Os jatos supersônicos – que passaram os últimos 50 anos impedidos de voar comercialmente sobre os EUA devido à sua elevada emissão de ruído – estão ensaiando um comeback.
Seguindo uma ordem executiva do Governo Trump, a Administração Federal de Aviação (FAA) apresentou uma proposta de regulamentação que prevê a certificação destas aeronaves pelo nível do som que emitem – e não mais pela velocidade que atingem, como é hoje.
Se aprovada, a proposta da FAA permitirá que as aeronaves supersônicas comerciais produzam um estrondo sônico (sonic boom) de 0,11 libras por pé quadrado ao nível do solo, uma fração das 1 a 10 libras por pé quadrado produzidas por um jato militar.
O plano ficará em consulta pública até o mês que vem e, se não houver impeditivos, deverá ser finalizado até meados do ano que vem pela FAA.
A medida abre caminho para que fabricantes de aviões voltem a pensar no modelo, mas as cinco décadas de proibição mostram que o assunto não é trivial e exigirá muito investimento da indústria, ou seja, um novo boom da aviação supersônica comercial ainda pode estar distante.
As aeronaves não militares que ultrapassavam a velocidade do som – cerca de 1080 km/h a 10 mil metros de altitude, ou Mach 1 – foram proibidas de realizar voos sobre terra nos EUA em 1973 devido ao estrondo que causavam.
O ruído era tamanho que quebrava janelas e disparava alarmes, emitindo um som semelhante ao de um tiro no ouvido humano.
A proibição foi um dos motivos para a aposentadoria do Concorde, o último avião supersônico comercial até aqui, em 2003. As companhias aéreas precisavam reduzir a velocidade para cruzar os EUA com a aeronave, o que aumentava muito os seus gastos com combustível.
De lá pra cá, houve avanços tecnológicos capazes de atenuar o problema, como a técnica batizada de “corte de Mach”, em que uma aeronave projeta o estrondo sônico de volta para a atmosfera.
A NASA tem experimentado com o tema no seu jato X-59 – o que inspirou o Governo Trump a buscar uma alteração da legislação – agora a grande questão é quais empresas estão dispostas (e preparadas) a embarcar nesta nova jornada supersônica comercial.
À Bloomberg, o consultor de aviação Rolland Vincent opinou que o retorno das viagens supersônicas civis deve ocorrer através dos jatos executivos.
“O mercado é grande o suficiente – entre indivíduos de alto poder aquisitivo, operadores de frotas particulares e chefes de Estado – para fornecer o volume necessário para que tal aeronave seja lucrativa,” ele disse.
Entre as grandes fabricantes de jatos executivos, a Dassault e a Embraer já produzem jatos militares supersônicos; a Gulfstream estudou uma parceria com a NASA na área; e a Bombardier tem o jato mais rápido do mundo, o Global 8000, que atinge Mach 0,95.
Mas para tirar o projeto do papel, elas precisarão se associar a uma das principais fabricantes de motores para aeronaves, um grupo ainda mais seleto com GE Aerospace, Pratt & Whitney, Safran e Rolls-Royce entre as poucas que já fabricam para aviões comerciais e militares.
Uma negociação difícil, já que as fabricantes de aviões vão querer exclusividade e as de motores precisarão de volume, que antecederá um longo e bilionário processo de desenvolvimento.
Talvez seja melhor esperar sentado.
Até aqui, as empresas engajadas no tema são a Boom Supersonic, uma startup do Colorado que trabalha em um jato para até 80 passageiros e tem pré-encomendas da United e da American Airlines; e a Spike Aerospace, de Atlanta, que está desenvolvendo uma aeronave com capacidade para até 18 passageiros.
As duas afirmam que poderão realizar voos transatlânticos em menos de quatro horas no futuro.











