Para a centenária Kepler Weber, a maior fabricante de silos do Brasil, anos terminados com o número 6 não costumam trazer boas notícias.
Em 1996, as famílias fundadoras venderam o controle da empresa depois que uma crise no agronegócio tornou a sua dívida impagável.

Dez anos depois, outra retração no agro deixou a Kepler Weber à beira da falência; e, em 2016, uma nova crise no setor abalou a companhia.
Pois bem, 2026 tem se configurado como o ano com as piores margens para os produtores em quase duas décadas – uma deterioração que não começou agora, mas vem se arrastando há dois anos, em meio aos juros elevados e alta dos custos.
Nesse cenário, a ação da Kepler cai 33% no ano e a empresa chegou a despertar o interesse da americana Grain & Protein Technologies (GPT), que tentou adquirir a brasileira no início do ano. As negociações, porém, não avançaram.
“Nós aprendemos que crise faz parte do agro. Ela não pode ser ignorada nem subestimada,” Bernardo Nogueira, o CEO da Kepler Weber, disse ao Brazil Journal. “A empresa de hoje foi construída pensando justamente no próximo ciclo difícil.”
Ao longo dos últimos anos, a Kepler reduziu o endividamento até chegar a uma posição de caixa líquido, diversificou receitas, entrou em software e inteligência artificial e passou a enxergar a armazenagem menos como um equipamento e mais como um serviço.
A diversificação parece ter vindo em boa hora.
Depois de três anos de rentabilidade pressionada, muitos produtores reduziram investimentos, enquanto fabricantes de máquinas e fornecedores do agronegócio enfrentam um mercado muito mais seletivo.
“O produtor continua produzindo mais. A tecnologia continua aumentando a produtividade. O que mudou foi a capacidade de investir no curto prazo,” disse o CEO da companhia.
Para ilustrar esse comportamento e explicar o ciclo de necessidades do agronegócio, Bernardo costuma recorrer à pirâmide de Maslow.
O psicólogo americano Abraham Maslow criou a teoria que trata da hierarquia de prioridades dos seres humanos, das necessidades mais básicas (como alimento e segurança) às mais complexas (como status e autorrealização).
A mesma lógica vale para o agronegócio. Quando a renda aperta, as prioridades voltam para a base: pagar o custeio, preservar caixa e garantir a próxima safra. Projetos de expansão ficam para depois.
“Para o agricultor, a pirâmide de Maslow começa com a compra da terra, depois é preciso desenvolvê-la. Então, vem o maquinário. O silo é o topo da cadeia alimentar,” disse Bernardo.
A dinâmica ilustra especialmente bem o comportamento do produtor brasileiro, que historicamente investe pouco em armazenagem dentro das propriedades rurais.
Hoje, apenas cerca de 17% da capacidade nacional de armazenagem de grãos está instalada nas fazendas, bem abaixo de países concorrentes como a Argentina, onde esse índice chega a 40%, e os Estados Unidos, com cerca de 60%.
Boa parte da infraestrutura de armazenagem no País está concentrada nas tradings, cooperativas e nos portos – e é justamente esta cadeia que concentra 70% dos R$ 1,5 bilhão que a Kepler fatura.
A falta de infraestrutura nas propriedades rurais tem cobrado um preço aos agricultores.
Um levantamento da Cogo Inteligência em Agronegócio, encomendado pela própria Kepler, estima que o déficit de armazenagem tirou R$ 88,3 bilhões da renda dos produtores brasileiros de soja e milho entre 2023 e 2025.
Sem espaço para guardar a produção, muitos foram obrigados a vender justamente durante o pico da safra, quando o excesso de oferta derruba os prêmios de exportação. Foram R$ 56,5 bilhões em perdas na soja e R$ 31,8 bilhões no milho.
Mesmo assim, o fato é que a Kepler deverá continuar sentindo os efeitos desse agro mais descapitalizado.
Em relatório divulgado recentemente, o Citi reiterou recomendação de venda para as ações da Kepler, argumentando que a desaceleração dos investimentos no agronegócio deve continuar limitando o crescimento da companhia e que o papel negocia acima do potencial de valorização no cenário atual.
“Esperamos mais um trimestre de números fracos. Estimamos uma receita líquida de R$ 307 milhões (-1,3% na comparação anual), principalmente impactada pela continuidade do enfraquecimento do segmento de “Farms”, que deve recuar 10% em relação ao mesmo trimestre do ano passado,” André Mazini, o head de research para Latam do Citi, escreveu sobre os resultados do segundo trimestre que serão divulgados em agosto.
O banco projeta ainda um EBITDA de R$ 27 milhões (uma queda de quase 30% na comparação anual), o que implica uma margem de 8,8%, a menor desde 2018.
“Há dois anos eu era criticado porque a empresa tinha muito caixa. Diziam que precisávamos ter um pouco de dívida por causa da estrutura de capital. Hoje pergunto se alguém acha ruim que a Kepler seja caixa líquido,” disse Bernardo.
Para se defender das fases de baixa, a companhia vem ampliando a frente de manutenção, peças e serviços. A última foi criada há 10 anos e hoje representa um quarto da receita da companhia.
“O cliente pode não investir R$ 50 milhões numa unidade nova, mas continua gastando R$ 500 mil, R$ 1 milhão para manter aquilo que já existe,” disse Bernardo.
Mesmo com a expectativa de menor faturamento, a companhia mantém os investimentos em automação e continua destinando aproximadamente 3% da receita para capex – e talvez a maior transformação da Kepler esteja acontecendo longe das fábricas.
Depois da compra da Procer – uma empresa catarinense especializada em monitoramento digital de armazenagem de grãos – em 2022, a Kepler passou a acompanhar cerca de 25% da capacidade estática brasileira e estima que aproximadamente 40% da produção nacional de soja, milho, trigo e arroz passe por equipamentos conectados da companhia.
Esses dados já começam a alimentar produtos para bancos, seguradoras, tradings e operadores logísticos. Parcerias com XP, Swiss Re, Ingredion e Rumo são os primeiros exemplos da estratégia.
Pela LGPD, a Kepler Weber não pode compartilhar dados dos produtores com terceiros. Pode, porém, intermediar a oferta de produtos financeiros e outros serviços, recebendo uma remuneração pelas operações.
“O DNA da empresa deixa de ser apenas estrutura física e passa a incorporar conectividade, mitigação de risco e ferramentas de hedge,” disse Bernardo.
Quem sabe, na próxima grande crise do agronegócio, o ativo mais valioso da Kepler Weber já não seja um silo de aço, mas a inteligência gerada a partir dele.
A Kepler Weber vale R$ 1,2 bilhão na Bolsa.











