O minério de ferro está morto. Vida longa ao minério de ferro.

Nos últimos anos, houve praticamente um consenso no mercado: os preços do minério de ferro iriam desabar em algum momento próximo. Mas essa hora nunca chegou.

A segunda commodity mais negociada do mundo e matéria-prima na produção do aço, o ferro resistiu à desaceleração da China e à chegada ao mercado dos primeiros embarques da produção da mega reserva de Simandou, na Guiné, mantendo-se sempre perto dos US$ 100 a tonelada.

Marcelo Bacci ok

Agora, alguns analistas começam a acreditar que os preços se tornaram estruturalmente mais estáveis e que podem permanecer nos níveis atuais – considerados elevados – por um longo período, o que levaria a uma reprecificação das ações no setor.

A Vale, a maior produtora do mundo, concorda com essa visão.

“Os múltiplos das empresas de minério de ferro têm sido baixos porque existe há uns cinco anos essa visão de que o preço vai cair, porque a China desacelerou, por excesso de oferta, etc.”, Marcelo Bacci, o CFO da Vale, disse ao Brazil Journal. “E ele não só não caiu, como continua bem pouco volátil, então isso deveria determinar um múltiplo maior para o setor.”

No Santander, os analistas Yuri Pereira e Laura Zioli avaliam que parte do desconto nas ações se deve a preocupações com a instabilidade histórica no valor da commodity, que teve grandes variações principalmente nos ciclos 2015-16 e 2021-22.

O mercado de minério é por vezes acusado, inclusive pelo governo chinês, de ser altamente especulativo. (Em diversos momentos, Beijing atuou diretamente para conter o que considera excessos dos investidores.) 

Entre 2008 e 2026, o múltiplo das ações do setor ficou entre 4,9x e 6,1 x EV/EBITDA, mexendo-se muito mais de acordo com a volatilidade do que só com o preço spot, que variou de US$ 60 a US$ 140 por tonelada ao longo do período, disseram os analistas do Santander.

Segundo eles, historicamente as ações negociavam com um EV/EBITDA 0,7x maior (cerca de 13% acima) quando a volatilidade era baixa.

Agora, mudanças recentes na indústria – inclusive medidas da China para conter a especulação em sua Bolsa de commodities e para centralizar compras em um órgão estatal – podem estar levando a uma mudança estrutural para baixo na volatilidade, acreditam os analistas.

O CFO da Vale também vê o setor mais estável, embora por outros motivos.

Ele acredita que os analistas vinham subestimando os impactos do esgotamento de minas mais antigas, principalmente na Austrália. Esta exaustão retira em média 50 milhões de toneladas por ano da oferta – mais do que compensando o aumento de produção de Simandou, de 160 milhões de toneladas em quatro anos.

Além disso, outros países têm se tornado importantes para a demanda, como regiões do Sudeste Asiático e a Índia, que de exportadora deve em breve se tornar importadora. Já a China estabilizou, mas não caiu como muitos temiam.

“Quando você junta esses fatores, isso mostra que o preço de fato deve continuar mais alto por mais tempo. Ainda tem muito futuro no minério de ferro,” disse Bacci.

A maior concorrente da Vale, a Rio Tinto, também elencou recentemente evidências em favor da tese de que o mercado está superestimando a oferta e subestimando a demanda.

O time de mineração do BTG, liderado por Leonardo Correa, concorda com diversos dos argumentos dos australianos. Num relatório recente, os analistas questionam: “há um mito sobre o excesso de oferta de minério de ferro?” 

“Todos esses fatores sugerem que a visão de consenso de que os preços vão eventualmente se normalizar na faixa dos US$ 80/t pode ser muito pessimista,” argumenta o BTG. “E, mais importante, essa possibilidade segue amplamente desconsiderada nos valuations atuais.”

A se confirmar este cenário de “higher-for-longer” no minério, a Vale será uma das principais beneficiadas, negociando hoje a 4,3x EBITDA para 2026, um múltiplo que não considera todo o seu potencial de retorno.

“Se os preços do minério forem continuar perto de US$100/t no longo prazo, nosso modelo de valuation aponta para um valor presente líquido de US$ 28 por ação para a Vale, implicando num upside de 75% ante os níveis atuais.” 

Além de contar com a resiliência dos preços, a Vale está aumentando a produção – retomou a liderança global em minério no ano passado – enquanto trabalha também na frente dos custos, disse Bacci.

“Pretendemos manter essa posição no volume e ir melhorando ano a ano nossa posição no custo. Estamos hoje entre as produtoras de menor custo, mas não somos a de menor custo. Já fomos, e temos todas as condições de voltar a ser.”

Em outra frente, a Vale também ampliou a aposta em sua subsidiária de metais básicos, que atua em níquel e cobre. A projeção é dobrar a produção de cobre nos próximos dez anos, surfando a demanda gerada pela transição energética e eletrificação.

“Não estamos no cobre porque deixamos de acreditar no minério de ferro; é um complemento de portfólio em um setor que tem crescimento bastante expressivo,” disse Bacci. 

A vida longa do minério de ferro pode ser uma boa notícia não só para a Vale e outras empresas, mas também para a balança comercial brasileira. O produto é o terceiro exportado pelo País, atrás somente da soja e do petróleo. 

A Vale está avaliada em R$ 346 bilhões na B3. A ação sobe 8% em 2026 e 58% nos últimos 12 meses.