O Rio de Janeiro está recebendo nesta semana três ganhadores do Nobel de Economia e dezenas dos principais pesquisadores internacionais para uma conferência anual sobre o desenvolvimento da teoria econômica, na qual o grande homenageado é Aloisio Araujo, que completou 80 anos em janeiro.
O 25º encontro da Society for the Advancement of Economic Theory (SAET) ocorre neste ano na sede do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), no Rio. A conferência vai até o próximo sábado, dia 18, e terá entre os participantes os nobelados Christopher Pissarides, James Heckman e Lars Peter Hansen.
Um ilustre desconhecido fora dos círculos acadêmicos da economia e da matemática, Araujo é um dos pesquisadores brasileiros mais citados em artigos acadêmicos internacionais, e ajudou a formar gerações de economistas.
Pesquisador emérito do IMPA e professor da FGV, produziu trabalhos sobre econometria, macroeconomia, mercado financeiro e economia da informação. Foi um dos pioneiros em trazer para o País modelos econométricos para a avaliação de políticas públicas, e mantém há cinco décadas uma colaboração estreita com pesquisadores de ponta de todo o mundo, frequentemente trabalhando ao lado de agraciados com o Nobel.
“Ele ajudou a moldar a pesquisa econômica na América Latina,” disse a Econometric Society, que concedeu ao brasileiro em abril o Sonnenschein Service Prize, uma distinção agraciada a figuras que realizaram grandes contribuições na pesquisa científica.
“Acredito em economia feita com ciência,” Araujo disse ao Brazil Journal, durante uma longa entrevista em que rememorou passagens de sua carreira acadêmica e comentou contribuições para a implementação de reformas no País.
Como consultor do Governo, Araujo ajudou na concepção do regime de metas de inflação, na elaboração da nova Lei de Falência e na criação do Fundeb – o principal sistema de financiamento da educação pública no Brasil. Assessorou de Fernando Haddad a Paulo Guedes, passando por Henrique Meirelles. “Ajudo pessoas de diferentes inclinações,” afirmou.
Com mestrado pelo IMPA e doutorado em Estatística pela Universidade da Califórnia em Berkeley concluído em 1974, Araujo deu aulas na Universidade de Chicago, onde conheceu Heckman, um dos maiores estudiosos de políticas públicas – particularmente, a educação e a importância dos primeiros anos do ensino básico no desenvolvimento das pessoas.
“Aprendi a importância da educação infantil com o Heckman. Trouxe ele para o Brasil, fizemos uma reunião na Academia Brasileira de Ciência,” disse Araujo. “Teve muita influência no Haddad [quando era ministro da Educação, no primeiro Governo Lula]. O Fundeb nasceu desse encontro. Depois veio o novo Fundeb, já com o Paulo Guedes. Fui assessor dele também.”
As homenagens a Araujo vão se concentrar no sábado, o último dia do encontro. Um dos participantes será Michael Woodford, da Universidade Columbia, um dos mais renomados estudiosos de política monetária e com o qual o brasileiro fez trabalhos em co-autoria.
Nesse campo, um tema ao qual Araujo se dedica é o estudo do regime de metas de inflação. Em uma série de estudos sobre o tema, como no artigo Inflation target under fiscal fragility, o economista e seus coautores fizeram simulações econométricas e concluíram que a fragilidade fiscal dificulta o cumprimento da meta de inflação.
“Encontramos evidências empíricas de que níveis de dívida mais elevados e metas de inflação mais baixas aumentam tanto a probabilidade de ultrapassar a meta de inflação quanto a magnitude do desvio em relação a ela,” disseram os autores no paper.
Para segurar a inflação, o Banco Central acaba mantendo os juros em patamares extremamente elevados, o que agrava a situação das contas públicas.
“Eu me sinto orgulhoso e triste, porque eu previ que não iria funcionar essa meta de inflação mais baixa,” afirmou.
