Enquanto diversos países anunciam planos de retomar os investimentos em energia nuclear, mineradoras de urânio em todo o mundo enfrentam aumentos em seus custos operacionais e atrasos em projetos de expansão.

Segundo o CEO da maior produtora e exportadora global, a Kazatomprom, Meirzhan Yussupov, esse cenário explica a recente disparada dos preços da matéria-prima – que ele avalia ter vindo para ficar. 

“Novas realidades estão sinalizando que a era do urânio ‘barato’ está acabando,” disse o executivo na apresentação de resultados da companhia do Cazaquistão, na última sexta-feira. 

No mercado de contratos de longo prazo, os preços da matéria-prima do combustível nuclear atingiram o maior nível em 18 anos e têm se mostrado “incrivelmente estáveis”, estabelecendo fundamentos “muito fortes” para qualquer contratação futura, disse o CEO.

“O mercado também está mostrando sinais claros de uma mudança fundamental: o poder de precificação voltou para os produtores com reservas grandes e provadas, enquanto as estratégias de compra das utilities estão saindo da dependência do mercado spot para a garantia de reservas de longo prazo.”

No mercado spot do urânio, os preços também têm avançado para níveis acima dos vistos na maior parte do passado recente. 

Em janeiro, o spot atingiu uma média de US$ 94,28 por libra, o maior nível desde o início de 2024, quando a commodity tocou brevemente as máximas de 20 anos, perto de US$ 100.

Após um recuo para os US$ 84 por libra em março, os preços voltaram a subir gradualmente para US$ 86,38 em julho.

Recentemente, 38 países representando 70% do PIB mundial (incluindo o Brasil) assinaram um compromisso de triplicar a capacidade de energia nuclear até 2050.

Para o CEO da Kazatomprom, esse anúncio significa que os investimentos no setor “saíram oficialmente de um debate no papel para a execução operacional”, em uma “mudança global massiva” que cria um “momentum real” para o urânio após anos de marasmo no mercado e especulações sobre se a demanda iria de fato voltar.

“Estamos certos de que a demanda de longo prazo para o urânio será consistente e poderosa. Cada grama que produzirmos terá um comprador claro e comprometido esperando.”

Embora ainda não seja seguido tão de perto pelo mundo das finanças quanto outras commodities metálicas, como o ferro, o urânio tem atraído investidores.

Na gestora australiana Shaw and Partners, o analista Andrew Hines disse num relatório recente que vê o setor entrando em um “super ciclo de uma década, guiado pela forte demanda e oferta restrita.”

No Brasil, o sócio da Kinea, Ruy Alves, tem sido um entusiasta da tese do urânio, citando a dificuldade para construção de novas minas e anúncios de investimentos em energia nuclear nos Estados Unidos para abastecer data centers.