Ninguém gostou da primeira Ferrari elétrica, anunciada ontem com pompa e circunstância em um evento em Roma que destacou o pioneirismo do carro e a participação de Jony Ive, o ex-diretor de design da Apple.

O modelo – chamado Luce, a palavra italiana para luz –  foi mal recebido por gente de dentro e fora da indústria, provocando queda nas ações da Ferrari em Milão e Nova York.

O papel da Ferrari mergulhou 8,3% hoje em Milão e 5,3% em Nova York. Em 12 meses, a ação acumula queda de 27%. 

Em 2025, a Ferrari vendeu pouco menos de 14 mil carros a um preço médio de cerca de US$ 610 mil. O volume de entregas ficou praticamente estável em relação ao ano anterior, mas os preços subiram cerca de 8% – um cenário que dificilmente será revertido com o Luce.

Um dos maiores críticos do projeto foi Luca di Montezemolo, o ex-presidente da Ferrari e um dos maiores símbolos da marca. Ele disse que, se falasse o que realmente pensa, prejudicaria a empresa.

“Estamos arriscando a destruição de um mito. Espero que pelo menos retirem o Cavalo Rampante desse carro,” disse o ex-capo da marca.

Fifo Anspach, sócio da Automiami em São Paulo, também bateu duro: “Se você olha uma foto de um Luce e de um U9 Xtreme, qual carro você diria que é o chinês? Provavelmente o Luce.”

Até mesmo figuras da política italiana se manifestaram.

“Não parece nada com uma Ferrari. Isso era para ser supostamente uma inovação? Quem sabe o que Enzo Ferrari diria?” escreveu no X o vice-primeiro-ministro italiano Matteo Salvini.

Tentando apagar o incêndio, Fabio Caldato, da AcomeA SGR – uma gestora que é acionista da Ferrari – disse à Reuters que a Ferrari “está sendo penalizada por uma decepção estética, que se soma às preocupações significativas sobre a expansão de sua linha para incluir modelos elétricos,” mas que o modelo deverá agradar um “nicho de consumidores.”

O timing do anúncio também foi cruel com a Ferrari, já que nos EUA as vendas de elétricos caíram 27% no primeiro trimestre, em parte pelo fim do crédito fiscal de US$ 7.500 para a compra de carros elétricos. 

O cenário global também não é animador para os elétricos, com a demanda global bem abaixo das projeções mais otimistas da indústria.

Por conta disso, a Ferrari reduziu suas próprias metas de eletrificação em seu Investor Day em outubro passado, mas manteve o compromisso de ter 20% da linha em versões elétricas até 2030. O Luce é o primeiro passo nesse caminho.

Apesar da reação negativa, tecnicamente o modelo tenta manter a essência esportiva da marca, com mais de 1.000 cavalos e aceleração de zero a 100 km/h em cerca de 2,5 segundos. Ele é também o primeiro carro de cinco lugares da história da Ferrari.

Além disso, a montadora tentou trazer mais “barulho” ao silencioso elétrico ao incluir no veículo um sistema de amplificação sonora do motor, criado para simular o rugido característico de um Ferrari a combustão – ou seja, criar um elétrico que não pareça um elétrico, ao menos para os ouvidos.

O preço de entrada do Luce é de € 550 mil, cerca de US$ 640 mil. O modelo começa a ser vendido na Europa em outubro – e a partir do 2º trimestre de 2027 no resto do mundo.