Junto com um primeiro trimestre pressionado, a XP acaba de anunciar Gustavo Alejo como seu novo CFO, atraindo um executivo de um grande banco num momento em que a companhia – que nasceu e cresceu como corretora – cresce suas ofertas de crédito e pagamento.

Alejo foi o CFO do Santander Brasil nos últimos três anos, e deixou o banco espanhol no mês passado. Ele vai cumprir um ‘garden leave’ de três meses e assume a cadeira na XP a partir de 1 de agosto. 

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O executivo passou 26 anos no Santander, onde teve diversas posições. Antes de ser o CFO, foi head de recuperação de crédito do atacado e um managing director no corporate e investment banking.

Alejo vai substituir Victor Mansur, que estava há três anos no cargo e há 15 na XP. A empresa disse que Mansur continuará na companhia, atuando no conselho de algumas das investidas, depois de tirar alguns meses para estudar no exterior. Ele deixa o cargo no próximo dia 31.

O CEO Thiago Maffra, que atuará como CFO interino até a posse de Alejo, disse ao Brazil Journal que o processo de troca do CFO vem sendo conduzido há meses, e que a decisão teve a ver com o novo momento da XP.

“Nosso banco vem crescendo muito e quisemos trazer um executivo com muita experiência em atacado, crédito. Lançamos várias iniciativas de banking, pagamento, crédito e câmbio para empresas e pessoa física, e queríamos um executivo que complementasse os nossos skills nessas áreas,” disse Maffra. “O principal mandato dele vai ser ajudar a XP nessas verticais.” 

O anúncio do novo CFO foi feito junto com a publicação do primeiro trimestre da XP, que veio pressionado por conta da marcação a mercado de títulos de dívida carregados pela tesouraria e o investment banking da empresa.

Em março, com o início da guerra no Irã, os spreads de alguns desses títulos abriram muito, impactando a receita e o lucro da companhia. (Como tem uma atividade de distribuição muito forte, 100% da originação de mercado de capitais da XP é marcada a mercado, diferentemente de concorrentes que, em alguns casos, colocam estes títulos como ‘disponíveis para venda’, e assim só marcam contra o book, sem transitar pelo P&L).

A XP reportou um crescimento de 8% na receita bruta para R$ 4,9 bilhões no trimestre, abaixo do guidance para este ano, que é de um crescimento de 16% a 17%, que a empresa já tem dito que será difícil de atingir. Já o lucro líquido cresceu 7% para R$ 1,32 bilhão. 

Os números vieram ligeiramente abaixo das projeções do sellside, que já vinham sendo alertados pela companhia de que haveria uma pressão no resultado por conta da guerra. 

Maffra disse que a XP não está abrindo exatamente qual teria sido o crescimento sem o impacto da marcação a mercado, mas que o crescimento teria sido “significativamente maior.”

Thiago Maffra

“Para o ano continuamos ‘on track’. Nada muda no nosso plano de entregar um crescimento de duplo dígito e uma margem EBT de 30%,” disse ele. “Os negócios de retail e corporate, tirando as marcações a mercado, foram muito bem. O retail cresceu duplo dígito, e o corporate cresceu 26%.”

No segundo tri, a XP ainda deve sofrer algum impacto das marcações, já que em abril os spreads voltaram a abrir, ainda que em magnitudes menores que as de março. 

“As aberturas foram bem menores e temos outras alavancas que vão compensar isso. Em maio, já vimos o mercado começando a se equilibrar melhor.”

Na captação líquida, o trimestre foi em linha. A XP captou R$ 38 bilhões no varejo – sendo que metade deste valor foi o ressarcimento do FGC aos clientes da XP, que optaram por manter os recursos na casa. Com isso, a XP chegou a R$ 2,14 trilhões em ativos totais. Excluindo os recursos do FGC da conta, as captações foram de R$ 19 bilhões, um número próximo do soft guidance da companhia, de R$ 20 bi por trimestre.  

A XP também anunciou um novo programa de recompra de ações, de R$ 1 bilhão, depois de ter executado metade de seu programa que já estava aberto, também de R$ 1 bi. A companhia anunciou ainda a distribuição de R$ 500 milhões em dividendos, elevando a remuneração total aos acionistas que deve ser executada este ano para R$ 2,5 bilhões.

Segundo Maffra, para atingir o guidance de reduzir sua Basileia para menos de 19%, a XP teria que distribuir R$ 5 bi aos acionistas este ano. No primeiro tri, a Basileia fechou em 20,7%.

“Temos uma Basileia muito acima do mercado. Se normalizamos para o padrão do mercado, que é uns 16%, nosso ROE, que foi de 21,7% no tri, subiria para 26%,” disse o CEO. 

A XP vale US$ 8,8 bilhões na Nasdaq, com sua ação caindo 8,5% nos últimos doze meses.