O Governador Tarcísio de Freitas disse que deve recuar de planos para conceder a operação de mais linhas do metrô à iniciativa privada, inclusive da Linha 17 – Ouro, que estava prevista para ser repassada à ViaMobilidade, da Motiva.

tarcisio de freitas

A declaração chama atenção por ocorrer a poucos meses das eleições, uma época em que as críticas a privatizações costumam voltar com força ao noticiário político brasileiro – muitas vezes unindo esquerda e direita.

Em Minas Gerais, por exemplo, a venda do controle da Copasa não recebeu o apoio explícito de nenhum dos candidatos fora o atual governador, Mateus Simões, que era o vice de Romeu Zema, cujo governo fez a transação.

Em São Paulo, a privatização da Sabesp, realizada na gestão atual, tem sido criticada pelo pré-candidato petista, Fernando Haddad. 

Tarcísio, pré-candidato à reeleição, já havia dito que estudaria conceder ao setor privado a operação de todas as linhas do Metrô, mas agora disse que está mudando de opinião.

“Você não faz nada por dogma. Sou extremamente pragmático. Não faço nada porque tenho ‘essa é a convicção’ ou que ‘esta é a verdade’”, o governador disse durante a inauguração de uma nova estação.

Segundo ele, está “em estudo hoje” manter a Linha 17 com o Metrô, que entregou o trecho em março e está fazendo a operação a princípio em caráter provisório. 

Para isso, seria preciso assinar um reequilíbrio econômico-financeiro com a ViaMobilidade, da Motiva, que já tem contrato assinado para assumir a gestão ao final da fase de testes.

“Você tem um reequilíbrio que é favorável ao Estado, porque essa linha é deficitária. Essa diferença pode ser utilizada em outros investimentos e expansões nas linhas que já são operadas pela ViaMobilidade,” disse Tarcísio a jornalistas.

Atualmente, além do Metrô, de controle estatal, apenas a Motiva opera linhas metroviárias. E a espanhola Acciona está prestes a estrear – ela tem a concessão de construção e operação da Linha 7, Laranja, que deve ser inaugurada nos próximos dias.

Nos trens urbanos, além da estatal CPTM e da Motiva, também atua o Grupo Comporte, da família Constantino, que opera algumas concessões.

Tarcísio também invocou a concentração de linhas na mão de poucas empresas para justificar sua mudança de opinião.

“É difícil mobilizar operadores estrangeiros por várias razões, e você também não pode concentrar todo o transporte na mão de poucos. Então, hoje a tendência é que as linhas operadas pelo Metrô continuem operadas pelo Metrô. Na verdade, o que estou pensando é a expansão das linhas operadas pelo Metrô hoje.”

A decisão pode acabar agradando a todos. Uma fonte que acompanha as discussões destacou que, como a Linha 17 é a princípio deficitária, o recuo provavelmente será bem recebido pela Motiva.

A companhia disse que não há tratativas formais em andamento sobre o contrato, mas que está à disposição para diálogo.

“A Motiva acompanha as manifestações do Governo do Estado sobre o tema e reconhece o interesse já demonstrado nesse sentido,” a companhia disse numa nota pública.

No Metrô, as declarações de Tarcísio foram vistas como um sinal de que a estatal está “prestigiada” no Palácio dos Bandeirantes após os trabalhos realizados na Linha 17, o gerente de Planejamento e Meio Ambiente, Luiz Cortez, disse ao Brazil Journal.

A conclusão do “monotrilho da Copa”, originalmente previsto para 2014, era uma promessa de campanha de Tarcísio, que herdou o projeto já paralisado e tentou inicialmente repassar sua construção à Motiva, que não teve interesse.  

O Metrô então assumiu as obras, contratando a chinesa BYD, que havia ficado em segundo na licitação, para fornecer os trens – após a primeira colocada original ser desclassificada por não atender requisitos técnicos e financeiros.

“O Metrô mostrou para o Governador que tinha condição de retomar. Ele autorizou e nós tocamos. Foi um esforço muito grande,” disse Cortez. 

“Estamos em um momento muito bom. O Governador estar vendo isso tem muito a ver com o perfil dele, de ser um cara técnico, que não tem medo de mudar de posição, sabe escutar todo mundo.”

O Metrô, inclusive, está conduzindo planos para uma expansão recorde, com diversos projetos em diferentes fases que têm potencial para mais que dobrar a rede na próxima década.

“Se você somar tudo, está dando 130 km, 140 km de novas linhas no pipeline, em algum estágio de desenvolvimento,” disse Cortez.

Esses projetos incluem as linhas 19 – Celeste, 20 – Rosa, 21 – Vinho, 22 – Marrom. A Linha 23 – Limão deve ser a próxima, com o primeiro passo, o edital de anteprojeto, previsto para ainda este ano.

“Nesta gestão, não faltou recurso. E o Metrô tem se mostrado muito eficiente. Tem empresas públicas que mal conseguem executar 50% do orçamento. Nós, tendo recurso, a gente gasta, não tem problema. A gente executa,” disse Cortez.

Com quarenta anos na estatal, onde começou a carreira ainda menor de idade, ele disse ter aprendido que o Metrô não tem como fugir da lógica do calendário eleitoral em seu planejamento para viabilizar a expansão da rede.

“O ideal é não deixar de ter uma carteira de projetos. Agora entrou em um ritmo bom. O que aconteceu em situações passadas é que não tinha projeto. Aí o Governador assume e fala: ‘o que vocês têm de projeto?’ Se falar ‘vamos começar aqui e no terceiro ano da sua gestão vamos ter alguma coisa’… ele não vislumbra a possibilidade de entregar algo na gestão dele, aí já olha pro outro lado.”