A Cerebras Systems, a fabricante de chips de inteligência artificial que vem sendo considerada um potencial rival da Nvidia, estreou hoje na Nasdaq com uma alta de 68%.

Foi o maior IPO do ano até agora, com a companhia levantando US$ 5,5 bilhões. A ação foi precificada em US$ 185, bem acima da faixa original, que ia de US$ 115 a US$ 125. A demanda foi de 25x o total oferecido.

Logo na abertura, o papel mais que dobrou, chegando a negociar a US$ 385. Mas perdeu força ao longo do dia e fechou a US$ 311. Com isso, o market cap da companhia agora é de quase US$ 70 bi – similar ao da General Motors e da Vale.

A Cerebras desenvolveu chips que são 60 vezes maiores que os chips convencionais de AI e dezenas de vezes mais eficientes em inferência – o ‘raciocínio’ e entrega de resultados – e também no treinamento de modelos.

Do tamanho de um caderno pequeno, o Wafer-Scale Engine (WSE-3) da Cerebras reúne 4 trilhões de transistores e 44 gigabytes de memória e pode fazer sozinho tarefas que demandam um cluster de chips H200 da Nvidia – cada um, pouco menor que uma foto 3X4 e com 80 bilhões de transistores.   

Capacidade computacional representa um dos maiores gargalos para a expansão global da AI e do treinamento de novos sistemas. Outra barreira para o avanço das empresas do setor é a oferta de eletricidade. Chips mais eficientes, portanto, ajudarão a superar esses dois obstáculos.

“Estamos apenas no início da utilização da AI. E quanto mais a AI se torna útil, mais tokens [unidades de informação] são necessários. E nós somos mais velozes na criação de tokens,” disse à Bloomberg o CEO e cofundador da Cerebras, Andre Feldman. “Somos 15 vezes mais rápidos que o concorrente mais próximo.”

Em um movimento defensivo no final do ano passado, a Nvidia desembolsou US$ 20 bilhões pelo licenciamento da tecnologia da startup Groq, que desenha chips similares aos da Cerebras.

Fundada em 2015 no Vale do Silício, a Cerebras fez uma receita de US$ 510 milhões no ano passado, uma alta de 76% em relação a 2024. Com o resultado, fechou o ano no azul, com lucro de US$ 88 milhões, revertendo o prejuízo de US$ 482 milhões do ano anterior.

Em sua última rodada de financiamento antes do IPO, a Cerebras levantou US$ 1 bi em fevereiro numa Série F liderada pela Tiger Global Management que avaliou a empresa em US$ 23 bi post-money.

Hoje o maior acionista da Cerebras é a Fidelity, com 11,3% das ações Class B. Na sequência aparece a Benchmark, a firma de venture capital que foi uma das primeiras a colocar dinheiro na Cerebras e que, ao preço do IPO, já havia multiplicado por 12x seu capital investido. Entre os investidores-anjos estão Sam Altman e Greg Brockman, da OpenAI.   

De acordo com o Wall Street Journal, um dos principais pontos de interrogação em relação ao futuro da empresa é sua atual dependência de um pequeno grupo de clientes.

Até o momento, a companhia tem em seu portfólio apenas dois grandes clientes. O primeiro é a G42, uma empresa de AI criada por Abu Dhabi em parceria com a Microsoft. O outro é a OpenAI, que recentemente fechou um contrato de até US$ 20 bilhões com a Cerebras. Além disso, a empresa tem parcerias com  Amazon Web Services (AWS), Meta e Mistral.

“A questão para os investidores não é se a Cerebras afeta a Nvidia, mas sim se a arquitetura totalmente personalizada conseguirá gerar receita além dos acordos estratégicos com a OpenAI,” escreveu Vikram Sekar, um engenheiro de semicondutores e fundador da SemiExponent.

A estreia bem-sucedida demonstra, porém, que a demanda por exposição a novos plays de AI segue brutal. Os IPOs mais aguardados do ano são os da OpenAI e da Anthropic, previstos para o segundo semestre, além do da SpaceX, que deve ocorrer em junho.