O Bank of America fez um rebaixamento em massa no setor de varejo, refletindo o fim da chamada “taxa das blusinhas” anunciado esta semana pelo Governo Federal, além de questões específicas de cada empresa.
O rebaixamento mais duro foi o da Azzas 2154, a holding dona das marcas Arezzo, Hering, Reserva e Farm. O BofA já tinha recomendação neutra para a varejista e agora rebaixou para ‘venda’ – algo raro no sellside.
O downgrade teve a ver com o fim do imposto sobre a importação de produtos com valor menor que US$ 50, mas também tem relação com o momento desafiador que a companhia enfrenta.
No relatório, o analista Robert Ford reduziu o preço-alvo de R$ 28 para R$ 17, um downside potencial de 13% em relação ao preço de tela, depois de revisar tanto suas estimativas para os resultados quanto para o múltiplo-alvo.
“Nosso preço-alvo agora é baseado num múltiplo de 6x o lucro estimado para 2027 (antes era 7x), representando um desconto em relação aos pares locais e refletindo riscos contínuos de concorrência e execução, além de preocupações com a governança,” diz o relatório.
O rebaixamento vem um dia depois de se tornar público uma disputa judicial entre os dois principais acionistas da Azzas: Roberto Jatahy e Alexandre Birman.
No relatório, Ford também reduziu significativamente suas estimativas de lucro por ação para este ano e para 2027 e 2028, com uma redução de R$ 2,71/ação para R$ 2,14; de R$ 4 para R$ 2,84; e de R$ 4,85 para R$ 3,68, respectivamente.
A redução teve a ver com premissas de vendas mais conservadoras, “particularmente para Arezzo, Hering e Reserva, além das implicações da perda de alavancagem operacional.”
“A Hering já enfrenta dificuldades num turnaround complicado e parece mal preparada para acompanhar uma política de preços mais agressiva. A Reserva, pressionada pelo elevado capital de giro e lentidão nas vendas, pode enfrentar pressão adicional até mesmo em seus itens básicos.”
Na Alpargatas, Renner e Natura a redução foi de ‘compra’ para ‘neutro’. Na dona das Havaianas, o preço-alvo caiu de R$ 15 para R$ 12, com o múltiplo-alvo reduzindo de 12x lucro para 10x, um desconto em relação aos peers globais.
Segundo o analista, a redução foi feita “para refletir a concorrência mais intensa, especialmente de alternativas internacionais.”
O BofA não mudou suas estimativas de lucro para a Alpargatas, mesmo depois dos resultados acima do esperado no primeiro tri, e disse que “o momento dos lucros pode estar ameaçado por uma retomada das importações de baixo valor.”
“Os custos de fabricação na China são estimados em cerca de um terço dos custos no Brasil, potencialmente permitindo preços altamente atrativos. Embora vejamos a forte força de marca da Alpargatas e a mudança gradual para canais mais especializados como possíveis proteções, também enxergamos ameaças materiais de perda de participação de mercado e risco na capacidade de repassar custos.”
Na Lojas Renner, o preço-alvo caiu de R$ 20 para R$ 16 e o múltiplo-alvo foi de 11x lucro para 9,5x, um desconto em relação à média histórica da companhia e seus pares globais.
Ford disse que apesar dos esforços para tornar os preços de entrada mais competitivos, a Renner tem tido dificuldade para crescer.
“Além disso, um cenário de consumo fraco pode direcionar o interesse dos consumidores para ofertas internacionais mais acessíveis. A acessibilidade de preços provavelmente terá forte apelo junto aos consumidores de renda baixa e média da Renner, especialmente à medida que as ofertas ganham escala e o acesso a alternativas internacionais mais baratas melhora.”
“Vemos o portfólio da Natura em risco crescente devido às importações de menor custo, incluindo marcas coreanas de skincare que crescem rapidamente. O segmento home & style da Avon, que já sofreu retração significativa, parece particularmente vulnerável,” diz o relatório.
“O corte de impostos ocorre em um contexto de consumo enfraquecido, especialmente no Nordeste, onde uma maior sensibilidade a preços pode deixar a Natura vulnerável a importações mais competitivas.”
Apesar do cenário negativo, o analista disse que continua vendo forte valor de marca na Natura e que enxerga “oportunidades para melhorias adicionais na estrutura de custos, potencialmente permitindo maior reinvestimento na marca.”
Bob notou ainda que o corte de impostos para produtos importados tem potencial, inclusive, de comprometer a compra de até 10% do capital anunciada pela Advent.