Meta baixa requer um esforço fiscal para tanto, disse Araujo, que considera ter sido equivocada e precipitada a decisão de trazer a meta de 4,5% para 3%. Agora a situação ficou ainda pior, porque houve uma piora no quadro fiscal.
Ao ser questionado sobre o fato de o País ter conseguido reduzir os juros durante a vigência do Teto de Gastos, o professor respondeu que era uma “regra muito rígida” e difícil de ser mantida. “Sempre penso no Brasil bom e velho de guerra. Não fico tão impressionado com esses momentos, em que até parece que temos um outro Brasil.”
Araujo, contudo, reconhece que não será fácil agora elevar novamente a meta, porque passaria um sinal negativo.“Será preciso fazer primeiro um ajuste fiscal muito forte e aí depois podemos pensar em mexer na meta,” disse.
Em sua opinião, não podem nem mesmo ser movimentos coincidentes, de anunciar o controle de gastos e diminuir a meta ao mesmo tempo. A eventual redução só deverá ser feita quando houver credibilidade nas regras de redução do déficit público.
“Se não houver o ajuste fiscal, o aumento da meta poderá ser interpretado como uma licença para gastar,” afirmou. “Aí vão dizer: Ah, mas se eu fizer um ajuste fiscal eu não preciso mais aumentar a meta. O problema é que o ajuste fiscal necessário para segurar uma meta tão baixa é muito maior – e não acredito que será feito.”
“Se fizerem um ajuste fiscal de 4,5%, 5%, 6% do PIB, aí você fica com a meta de 3%. Você vira o Chile. Mas o Chile fez todos os ajustes sob uma ditadura violenta,” disse Araujo. “Vive em outra situação fiscal, nada a ver com a gente.”
Para Araujo, “precisamos de um ajuste de pelo menos 2,5% ou de 3% do PIB e depois mudar a meta – não concomitantemente, posteriormente.”
A respeito da discussão acadêmica se o Brasil está em dominância fiscal – a situação em que a política monetária perde eficácia do descontrole fiscal e aumento da dívida pública –, o professor disse que seus estudos mostraram que o país vive em “uma zona intermediária entre a dominância fiscal e a dominância monetária.”
“No meu artigo, eu previ direitinho,” afirmou. “Os juros vão ser mais altos com a meta mais baixa e fragilidade fiscal. O que é fragilidade fiscal? Essa zona intermediária entre dominância monetária e fiscal.”
Para países na dominância monetária, é só calibrar os juros para manter a inflação na meta. Não é o caso brasileiro – e nem dos EUA em alguns momentos da história recente.

Araujo disse que teve o insight sobre a “enrascada” da meta mais ambiciosa a partir da teoria fiscal do nível de preços, desenvolvida nos anos 1980 por economistas como os premiados com o Nobel Thomas Sargent e Chris Sims, que desafiaram a teoria corrente de que tolerar níveis mais elevados de inflação poderia contribuir para manter o crescimento econômico elevado e sustentar níveis mais baixos de emprego. Na prática, esse era um efeito transitório, como se revelou na estagflação americana.
“O Bob Lucas [outro prêmio Nobel], velho amigo meu, já falecido, previu isso,” afirmou Araujo. “Previu a estagflação do [Jimmy] Carter. Aí veio o [Paul] Volcker, subiu os juros, e quebrou a América Latina inteira. Estávamos pedindo dinheiro de curto prazo para fazer investimentos de longo prazo. Situação típica que leva a corridas bancárias. O Brasil não estava ‘casado’.”
Araujo contou que teve a “sorte” de ter sido amigo de Thomas Sargent (outro Nobel) nos tempos de Chicago e teve acesso a um paper “fabuloso” dele em que argumentou que a combinação de juros altos e dívida em ascensão levam a um ponto em que “a bolha estoura.”
