A Jane Street Capital – uma corretora especializada em operações maciças de arbitragem executadas por modelos matemáticos e algoritmos – já fatura mais do que a receita de trading dos grandes bancos de Wall Street.

No ano passado, a firma de market making e quantitative trading faturou US$ 39,6 bilhões, quase o dobro dos US$ 20 bi do ano anterior e superando os ganhos das divisões de trading do JP Morgan – US$ 35,8 bilhões – e da Goldman Sachs – US$ 31 bilhões.

Classificada como uma high-tech money-making machine, a Jane Street faturou mais que o triplo da Citadel Securities – que no ano passado obteve sua melhor marca, faturando US$ 12,2 bilhões com trading.

Fundada em 2000 por três ex-traders da Susquehanna e um ex-programador da IBM, a Jane Street tira a maior parte de seus ganhos do high-frequency trading. Seu nome vem da rua no West Village – não muito distante de Wall Street – onde a corretora teve seu primeiro escritório.

Atuando como formadora de mercado, a Jane Street trabalha como uma ‘atacadista’ de ativos para corretoras como a Robinhood.

É ela que executa as ordens, cobrando um fee por isso e ganhando com a arbitragem de valores – quase sempre centesimais, mas que geram enormes receitas dada a escala das negociações.

Ao contrário de bancos de investimento e hedge funds, a Jane opera essencialmente com capital próprio, além de alguns negócios alavancados pela emissão de dívida. 

Segundo o Financial Times, a firma começou a se tornar relevante de fato após a crise financeira global de 2008, aproveitando-se das reformas na regulamentação dos mercados e capitalizando na digitalização das plataformas de negociação. Nos últimos anos, ganhou espaço também em operações internacionais, principalmente na Ásia.

Não tendo que lidar com as regras e exigências que oneram as operações dos bancos, a Jane Street vem ganhando uma participação crescente sobretudo nos mercados de ETFs.

De acordo com a Bloomberg, o capital dos acionistas cresceu mais de 2.000% desde 2016, chegando a US$ 45 bilhões. A alta exponencial, impulsionada pela popularização dos ETFs, permitiu novos ganhos de escala.

A Jane Street sozinha foi responsável por 24% de todo o volume de negociação primária de ETFs listados nos EUA em 2024. Segundo a Bloomberg, a firma administra mais de 90.000 produtos em mais de 240 bolsas de valores.

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Seus fundadores são extremamente low profile. São raríssimas as aparições públicas e entrevistas, e não se tem notícia de fotos recentes de nenhum deles.

Apenas um deles, Robert Granieri, de 56 anos, ainda continua ativo no dia a dia da empresa. Como alguns de seus sócios, ele é um egresso da Susquehanna, uma das pioneiras do quantitative trading

Em um perfil publicado no ano passado, a Bloomberg definiu Granieri como um “libertário de voz suave que preza tanto a discrição a ponto de passar despercebido dentro da empresa, onde oficialmente não possui nenhum cargo.” Seu perfil no diretório de funcionários se destaca pela ausência de uma foto.  

A companhia é conhecida por ser pouco hierárquica. Não possui um CEO nem cargos do tipo. É administrada por um grupo de sócios – quase como uma irmandade de gênios da matemática e da computação.

Ser admitido nesse clube não é fácil.

Os processos de seleção são considerados entre os mais rigorosos do mundo. Começa com uma bateria de testes de lógica e matemática em que a velocidade de resolução é essencial. Na sequência, uma série de entrevistas nas quais a avaliação se concentra nas habilidades cognitivas.

Os salários iniciais para os quantitative traders e programadores supera US$ 200 mil/ano – e podem triplicar com os bônus.

De acordo com a Bloomberg, a firma distribuiu US$ 9,38 bilhões no ano passado a seus acionistas e funcionários – uma média de US$ 2,68 milhões para cada um de seus cerca de 3.500 sócios e trabalhadores. O valor é 7x o valor médio dos bônus pagos pela Goldman Sachs em 2025.

Recentemente, a empresa passou a aplicar parte de seus ganhos em private equity. Foi uma das primeiras a colocar dinheiro na Anthropic e também investiu US$ 1 bi na CoreWeave, uma plataforma de nuvem para inteligência artificial.

A firma também tem se envolvido em disputas e polêmicas. No ano passado, os reguladores da Índia acusaram-na de manipular os mercados. A Jane Street negou as acusações, mas deixou de operar no país.

Mais recentemente, foi acusada em um processo civil de ter usado informação privilegiada para lucrar com a derrocada da Terraform Labs – uma plataforma de criptomoedas.

A Terraform quebrou em 2022, quando sua stablecoin – a TerraUSD – perdeu a paridade com o dólar, levando também ao colapso de sua token Luna.

Em sua resposta ao juiz do caso, os advogados da empresa disseram que a ação visa “extrair dinheiro da Jane Street para pagar a conta de uma fraude” perpetrada pela empresa. Em dezembro, o cofundador da Terraform, Do Kwon, foi condenado a 15 anos de prisão.