A gigante Trafigura, uma das maiores tradings de commodities do mundo, está montando uma operação de comercialização de energia elétrica no Brasil.
O movimento do grupo sediado em Singapura chama a atenção não só por trazer um novo player relevante para o mercado, mas também porque ocorre em um momento turbulento – muitas tradings independentes de energia estão enfrentando crises financeiras e até recuperações judiciais.
Com receitas totais de US$ 240 bilhões em 2025, a Trafigura é uma das maiores negociadoras globais de petróleo e metais, com escritórios em mais de 50 países. Ela ainda atua em eletricidade, gás, renováveis e carbono, além de ter participação em diversas empresas.
No Brasil, o mercado de comercialização de eletricidade envolve mais de 500 companhias. Entre as líderes em volumes estão empresas ligadas a bancos, como BTG Pactual e Santander, e a grandes elétricas, como Auren, Cemig, Copel, Eneva e Engie.
O segmento ainda é formado por centenas de comercializadoras independentes, e já conta com participação de algumas tradings de commodities internacionais, como a dinamarquesa Danske e a Vitol.
“O Brasil tem muitas oportunidades no setor de energia,” uma fonte com conhecimento da estratégia da Trafigura disse ao Brazil Journal, acrescentando que a empresa tem “grandes planos.”
A Trafigura ainda não comenta oficialmente sobre as operações.
“Eles estão montando a estrutura. Não é para ter um resultado já neste ano com trading, é longo prazo. Mas eles conhecem o caminho das pedras,” disse uma segunda fonte próxima à empresa.
O chefe de trading de eletricidade da Trafigura no Brasil será Pedro Vidal, ex-diretor de Comercialização da Light Com. Ele tem passagens anteriores pela Lightsource, da BP, além de Energisa, Mercurio e Eneva.
Vidal terá o desafio de colocar a Trafigura no jogo em meio a um cenário de volatilidade nos preços de energia e baixa liquidez do mercado de eletricidade que tem quebrado diversas comercializadoras menores.
A volatilidade nos preços de curto prazo, que chegam a variar mais de 2.000% num dia, decorre da crescente participação de fontes de energia com geração variável na matriz, como usinas eólicas e solares.
Já a falta de liquidez é associada no mercado à estratégia de grandes grupos geradores de segurar vendas de energia em contratos de longo prazo, devido à perspectiva de preços altos no mercado spot e ao risco de crédito nas operações com tradings menores.
No setor, o cenário divide opiniões. Algumas fontes dizem que as comercializadoras independentes vivem “a maior crise da história.” Outros players veem uma “depuração” no segmento.
Para um experiente consultor do mercado, a Trafigura poderá trazer “experiência internacional” e novos produtos ao mercado elétrico, “compatíveis com a nova realidade” do setor, mais volátil.
“Está havendo um ‘squeeze’ de comercializadoras. E toda crise gera aprimoramentos, mudanças. As grandes tradings de fora podem apoiar o desenvolvimento do nosso mercado,” disse um executivo do setor.
No Brasil, a Trafigura já possui escritórios no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, atuando em setores como petróleo e mineração.
O grupo fechou, em 2024, um acordo de leniência com autoridades brasileiras em que aceitou pagar R$ 435 milhões, admitindo envolvimento em propinas por negócios com a Petrobras – as irregularidades vieram à tona na Operação Lava Jato.











