Não é de hoje que a eleição para o governo de Minas promete uma disputa rasteira, com foco nos arranjos nacionais e o futuro do estado em segundo plano – mas o senador Cleitinho Azevedo levou a coisa a um outro patamar.
Líder nas pesquisas de intenção de voto, o político do Republicanos sequestrou o pleito ao avançar e recuar com sua candidatura diversas vezes ao longo do ano, a última delas depois da convenção partidária que deveria ter chancelado sua chapa.
Cleitinho enrolou tanto para se decidir que obrigou o PL, que queria apoiá-lo, a lançar um candidato próprio de última hora para não correr o risco de Flávio Bolsonaro ficar sem palanque em Minas.te
O escolhido foi Flávio Roscoe, um empresário do setor têxtil que já liderou a Fiemg e é o favorito do PIB mineiro. Empresários ouvidos pelo Brazil Journal afirmam que vão lutar por Roscoe, mas notam que o pleito será muito difícil – justamente porque há um Cleitinho no meio do caminho.

Por conta do anúncio tardio, Roscoe terá pouco tempo para se apresentar ao eleitor, e precisará se digladiar com dois outros candidatos do seu campo – o próprio Cleitinho e Mateus Simões, do PSD, o atual governador do estado e apadrinhado por Romeu Zema – para chegar ao segundo turno.
Dos três pilares da persuasão enunciados por Aristóteles em seus estudos sobre retórica (Ethos, Pathos e Logos), Roscoe precisará se apoiar no primeiro, que apela diretamente à autoridade e à credibilidade do interlocutor.
Aos 54 anos, o mineiro de Belo Horizonte é um estreante na política, mas tem vasta experiência associativa e corporativa – o que essencialmente será sua plataforma.
Roscoe, que cursou História, Economia e Direito na UFMG, começou a trabalhar na indústria do pai, a Colortextil, aos 18 anos, e toca a empresa com os irmãos até hoje. Além disso, está na atividade associativa há 35 anos e passou os últimos oito no comando da Fiemg.
Lá, reduziu o endividamento da Federação, fez o patrimônio crescer de R$ 800 milhões para R$ 3,5 bilhões e formou 300 mil alunos no SESI e no SENAI durante sua gestão.
“Consegui esses resultados num ambiente que guarda semelhanças com o Poder Público, e é isso que embasa a minha entrada na política,” Roscoe disse ao Brazil Journal.
O candidato disse que sempre precisou lidar com líderes de todos as faixas do espectro, e que nunca fez nenhuma distinção de tratamento – mas nota que se aproximou dos “políticos liberais” nos últimos anos por afinidade.
Ele apoiou a candidatura à reeleição de Jair Bolsonaro em 2022 e foi considerado pelo PL para concorrer aos cargos de senador (2022) e prefeito de Belo Horizonte (2024), mas acabou preterido, disse um marqueteiro.
Se chegar ao Palácio Tiradentes, Roscoe afirma que vai atuar por uma nova renegociação da nababesca dívida do estado e usará ferramentas de gestão e tecnologia para aumentar a produtividade do governo, “cortando gastos e investindo onde necessário”.
O candidato também pretende lutar pela exploração de terras raras em Minas, já que o estado “tem um dos melhores depósitos globais destes recursos em Poços em Caldas”; e pela construção de novas usinas hidrelétricas, porque elas “oferecem energia firme e hoje possuem uma legislação mais rígida do que o necessário”.
Alguém aí nota uma semelhança entre a candidatura Roscoe e o primeiro pleito de Zema em 2018? Para o candidato, sua missão é mais fácil.
“Estou num partido grande, o que garante um palanque bem maior; e estamos num mundo mais digitalizado, o que ajuda os eleitores a me conhecerem mais rápido. Além disso, tenho um histórico de trabalho público mais consistente para mostrar aos eleitores,” disse.

Na pesquisa Quaest divulgada em 28 de julho, realizada antes do PL decidir por sua candidatura, Roscoe tinha 2% das intenções de votos. Os trackings do PL indicam que ele deve subir quando os eleitores forem lembrados que ele é o candidato bolsonarista.
Anunciada em reação à última desistência de Cleitinho, a candidatura Roscoe sofreu alguma turbulência depois da última “des-desistência” do senador.
Alguns deputados do PL até flertaram com a possibilidade de pular a cerca para o lado do Cleitinho na hora de fazer campanha, segundo o site mineiro O Fator. Mas o partido, temendo que o senador volte a desistir, decidiu manter a candidatura Roscoe e colocar seus filiados na linha.
Nikolas Ferreira, o deputado-sensação do partido e grande puxador de votos do estado, chancelou a escolha do empresário junto ao 01 e ao ex-ministro Rogério Marinho, o coordenador da campanha de Flavio.
Nikolas e Roscoe já gravaram juntos conteúdo para as redes sociais nos últimos dias; e o candidato ao governo também espera que “a dobradinha dos Flávios” sob o número 22 ajude a aumentar sua base.
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Retomando Aristóteles, Cleitinho incorpora como poucos o Pathos, que busca apelar aos sentimentos e afetos do público.

