O mercado de transmissão de eventos esportivos vem passando por mudanças profundas nos últimos anos – com os streamings e outras plataformas digitais aumentando a concorrência e inflando o valor desses ativos.

Para o futebol brasileiro, a oportunidade é gigantesca, com a possibilidade de pacotes de direitos de transmissão mais robustos, maior poder de barganha para as ligas e a criação de novos produtos comerciais. 

Essa é a principal conclusão de um amplo relatório publicado hoje pelo Itaú BBA, que destrinchou o mercado de mídia esportiva e os reflexos das novas tendências no Brasil.

No relatório, o Itaú nota que os streamings já respondem por mais de 20% de todo o mercado de direito de transmissões esportivas, estimado em US$ 58 bilhões.

“Desde 2022, essa tendência não apenas se acelerou como também trouxe um fluxo significativo de investimento para os clubes e todo o ecossistema, incluindo direitos de transmissão, licenciamento de produtos e gestão de atletas,” escreveu a analista Maria Clara Infantozzi.

Com acordos bilionários de direitos de mídia cada vez mais comuns, o Itaú diz que o valor “parece estar concentrado nos detentores do conteúdo (ligas e competições esportivas) e nos novos canais de distribuição capazes de alcançar audiências globais.”

Segundo a analista, renovações de contrato com grandes ligas esportivas passaram a acontecer com aumentos de mais de 100% nos pagamentos anuais, em alguns casos representando incrementos de pelo menos US$ 1 bilhão por ano.

“O valor da propriedade de conteúdo não é uma novidade no streaming, mas no caso do conteúdo esportivo existe uma diferença importante: eventos esportivos ao vivo são naturalmente escassos e difíceis de reproduzir, algo especialmente relevante em uma era marcada pelos avanços da inteligência artificial generativa,” diz o relatório.

Como resultado, segundo o banco, a concorrência “elevou as ofertas pelos direitos de transmissão a níveis recordes, evidenciando o valor dos ativos de mídia esportiva de qualidade e dos novos canais digitais de streaming.”

O Itaú estima que o mercado endereçável para a mídia esportiva no Brasil – que hoje é de R$ 5,4 bilhões – pode chegar a entre R$ 7 bilhões a R$ 12 bilhões no longo prazo, o que implica num CAGR de duplo dígito nos próximos cinco anos ou de high single-digit num horizonte mais longo.

“Essa aceleração vai depender de melhores práticas de governança, uma maior profissionalização na venda de direitos de transmissão, investimentos incrementais no ecossistema de futebol e uma maior coordenação ou potencial convergência entre as duas ligas de futebol,” escreveu a analista. 

Do mercado endereçável atual, boa parte está no Brasileirão, que movimenta R$ 2,8 bi em direitos de transmissão e hoje está dividido em duas ligas: a Libra e a FFU.

O valor ainda é baixo comparado com os peers globais. Segundo o Itaú, enquanto o Brasileirão movimenta o equivalente a € 0,48 bi em direitos de transmissão, a Serie A movimenta € 0,9 bi, a LaLiga, € 0,99 bi, a Bundesliga € 1,1 bi, e a Premier League, € 1,97 bi.

“Parte do gap reflete diferenças na governança das ligas, na maturidade do mercado e na arquitetura comercial,” escreveu a analista. “Ainda assim, ele também aponta para um grande espaço para o Brasil melhorar a captura de valor com o tempo conforme o ecossistema de futebol continue se profissionalizando.”

No relatório, o Itaú lembra que o mercado brasileiro de direito de transmissões esportivas passou anos com um único modelo: basicamente, os clubes se juntavam e vendiam os direitos em bloco para a Globo. 

As coisas começaram a mudar em 2021, com a aprovação da chamada ‘Lei do Mandante’, que dava os direitos dos estádios exclusivamente ao clube mandante do jogo, o que permitiu novos formatos de negociação de venda das transmissões. 

Em paralelo a isso, a ‘Lei da SAF’ permitiu que os clubes recebessem investimentos de acionistas institucionais, convertendo-se de associações em empresas – o que ajudou na profissionalização do mercado. 

Foram essas mudanças que permitiram a criação da Libra e da FFU, e levaram ao surgimento de plataformas como a LiveMode (sócia da CazéTV). O fim do monopólio de fato da Globo fez os direitos de transmissão do Brasileirão pularem de R$ 1,6 bilhão em 2015 para os R$ 2,8 bi de agora.

“Essa evolução indica uma gradual melhora na monetização do futebol brasileiro, sustentada por estruturas de direitos mais organizadas, um maior número de compradores, e pela relevância cada vez maior dos eventos esportivos,” diz o relatório. 

Apesar dos avanços, a grande dúvida no mercado é se as duas ligas poderiam se fundir, o que traria benefícios ainda maiores para o mercado. O Itaú trata essa hipótese “como uma possibilidade, e não como cenário-base.”

“O caminho permanece incerto e sujeito a riscos de execução, dadas as diferenças de tamanho dos clubes, bases de torcedores, preferências de governança e visões sobre a distribuição de receitas,” diz o banco. 

“Ainda assim, vale a pena discutir o tema. Uma estrutura mais unificada poderia criar um pacote de direitos de transmissão maior e mais simples. Isso poderia potencialmente aumentar o poder de negociação e favorecer um ambiente de concorrência mais competitivo nas licitações pelos direitos de mídia do futebol.”

Para a analista, a escala também poderia facilitar a organização de oportunidades comerciais que são mais difíceis de estruturar em um mercado fragmentado – incluindo os naming rights da liga, a padronização da marca da competição e a ampliação do inventário comercial em torno das transmissões das partidas, como espaços pré-jogo, intervalo e pós-jogo. 

Uma estrutura centralizada da liga também poderia ajudar a padronizar a experiência do torcedor, graças a maiores investimentos na qualidade das transmissões e infraestrutura dos jogos, incluindo gramados e iluminação.