O jornalista Robson Viturino começou a trabalhar num livro sobre a família Safra nove anos atrás.

Mas ao longo do caminho, a História se impôs à história: seu José adoeceu e veio a falecer em 2020; o conflito entre Alberto e David eclodiu; Lily Safra morreu; e saiu uma biografia de Edmond.

Robson e seus editores na Companhia das Letras decidiram não fechar o livro enquanto não houvesse material suficiente para contar a história toda. O autor foi incorporando mais material, e o trabalho ficou mais complexo e difícil, pois não se sabia quanto tempo levaria a questão entre os irmãos.

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Agora, Os Safra: Uma história (452 páginas, R$ 99,90, com lançamento em 22 de setembro) finalmente chegará às livrarias, preenchendo uma parte relevante da gigantesca lacuna de biografias empresariais do Brasil. (Compre aqui)

Robson conversou com mais de 150 pessoas, numa pesquisa extensa que começou no Oriente Médio.   

Os negócios financeiros dos Safra datam de pelo menos 1850, quando os antepassados de Jacob – o pai de seu José – já faziam câmbio e negociavam ouro e prata em Alepo, o grande entreposto comercial entre o Oriente Médio e a Europa.  Antes do Canal de Suez, tudo passava por Alepo.  

Judeus sefaraditas muito ligados à comunidade árabe, os Safra são halabiyyin, ou alepinos – um núcleo pequeno que casa entre si e é muito religioso e fechado. Ao redor do mundo, os alepinos costumam se tornar lideranças e protagonistas em seu círculo social, como aconteceu no Brasil.

De Alepo saíram os Safdié do Banco Cidade, Elie Horn da Cyrela, e os de Picciotto, que fizeram casas de private banking na Suíça. 

Jacob Safra – que nasceu em Alepo e se mudou para Beirute fugindo da Primeira Guerra – é o patriarca do ramo da família que mais prosperou.  

No início dos anos 50, pouco depois da fundação do estado de Israel, o ambiente para os judeus em Beirute estava se deteriorando. Edmond veio ao Brasil fazer negócios e convenceu o pai sobre o potencial do País, incluindo a ausência de um antissetimismo significativo.

Jacob se muda para São Paulo em 1954 e traz os filhos. Edmond se tornaria um grande banqueiro em Genebra e Nova York; enquanto José e Moise dariam continuidade ao legado da família no País. 

O livro também acompanha os desdobramentos da morte de Edmond em 1999, que ainda é rodeada de mistério e acabou reconfigurando o equilíbrio entre os irmãos. Até aquele momento, José e Moise comandavam o banco em aparente harmonia, mas em 2006 rompem a parceira: José compra a parte do irmão e consolida seu controle do grupo.

Os Safra se aprofunda nos personagens, mostra a influência dos Safra na comunidade judaica internacional e no Brasil; as contendas entre as diversas gerações; e as nuances de seu José, seus erros e acertos.

O livro é um retrato detalhado de uma família que cultiva a discrição, mas sempre soube ler Brasilia e o poder.

Em vez de um José ensimesmado e fechado no banco – como muitos imaginam – emerge um banqueiro em interlocução frequente e discreta com o primeiro escalão de múltiplos governos, mesmo quando o Banco Safra ainda não era a potência que é hoje.

Abaixo, o Brazil Journal publica um excerto do livro.

 

O ponto mais alto

José tinha sorte. Muita sorte.

Homem de confiança do banqueiro, João Inácio Puga costumava dizer, meio na brincadeira, meio a sério, uma frase que, subvertendo a Lei de Murphy, passaria a ecoar como uma máxima pelos corredores do Safra: “A fatia de pão do seu José nunca cai com a manteiga virada para baixo”. Supersticioso e certo de que a vida tinha um desígnio superior, José apreciava a ideia de que houvesse algo sempre soprando a seu favor.

À sorte se somariam os demais atributos, como uma energia inesgotável para o trabalho e capital para fazer o que bem entendesse. Depois de anos no ranking da Forbes entre as pessoas mais ricas do mundo, José despontou em uma lista da Bloomberg de 2015 como o banqueiro dono do maior patrimônio entre os bilionários de todas as latitudes e longitudes, à frente dos Rothschild, Warburg, Morgan, Goldman, Rockefeller, Setubal e Moreira Salles. Acima de todas as riquezas forjadas em um banco no Brasil, Estados Unidos, Suíça, Israel ou qualquer parte do globo, lá estava ele e seus onze dígitos.