O senador de 44 anos é uma espécie de mini-Bolsonaro que nasceu no seio do bolsonarismo: é dono de uma coleção invejável de camisas de futebol, tem seu habitat natural nas redes sociais e uma cabeça imprevisível – até mesmo para seus aliados.
Foi com esta “irreverência” e um discurso antipolítica que o ex-vereador de Divinópolis conquistou uma legião de fiéis em Minas – e conseguiu paralisar a eleição para o governo do estado enquanto decidia se queria ou não a cadeira.
Há quem diga que Cleitinho demorou porque nunca quis realmente ser governador. “Entrei na política para aparecer, não sou hipócrita. Nunca nem tive título de eleitor, só queria ser famoso,” ele disse em uma já célebre entrevista ao Globo.
O envolvimento do presidente da sigla estadual do Republicanos, Euclydes Pettersen, nas fraudes ao INSS, é outra hipótese apontada para explicar o impasse.
Fato é que, no fim de julho, Cleitinho liderava a corrida com 35% das intenções de voto, segundo a Quaest. Marqueteiros acreditam que o vaivém dos últimos dias pode ter um impacto negativo na candidatura, mas entendem que o senador segue o franco favorito.
Para tentar cruzar a linha de chegada em outubro, Cleitinho aceitou inclusive jogar um jogo perigoso para quem se diz antipolítica: aliou-se a Marcelo Aro (PP), um ex-deputado federal e ex-secretário de Governo com fama de “traidor” por seus sucessivos rompimentos com ex-aliados ao longo do tempo – o último deles, com o atual governador, Mateus Simões.
Enquanto Cleitinho não decidia se casava ou comprava uma bicicleta, o Republicanos negociou com Aro para que ele assumisse a disputa ao governo. O problema é que, na época, Aro era um dos candidatos ao Senado na chapa de Mateus, que tenta a reeleição.
O imbróglio, somado à inclusão do também candidato ao Senado Carlos Viana (PSD) na chapa da situação, culminou no rompimento de Aro e Mateus, mas o ex-secretário não saiu do governo de mãos abanando.
Enquanto era aliado de Zema e Mateus, Aro teria rodado o estado distribuindo emendas e fidelizando prefeitos para seu projeto pessoal, o que já causou explosões (e palavrões) na Cidade Administrativa.
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Mateus, de 45 anos, assumiu o estado após Zema se descompatibilizar, e tem na máquina estatal seu maior trunfo.

Sua estratégia é se apresentar como a escolha óbvia e lógica de continuidade do Governo Zema – o Logos, para Aristóteles. Os dois dividirão palanque.
Filiado ao PSD de Gilberto Kassab, Mateus também conta com a capilaridade do partido no interior e com o apoio de partidos do Centrão, como a federação União Progressista (União-PP).
Nessa linha, Danilo de Castro, do União, foi escolhido como vice de Mateus, mesmo depois do cargo ter sido prometido ao NOVO de Zema.
Até aqui, no entanto, Simões teve dificuldades para decolar: marcou 6% das intenções na última Quaest.
Do lado esquerdo do estado, Lula teve dificuldade para achar um correligionário disposto a disputar a eleição numa Minas Gerais que tem votado cada vez menos no PT.
Rodrigo Pacheco (PSD) refugou, e a ex-prefeita de Contagem Marília Campos (PT), favorita a se eleger a uma das vagas ao Senado, disse a aliados que preferia “cuidar do neto que acabou de nascer” do que se lançar ao governo neste momento.
Mas agora, com o nome de Patrus Ananias confirmado e o voto da direita podendo se fragmentar, o Presidente Lula reza por uma vaguinha no segundo turno. O nome do santo? São Cleitinho.
Patrus – um exemplo de como o PT tem tido dificuldades para renovar seus quadros – é um ex-prefeito de BH, ex-ministro de Lula e Dilma, e deputado federal quatro vezes. Ele tinha 10% das intenções na última Quaest, enquanto Alexandre Kalil (PDT), o polêmico ex-prefeito de BH e ex-presidente do Galo, marcou 12%.
Gabriel Azevedo (MDB) – um ex-presidente da Câmara de BH que rejeitou recentemente o convite de Mateus para ser seu vice – aparecia com 4%.
“A eleição está em aberto e é possível que o recall dos candidatos seja o fator decisivo,” disse um marqueteiro. “Mas pesquisas qualitativas mostram que o mineiro tem expectativas baixas em relação à atuação do estado e que a eleição pode ser fria e nacionalizada.”
Ó, Minas Gerais.











