de partilha da produção desses minerais, similar ao modelo adotado no pré-sal.
Para o CEO da Viridis, atrair investimentos na cadeia de metais raros exige antes garantir confiança de que a mineração vai ocorrer, e uma estatização do setor geraria incertezas.
“Não acredito que isso vá ocorrer. Estou muito confiante de que se chegará a um consenso de que não é a coisa certa a se fazer.”
A decisão também precisa ser tomada logo, uma vez que o Brasil compete com outras geografias que estão em uma corrida para desenvolver o segmento, incluindo Austrália e África. E não há espaço pra todo mundo.
“O mercado de terras raras é pequeno. Não é como o minério de ferro. O petróleo é um mercado de trilhões de dólares. Em terras raras, estamos falando de algo na casa dos bilhões,” disse Moreno.
Por enquanto, a Viridis já investiu cerca de US$ 50 milhões em suas operações no Brasil, para as quais espera obter a licença ambiental de instalação no segundo semestre.
Até as operações, estimadas para começar na primeira metade de 2028, chegando à capacidade total até o fim do ano, a empresa deve desembolsar mais US$ 370 milhões.
Pelo cronograma hoje previsto, a Viridis entende que seu projeto será o próximo de terras raras a iniciar a fase de implementação não apenas no Brasil, mas no mundo.
Para financiar os trabalhos, a Viridis tem conversas com o BNDES, enquanto também negocia potenciais empréstimos associados a contratos de venda da produção.
O projeto pioneiro de terras raras do Brasil, da Serra Verde, por exemplo, obteve financiamento de agências ligadas ao governo americano associado ao fornecimento dos minerais (offtake). Até então, a produção estava sendo vendida à China.
No caso da Viridis, o plano é desde o início buscar contratos de fornecimento fora do gigante asiático, que hoje controla a cadeia de exploração e refino do setor.
“Não é que tenhamos nada contra a China. Mas a China disse, por causa do Trump, que vai parar de fornecer terras raras ao resto do mundo, não só aos EUA. Agora todo mundo está apavorado com essa dependência deles. O Ocidente percebeu que precisa se dissociar e diversificar essa cadeia para fora da China.”
A Viridis assinou a aquisição do direito sobre as reservas em Poços de Caldas em agosto de 2023.
O chamado “projeto Colosso” tem reservas de argila iônica, com processamento mais simples e barato que as terras raras de rocha dura. Além disso, a região é conhecida pela mineração, o que significa que há mão de obra e fornecedores locais, além de acesso a infraestruturas como estradas.
“O projeto tem uma das maiores reservas de argilas iônicas e de maior teor da indústria, e com baixo custo operacional, o que o posiciona para ser um dos mais rentáveis do mundo,” disse o head de Capital Markets e Relações com Investidores da Viridis, Guilherme Lopes.
Listada na bolsa australiana desde 2022, a empresa tem um valor de mercado de cerca de 350 milhões australianos (US$ 250 milhões).
Na base de acionistas, porém, cerca de 30% dos investidores são brasileiros, assim como diversos diretores.











