A fabricante de pás de energia eólica Aeris entrou com uma medida cautelar pedindo proteção contra execuções de dívidas, ao mesmo tempo em que iniciou discussões com credores para tentar uma nova reestruturação de seus passivos.
A companhia controlada pela família Negrão, dona do Laboratório Medley, tinha um endividamento de R$ 1,95 bilhão ao final do segundo tri, a maior parte atrelado a debêntures.
A Aeris não comentou os motivos para a nova tentativa de reestruturação. A cautelar, que pede um prazo de 60 dias de proteção, corre em segredo de Justiça.
A crise não vem de hoje. A companhia levantou R$ 400 milhões em um follow-on em 2023 para amortizar dívidas e promoveu uma uma renegociação de prazos com detentores de debêntures e dívida bancária em meados de 2025.
A Aeris tem sido pressionada por uma quase total paralisação dos investimentos em energia eólica no País.
A indústria eólica vive uma crise inédita (e longa) em meio a uma conjuntura de excesso de geração renovável que tem levado a cortes forçados na produção das usinas – afetando a receita das empresas, que suspenderam novos projetos e secaram os pedidos para equipamentos.
No ano passado, a GE Vernova fechou uma fábrica de pás eólicas em Pernambuco. Antes, Siemens Gamesa e GE já haviam encerrado a produção de turbinas eólicas no País. A WEG está há vários trimestres sem registrar nenhum pedido para sua unidade de aerogeradores.
No segundo trimestre, a Aeris teve uma receita de R$ 129 milhões, 47% abaixo da registrada no mesmo período de 2025. A última linha do balanço mostrou prejuízo de R$ 152 milhões.
A Aeris vinha trabalhando com apenas duas linhas ativas em sua fábrica em Pecém, no Ceará. A produção de pás foi de 78 MW equivalentes no segundo tri, menos da metade do volume do mesmo período de 2025, quando estava com quatro linhas operacionais.
Para se ter uma ideia do nível de paralisação do mercado local de energia eólica, a Aeris não produziu praticamente nada para entrega no País nos últimos três trimestres (apenas 1 MW), com as vendas para o exterior respondendo por todo o restante da fabricação.
A companhia, no entanto, dizia ter 2 GW em carteira para 2026 e 2027 destacando a força do mercado americano, com previsão de reativar linhas nos próximos trimestres.
A Aeris disse que busca “uma solução consensual para a reestruturação do atual endividamento financeiro” e que “as medidas adotadas não impactarão seus clientes.”
A Aeris tem saldo devedor de R$ 1,51 bilhão em duas emissões de debêntures que estão sem pagamentos efetivos desde julho de 2024, segundo dados da plataforma de crédito privado Vitrify.
Assembleias de credores em 2025 postergaram o vencimento dessas duas emissões para 2030 e o pagamento de juros para 2027. A companhia também havia refinanciado no ano passado dívidas com Banco do Brasil, Banco Votorantim e Banco Santander.
A Aeris vale R$ 138 milhões na B3. A ação cai mais de 30% neste ano.