Para Araujo, o fiscal ruim deixa o Brasil exposto a choques, como o do tarifaço, que podem levar a uma disparada do dólar – e aí, em vez de estar na zona intermediária, o País fica mais próximo de uma situação de dominância fiscal.
Durante a conversa, Araujo recordou-se também de quando antecipou em 1997, em uma entrevista a Celso Pinto, da Gazeta Mercantil, que a paridade do real com o dólar seria insustentável.
“Previ que ia haver um ataque especulativo quando tínhamos o câmbio fixo, provavelmente antes da eleição [de 1998],” afirmou.
A razão era a falta à época de um ajuste fiscal, como o prometido, o que precipitou a queda nas reservas internacionais.
“Fiz a modelagem, não foi fantasia,” afirmou.
A análise daquele episódio está descrita no artigo Teoria macroeconômica com fragilidade fiscal, no qual afirma que “países emergentes tendem a enfrentar situações recorrentes de dívida com trajetória explosiva, o que torna o lado fiscal peça-chave para compreender suas economias.”
Para Araujo, o ajuste fiscal continua, portanto, essencial para dirimir fragilidades, mas “não adianta fazer só com o aumento de imposto, porque aí ‘estropeia’ a economia.”
Araujo participou da elaboração das duas reformas da Lei de Falências, em 2005 e em 2021 – e disse que a introdução do mecanismo da recuperação judicial “ajudou muito, senão estaríamos hoje em uma situação muito pior,” por causa do peso dos juros no resultado das empresas .
O professor disse que foi contra a proposta de fazer uma nova reforma, como propôs a equipe do ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
“Falei para o Haddad, esquece esse negócio. Ele disse que queria mudar o que estava faltando. Mas se você entrar fraco, vai sair uma lei pior. Você precisa escolher em que você vai se meter, no primeiro ano, quando você está forte,” disse o economista.
Em geral, cada Governo faz uma reforma importante por mandato. No atual Governo Lula, essa reforma foi a tributária.
Na gestão anterior de Lula, além da expansão de programas sociais, Lula aprovou o Fundeb – algo que “melhorou a qualidade do aluno” e vai ajudar na produtividade, segundo Araujo.
“O Brasil tem feito uma série de medidas importantes, que seguram isso [o País] e não seja só uma desgraça,” afirmou.
“Poderia ser ainda pior,” afirmou, “se não tivesse aumentado os anos de escolarização.”
O economista rejeita que a qualidade do ensino não tenha evoluído, como afirmam alguns analistas. Para ele, é preciso estudar os dados corretamente. “Se o País parar de gastar em educação, aí que ferrou tudo.”
Araujo disse que seu “sonho sempre foi trazer a fronteira científica para o Brasil” e a dedicação ao aprimoramento do ensino infantil faz parte desse projeto.
Mas por que então, diante dos avanços em vários campos, a produtividade não aumenta de maneira mais expressiva?
“Por que não tem investimento,” disse Araujo. “Com esses juros altos, tanto os recursos públicos como privados vão para financiar o Governo. Aí não sobra dinheiro, e as firmas vão à falência. E a coisa mais ‘anti-empreendedor’ e ‘anti-inovação’ que existe são esses juros.”
Aí voltamos ao nó da fragilidade fiscal.
Qual seria então a reforma primordial a ser enfrentada pelo próximo Governo?
Para Araujo, a primeira iniciativa deveria ser no campo fiscal, com um “ajuste robusto.”
E de onde sairá o dinheiro? Aí, segundo Araujo, será uma questão política. Cabe aos economistas apresentar um leque de possibilidades, como sugestões para uma próxima reforma da Previdência, a reforma administrativa e a possível redução do custo do Legislativo e do Judiciário.
“Não sou totalmente pessimista, mas vejo com muito alarme essa situação fiscal e a necessidade de uma meta de inflação mais realista, talvez 4%,” disse Araujo. “Não é para aumentar de sopetão.”











