O petróleo devolveu todo o rali gerado pelos ataques dos EUA e Israel ao Irã – trazendo a perspectiva de que o pior nas pressões inflacionárias globais tenha ficado para trás.

O Brent, que chegou a bater US$ 118 no final de abril, negocia hoje ao redor US$ 73.

A retração nas cotações ocorre uma semana depois da assinatura do memorando entre EUA e Irã. Segundo a Bloomberg, as exportações de petróleo do Golfo Pérsico já retomaram pelo menos 75% do nível pré-guerra.

Gabriel Galipolo

Citando informações da Kpler, uma empresa de monitoramento de comércio, a CNBC diz que mais de 20 navios-tanque transportando cerca de 35 milhões de barris de petróleo bruto já passaram pelo estreito desde a trégua.

A distensão aliviou a pressão nos juros americanos. O yield dos Treasuries de 10 anos, que atingiu 4,66% há um mês, fechou para 4,38%.

Nos EUA, a curva de juros ainda precifica uma alta da taxa básica na reunião de setembro do Federal Reserve – mas a probabilidade diminuiu.

O núcleo do índice de preços Personal Consumption Expenditures (PCE), divulgado hoje, registrou alta anual de 3,4% – a maior desde outubro de 2023. Mas, para os analistas, este pode ter sido o pico do ciclo inflacionário.

No Brasil, o IPCA-15, também publicado hoje, ficou abaixo do consenso – e com uma composição melhor do que a esperada.

A menor probabilidade de alta de juros pelo Fed e o cenário de inflação menos pressionada ajudaram na queda dos juros futuros no Brasil.

O DI para janeiro de 29, que tinha dado um salto para 15% na semana passada depois dos ruídos da comunicação do Copom, fechou agora para 14,30%. (A taxa estava em 12,5% antes da guerra.)

“Contribuíram para essa retração de hoje nos juros as estimativas divulgadas pelo BC, em seu Relatório de Política Monetária, projetando uma inflação mais baixa em 2028,” disse Luciano Sobral, o economista-chefe da Neo Investimentos.

Na apresentação do relatório trimestral, o diretor de Política Econômica do BC, Paulo Picchetti, disse que o Copom optou por não sinalizar os próximos passos dadas incertezas decorrentes da crise no Oriente Médio e dos efeitos do El Niño.

“Se a gente dobrasse ou triplicasse a Selic, não ia abrir o Estreito de Ormuz, não ia fazer o El Niño deixar de nos visitar, mas causaria volatilidade,” afirmou.

O presidente do BC, Gabriel Galípolo, disse que nenhum outro banco central está oferecendo guidance  na atual conjuntura, e que a literatura econômica não recomenda isso “justamente pelo momento de incerteza.”

Para ele, o Copom pode ter errado na comunicação de sua decisão na semana passada ao tentar “explicar demais” as razões do corte de 0,25, a despeito da piora em suas próprias projeções para a inflação – e refutou que tenha havido influência política.

“Com a defasagem de política monetária, não tem cabimento falar que qualquer decisão de hoje terá efeitos na economia com impacto na eleição,” disse Galípolo.

Para Rafael Ihara, o economista-chefe da Meraki Capital, o pico de ‘hawkishness’ dos BCs parece ter ficado para trás.

“Kevin Warsh, o novo presidente do Fed, em nenhum momento chancelou as altas precificadas na curva americana,” disse Ihara. “A curva americana, de certa forma, descorrelacionou, porque vimos o petróleo voltando ao patamar pré-guerra, mas os juros ficaram.”

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Isso ocorreu porque o mercado continua atento às pressões vindas da atividade econômica americana. Um indicador que será observado com atenção serão os números do mercado de trabalho que sairão semana que vem.

Mohamed El-Erian, o ex-chefe da PIMCO, disse no X que, ao contrário das expectativas do mercado, acredita que o “mais provável seja que o Fed não promova aumentos de juros neste ano, levando em conta não apenas as perspectivas para a inflação mas também a evolução do lado da oferta.”

El-Erian observou ainda que o Fed passa por uma transição – “de uma dependência excessiva de dados para uma abordagem mais voltada para o futuro.”

No caso específico do Brasil, a queda do petróleo tem efeito duplo. Por um lado ela contribui para retirar pressão dos preços; por outro, a perda de receita com as exportações do petróleo enfraquece o real – o que tem impacto na inflação.

No último mês, o dólar subiu 4%, indo de R$ 5 para R$ 5,20. “O real é uma commodity currency,” disse Ihara.

A curva de juros voltou a precificar uma probabilidade de novo corte da Selic. Muitos analistas, entretanto, enxergam pouco espaço para isso.

“Mantemos a Selic estável em 14,25% até o fim do ano,” disse Tiago Berriel, estrategista-chefe da asset do BTG. “O Copom enxerga uma estratégia com pausa e cortes posteriores, mas, em nosso cenário, as condições macroeconômicas não devem permitir a retomada do ciclo este ano.”

Já para o Bradesco, a mensagem do BC foi de que uma trajetória de juros similar à delineada no Focus – com queda da Selic neste ano e em 2027 – poderá garantir a convergência da inflação.

“O resultado é que a projeção para o primeiro trimestre de 2028 (o horizonte relevante das duas próximas reuniões do Copom) está em 3,2%, num cenário em que a Selic encerra 2026 em 13,75% e 2027 em 12,0%,” disse o relatório do time de macro do banco, chefiado por Fernando Honorato.

A próxima decisão do Copom será em 4 de agosto. A reunião do Fed ocorre uma semana antes, 29 de julho.