O aumento da inadimplência no Brasil é generalizado – e o ciclo de deterioração está longe de terminar, o Citi disse num relatório enviado hoje a clientes.

A piora da inadimplência costuma estar associada a condições de crédito mais restritivas, mas não é o que se vê no País, escreveu Gustavo Schroden, que lidera a análise de instituições financeiras do banco na América Latina.

O crédito em relação ao PIB aumentou de 46% em 2019 para 56% este ano, e as concessões para pessoas físicas continuam acima das médias históricas, indicando que os bancos, embora estejam mais cautelosos, ainda não fecharam a torneira.

O M2 – que mede a quantidade de dinheiro disponível na economia – subiu de 40% do PIB em 2019 para 58% este ano, perto das máximas históricas. 

Essa disponibilidade de recursos, aliada a outros fatores macro favoráveis – como a expansão dos benefícios sociais e um mercado de trabalho relativamente resiliente – “deveriam ajudar a estabilizar o balanço financeiro das famílias e contribuir para sua capacidade de pagar as dívidas,” disse o Citi. 

Mas isso não está acontecendo. 

Parte relevante dessa renda adicional está sendo usada para sustentar o consumo e pagar compromissos financeiros já existentes, em vez de reorganizar as contas. 

“O orçamento das famílias brasileiras está ficando cada vez mais pressionado, e essa dinâmica provavelmente vai piorar antes de começar a melhorar.”

Schroden nota ainda que a deterioração da inadimplência é generalizada. A alta dos indicadores de NPL acima de 90 dias aparece em empréstimos pessoais, cartão de crédito rotativo e parcelado, financiamento de veículos e crédito consignado privado.

A exceção é o consignado do INSS, porque a capacidade de pagamento é sustentada pelo desconto das parcelas diretamente dos benefícios, diz o banco.

“Historicamente, quando a inadimplência se dissemina por diferentes modalidades, ela tende a ser mais persistente e mais difícil de reverter.”

Para o Citi, o ciclo de alta da inadimplência não deve terminar tão cedo. Como as famílias já estão se beneficiando de “transferências fiscais elevadas, liquidez abundante e ampla disponibilidade de crédito, restam poucos fatores adicionais capazes de compensar uma nova deterioração de suas contas”.

Os empréstimos continuam crescendo, mas os indicadores de desempenho estão piorando – o que o banco vê como um “sinal clássico” de deterioração da qualidade dos novos tomadores. 

Na avaliação de Schroden, os bancos ainda não reagiram plenamente a esse cenário. “Historicamente, a inadimplência continua aumentando mesmo depois que os bancos começam a endurecer seus critérios de concessão, o que significa que o pico costuma ocorrer depois que as condições de crédito passam a se deteriorar.”