A Rússia suspendeu temporariamente suas exportações de diesel, após ataques da Ucrânia a refinarias e à infraestrutura energética do país que causaram escassez do produto no mercado interno.

A medida do Governo Vladimir Putin, a princípio válida até 31 de julho, deve ter alguma repercussão no Brasil, que desde 2023 se tornou o segundo maior comprador do combustível russo, aproveitando-se de descontos decorrentes das sanções dos Estados Unidos e Europa a Moscou que nunca foram seguidas por Brasília.

Mas o impacto não será significativo, uma vez que a dinâmica do setor passou por mudanças recentes e importadores já vinham antecipando as restrições recém-anunciadas pelo Kremlin.

“A restrição da oferta de diesel da Rússia provoca aumento no preço do produto, mas não representa risco para o abastecimento,” Sergio Araujo, presidente da Associação Brasileira de Importadores de Combustíveis, disse ao Brazil Journal.

Na véspera do anúncio oficial de Moscou, dados da Abicom já apontavam para somente 17% de participação da Rússia nas importações de diesel do País em julho, contra 64% em junho.

Os Estados Unidos, por sua vez, avançaram para 78% das importações agendadas pelos brasileiros para este mês, de 36% em junho, enquanto a Índia passou a aparecer na lista com uma fatia de 5%.

“A oferta do diesel russo já havia caído bastante, e os descontos também, o que justifica essa migração (da demanda) para os navios vindos do Golfo da América,” disse Araujo, da Abicom. 

Nos últimos meses, o mercado passou por mudanças importantes: com Trump aliviando suas sanções a Moscou para conter os preços dos combustíveis diante da guerra no Irã, a procura pelo diesel russo no mundo aumentou, afetando os descontos que antes beneficiavam os compradores brasileiros. 

“Desde que começou a guerra no Oriente Médio os descontos sobre a energia russa desapareceram,” disse Alê Delara, sócio da Woodyard Investimentos.

Ao mesmo tempo, o preço do diesel dos EUA caiu, com diversos fatores apoiando a indústria doméstica do combustível e virando completamente o tabuleiro.

“O produto americano estava chegando igual ou até a preço menor que o russo. Na verdade, o diesel russo só não subia mais porque tinha o americano mais barato como limitante. Era algo super contraintuitivo e atípico,” disse um trader de combustíveis.

A nova dinâmica do mercado decorre da grande disponibilidade de petróleo para as refinarias nos EUA, apoiada pela liberação de reservas estratégicas em meio à guerra com o Irã, além de uma produção interna aumentando para níveis recorde e do recente acesso do país aos barris venezuelanos.

“O mercado já se reorganizou para suportar uma paralisação das exportações russas,” disse o trader, apontando que essa possibilidade já era prevista no setor há algumas semanas.

Nos últimos dois meses, os preços da gasolina e do diesel na Rússia subiram mais de 10%, para máximas históricas, com relatos de falta de combustível em todas regiões, segundo um relatório do Goldman Sachs.

O pico de demanda por diesel na Rússia geralmente ocorre em agosto, pela dinâmica do agronegócio local, e Putin havia citado a possibilidade do veto às vendas externas para garantir o abastecimento doméstico.

No Brasil, o maior consumo do combustível costuma ser registrado justamente em julho, puxado pelas colheitas de milho e algodão em andamento.

A Petrobras, inclusive, posicionou navios para trazer diesel ao País a partir deste mês, segundo o trader que acompanha as movimentações no mercado. 

A CEO da Petrobras, Magda Chambriard, disse no final do mês passado que a estatal precisaria importar o combustível em julho, após três meses sem fazer importações.

Embora não decorra de uma decisão política, o redirecionamento das compras de diesel para os EUA pode aliviar pressões diplomáticas sobre Brasília.

Alguns parlamentares americanos defendiam tarifas adicionais de até 500% sobre produtos brasileiros e de outros países acusados de apoiar a máquina de guerra de Putin com suas importações.

O senador Lindsey Graham chegou a dizer que um projeto para punir os clientes da indústria de energia russa teria o apoio do presidente Donald Trump.

O Brasil nunca aderiu aos embargos a Moscou, que vieram depois da Guerra da Ucrânia, com a diplomacia justificando que o País só aplica as sanções aprovadas pelo Conselho de Segurança da ONU.