Basta que alguém se manifeste nas redes sociais com opiniões remotamente à direita para que lhe sapequem logo o rótulo de “fascista”.

O insulto tem um peso histórico enorme. Não por acaso está entre as palavras mais buscadas na internet.

O fascismo nos remete ao regime de Mussolini, aliado de Hitler nos crimes da Segunda Guerra Mundial – mas começou bem antes da ascensão deles. Como movimento político, nasceu na França na última metade dos anos 1800s, num momento de crise econômica e forte antissemitismo.

É o que nos conta o italiano Sergio Buzzatto, professor de história moderna da Itália na Universidade de Connecticut, em seu The First Fascist (O primeiro fascista), recém publicado pela Harvard University Press, ainda sem tradução em português mas disponível no Kindle. (Compre aqui)

O livro narra a história de Antoine de Vallombrosa, o Marquês de Morès. Criado numa mansão de veraneio em Cannes, na Côte d’Azur francesa, Vallombrosa foi baderneiro na juventude, depois militar, e, quando adulto, um violento perseguidor de judeus.

Patrocinou negócios, bancarrotas e confusões em quatro continentes. Morreu dias antes de completar 38 anos, em 1896, no deserto do Saara, depois de um negócio envolvendo camelos.

Compete com ele, pelo posto de protofascista, o austríaco Georg von Shönerer (1842-1921), o herdeiro de um industrial e um homem com idéias de superioridade racial e anti-liberalismo. Ele chegou a arrebanhar simpatizantes. O jovem Adolf Hitler pode ter absorvido suas ideias. Teve vida longa – porém, muito menos espetaculosa que a do Marquês.

Vallombrosa casou-se aos 24 anos com a herdeira do banqueiro von Hoffman de Nova York, numa suntuosa cerimônia em Cannes. Em seguida, mudou-se com ela para os Estados Unidos, que ainda desbravava o interior com as ferrovias.

Fundou uma cidade – em território recém conquistado aos indígenas Sioux – com o nome da mulher, Medora, e o capital do pai dela. Abriu uma estação ferroviária e um negócio de carnes, com matadouro, frigorífico e vagões refrigerados.

Vivia numa mansão com 26 quartos, tapetes, papel de parede e piano vindos da Europa, com espaço para babás, cozinheiros e governantas que acompanhavam o casal.

Tinha como vizinho de terras, nem sempre amistoso, Theodore Roosevelt, que um dia seria presidente. Caçava ursos, bisões e ladrões de gado, então abundantes na região, como assistimos nos filmes do Velho Oeste.

Acusado pelo assassinato de um deles, acabou na cadeia e no banco dos réus em setembro de 1885. Foi inocentado, já que os bandoleiros não eram muito populares entre os novos ocupantes da região.

Aplicou nos negócios práticas igualmente agressivas. Enfrentou os intermediários do comércio da carne de Chicago. Comprou briga também com os donos de açougues de Nova York. Foi à falência e, como de hábito, culpou os judeus.

Ao voltar à França em 1886, foi enaltecido como um vitorioso cowboy francês numa época carente de heróis, pois o país ainda cuidava das feridas da guerra com a Prússia (parte da futura Alemanha).

Sem desanimar com a falência – e usando o dinheiro do sogro – partiu para o extremo Oriente rumo à Indochina, na época uma colônia francesa. Tentou montar outro projeto megalomaníaco: uma estrada de ferro na região do atual Vietnã. Fracassou de novo. 

Passou a culpar o ex-governador colonial, um republicano de origem judaica, Ernest Constans, depois ministro do interior. Era o que faltava para o Marquês entrar na política e nas páginas policiais.

Embora não tenha sobressaído nos estudos da Academia Militar, Vallombrosa era hábil com espadas e pistolas. Gostava de duelos. Suas vítimas preferenciais foram jornalistas e políticos judeus.

Já no início de 1889 foi preso por porte ilegal de armas. No ano seguinte, alistou-se como candidato a deputado declaradamente antissemita. Seu discurso atacava “os poderosos judeus”, a quem acusava de dominar a economia e os jornais da França.

Na sua campanha, adotou como emblema o fascio (um feixe de varetas), símbolo do Império Romano, depois popularizado por Mussolini. O fascio significa que, juntos, os fracos ficam fortes.

Com suas roupas aristocráticas, luvas e bigodes pontudos, submeteu-se ao sufrágio como candidato de um distrito popular de Paris. Teve 926 votos, contra 3.942 do moderadamente socialista Paul Brousse.

Os caricaturistas da época fizeram chacota da incursão do pomposo nobre pelo campo republicano, e o Marquês não deixaria mais de ser assunto da imprensa parisiense.

Logo após a derrota, foi preso por incitar a violência numa manifestação para comemorar o Primeiro de Maio, o Dia dos Trabalhadores.

Os jornais antissemitas apontaram sua prisão como mais uma vingança do ministro Constans e dos ricaços judeus. Julgado, foi condenado a três meses de prisão; cumpriu dois.

Foi sua terceira temporada na cadeia, o que serviu para alimentar seu ódio. Saiu convencido de que o voto popular também era manipulado pelos ricos judeus.

Seu alvo seguinte seria o subprefeito de Avesnes, no Norte da França, um tal Ferdinand Isaac.

O Marquês estimulou um grupo de trabalhadores a organizar uma manifestação contra o administrador. Resultado: nove mortos, entre eles um menino de 11 anos.

Mais uma oportunidade para culpar os judeus. Ferdinand acabaria destituído do cargo. Desafiado para um duelo, foi ferido pela pistola de Vallombrosa.

Em 1892, o Marquês matou com sua espada o capitão do exército francês Armand Mayer, também de ascendência judaica. Foi levado novamente aos tribunais.

Suas confusões acabaram esgotando a paciência e os bolsos do pai e do sogro.

Vallombrosa imaginou que na África poderia conseguir terras para construir sua própria utopia. Armou uma dispendiosa caravana pelo Saara, que atravessou montado num vistoso dromedário branco. Pouco antes de ser morto por salteadores do deserto, escreveu a sua esposa que os tuaregues, povos do deserto, poderiam ser a origem da raça superior ariana.

Seu corpo foi recuperado dias depois, irreconhecível pelos golpes de sabre que recebeu. Sua mulher, Medora, que sempre negou a origem judaica de seu sobrenome Hoffman, moveu mundos e fundos para descobrir os assassinos do marido. Nunca os encontrou.

O autor do livro ressalta o pioneirismo do Marquês como influenciador e financiador de grupos violentos, críticos dos princípios liberais republicanos, coligando monarquistas saudosos e supremacistas raciais.

Num momento de sucesso de jornais sensacionalistas, Vallombrosa, foi entusista das fake-news, contra os jornais tradicionais e das narrativas do “nós” contra “eles”.

Um dos pontos altos da onda de fanatismo foi a humilhação pública do capitão Alfred Dreyfuss, em 1894, acusado injustamente de espionagem, objeto do livro clássico “J`Accuse”, de Émile Zola. 

Além de ter adotado o fascio, ícone mussoliniano, Morès criou os aventais azuis, antes dos camisa negra dos bandos para-militares do ditador italiano e dos camisa pardas, dos nazistas. 

O passado mostra que momentos complexos de crise favorecem o surgimento de líderes autoritários, com respostas simples, diretas, e frequentemente erradas.