Depois de mais de três anos, a Light saiu da recuperação judicial ontem à noite.

Para a empresa, a decisão da Justiça foi quase uma formalidade: as principais condições do plano já haviam sido cumpridas, incluindo um aumento de capital de R$ 1,5 bilhão e a conversão de cerca de R$ 2,2 bilhões de dívida em ações.

Mas a formalização muda bastante coisa. Ainda mais num momento em que a companhia de energia do Rio de Janeiro está no meio do seu maior plano de investimentos da história: R$ 10 bilhões até 2030. 

A saída da RJ deve reabrir o acesso da Light ao crédito, reduzir seu custo de capital e recolocar a empresa no radar de fundos e analistas que deixaram de acompanhar a empresa durante a crise, O CEO Alexandre Nogueira disse ao Brazil Journal.

“Num momento em que todo mundo só fala de RJ, tem uma companhia importante saindo da RJ – e saindo forte,” disse o CEO.

alexandre nogueira

A Light entrou em RJ em maio de 2023, com mais de R$ 10 bilhões de dívida líquida. Agora, depois do aumento de capital e da conversão, esse número está na casa dos R$ 5 bilhões.

A alavancagem já está abaixo de 3x EBITDA e a expectativa da gestão é que caia para menos de 2x depois da revisão tarifária do começo do ano que vem e do crescimento da geração de caixa, disse o CFO Leonardo Gadelha.

A melhora do balanço já começou a aparecer no rating. Em agosto, a Fitch elevou a nota nacional da Light de D, nível de default, para BB, com perspectiva estável. Na escala global, o rating passou de D para B-.

Gadelha disse que há uma expectativa de que o spread de novas captações possa cair pela metade em relação ao que a companhia pagaria durante a RJ.

A Fitch é mais conservadora: a agência ainda vê a Light com acesso limitado a financiamento e espera que novas captações continuem custando significativamente mais que a média do setor no curto prazo.

Mas a mudança também deve ajudar o equity. Durante a RJ, grandes fundos deixaram de olhar a empresa e várias casas interromperam a cobertura da ação.

“As casas estão retomando a cobertura, e agora começa um trabalho de fazer roadshows para buscar essa reaproximação com o investidor local e internacional,” disse o CFO.

Se o problema financeiro foi equacionado, ainda falta resolver a segunda parte da crise que levou a Light à RJ: a sustentabilidade econômica da concessão.

Segundo Nogueira, o próximo grande marco para solucionar isso será a revisão tarifária de março de 2027.

Hoje, a diferença entre as perdas efetivas de energia e o nível reconhecido pela regulação tira cerca de R$ 1 bilhão de EBITDA da Light por ano.

O novo contrato de concessão, renovado em 2026 por mais 30 anos, passou a reconhecer as áreas de risco, onde tráfico e milícias dificultam o acesso das equipes e tornam o combate ao furto de energia e à inadimplência muito mais difícil.

A Fitch trabalha com um aumento do limite regulatório de perdas para 58% do mercado de referência em 2027 – ante 43% hoje. Segundo a agência, cada ponto percentual adicional de perda reconhecida acrescenta cerca de R$ 30 milhões ao EBITDA da distribuidora.

Nesse cenário, o impacto das perdas cairia de cerca de R$ 1,2 bilhão neste ano para R$ 620 milhões em 2027.

“Esse tema sendo endereçado vem ao encontro da sustentabilidade que a Light precisa para continuar investindo e modernizando seu ativo,” disse Nogueira.

A revisão tarifária também será importante para viabilizar o maior ciclo de investimentos da história da companhia.

A Light pretende investir R$ 10 bilhões até 2030, praticamente tudo em distribuição. Só este ano, serão cerca de R$ 1,7 bilhão.

“Nos últimos 30 ou 40 anos, a Light investiu aquém do necessário na sua rede: agora não tem como não recuperar e modernizar esses ativos,” disse Nogueira.

Outro pleito que o setor discute na ANEEL é o reconhecimento anual dos investimentos na tarifa. Hoje uma distribuidora pode investir no início do ciclo e esperar anos para que esse capex entre na remuneração.

Para a Light, mudar essa dinâmica será fundamental para sustentar o plano sem voltar a pressionar o balanço.

Nogueira se diz orgulhoso pelo fato de a Light ter conseguido aumentar investimentos e melhorar a operação mesmo durante a RJ, e sem contratar nenhum DIP.

Um dos casos mais extremos foi a Ilha do Governador, onde a Light investiu mais de R$ 300 milhões depois que um cabo crítico chegou à exaustão técnica. 

A região é abastecida por uma rede de alta tensão subterrânea que liga o continente à Ilha e passa por baixo da Baía de Guanabara. Em janeiro de 2024, uma falha crítica em uma das linhas deixou dezenas de milhares de consumidores sem energia e expôs a fragilidade do sistema. 

A companhia instalou 160 geradores e conseguiu que o equipamento, antes fabricado na China, passasse a ser produzido no Brasil.

Mas o turnaround operacional continua.

“Ainda temos muito a fazer: estamos revendo 100% dos processos e 100% dos sistemas. Só no fim de 2028 vamos conseguir concluir esse trabalho,” disse o CEO.