Pouco importava que seus bancos não fossem os maiores. No final das contas, ele era o mais habilidoso na hora de embolsar os lucros — feito alcançado trilhando o próprio caminho, sem contar com a plataforma do império construído por Edmond. Anualmente, as listas de bilionários eram reproduzidas com alarde pela imprensa mundial, que as acompanhava com grande frisson (no Brasil, José continuava como o segundo na lista da Forbes, mas o primeiro, Jorge Paulo Lemann, tinha grandes dívidas, o que não era o seu caso). O destaque nos rankings expunha publicamente sua fortuna pessoal e gerava uma publicidade de que ele dizia não gostar, mas que no fundo o envaidecia. E, na verdade, ninguém além do próprio José sabia ao certo o montante de seu patrimônio total.

Ser discreto na vida privada era uma aspiração impossível, já que estava à frente de uma instituição com incontáveis ramificações na sociedade e na vida de milhares de pessoas. Não bastasse isso, a principal base para a construção da sua riqueza tinha sido o Brasil, um dos países mais desiguais e violentos do mundo. De toda forma, para alguém que havia buscado o êxito financeiro durante boa parte da vida — e percorrera um longo caminho à sombra de um irmão brilhante —, era uma medida inconteste de seu sucesso.

Enquanto os filhos Jacob, Alberto e David conquistavam autonomia a passos lentos, José seguia com um apetite insaciável. Capitalizado, abriu o caixa e saiu às compras. Antes e depois da tacada pelo Sarasin, adquiriu uma série de ícones do capitalismo global.

Começara no final de 2010 com a compra de um prédio comercial no número 660 da Madison Avenue, uma das vias mais importantes de Nova York. Pagou 285 milhões de dólares no que seria o segundo maior negócio do setor imobiliário da cidade naquele ano. Em 2014, fez mais duas aquisições que foram manchete nos diários financeiros. Após desembolsar 726 milhões de libras (1,2 bilhão de dólares), ele adquiriu o edifício 30 St Mary Axe, conhecido como The Gherkin (O pepino), na City londrina, um projeto de Norman Foster concluído em 2004, com 180 metros de altura e 41 andares, parte inconfundível da paisagem urbana da cidade. Em uma reportagem sobre o novo momento do banqueiro, o The New York Times classificou o negócio como uma “pechincha” e tratou o Gherkin como a “face mais  notável” de um portfólio imobiliário com mais de cem propriedades espalhadas mundo afora.

No mesmo ano, José se aliou aos Cutrale, outro clã brasileiro com atuação internacional, destreza na multiplicação do dinheiro e mão pesada na condução dos negócios. A Cutrale era a líder global na fabricação de suco de laranja concentrado e desejava entrar em outro mercado de proporções colossais: a produção de bananas, fruta consumida em boa parte do mundo. Em parceria com os Safra, José Luis Cutrale, o chefe da família, encampou uma batalha para assumir o controle

da norte-americana Chiquita Brands, dona de 13% do mercado mundial da fruta. “A oferta capturou a imaginação do mundo dos negócios, para o qual as bananas há muito são fonte de fascínio. Como a família Safra, a fruta foi afetada por guerras, disputas de comércio internacional e escândalos”, resumiu Samantha Pearson no Financial Times.

A companhia tinha um lugar mítico no imaginário da América Latina. A antiga United Fruit formara um conglomerado empresarial com influência política e econômica em diversos países. Sua história era feita de coragem e pioneirismo, assim como de suborno a autoridades, assassinatos, invasões de terras de povos indígenas, exploração de trabalhadores, financiamento de guerrilhas paramilitares e participação em golpes de Estado contra governantes não alinhados a suas práticas. A expressão “República das Bananas”, de autoria do escritor norte-americano O. Henry — uma referência à imprevisibilidade, à corrupção e ao subdesenvolvimento dos países latino-americanos —, surgiu das frequentes crises geradas por empresas como a United Fruit. No romance Cem anos de solidão, o colombiano Gabriel García Márquez menciona os efeitos nocivos da presença de certa “companhia bananeira” em Macondo, a aldeia fictícia inspirada em Aracataca, onde o autor nasceu. Era uma referência direta à United Fruit, futura Chiquita. Outros dois laureados com o prêmio Nobel de Literatura na América Latina — o poeta chileno Pablo Neruda e o romancista peruano Mario Vargas Llosa — publicaram obras inspiradas no rastro de golpes de Estado e demais tragédias deixado pela empresa na região.

Após uma negociação que durou dois meses e  enfrentou a resistência do conselho e dos executivos da empresa, os Safra e os Cutrale partiram para uma oferta hostil — um tipo de abordagem agressiva, quando os compradores dão um olé na administração e no conselho, dirigindo-se aos acionistas com o objetivo de forçar uma aquisição. Os sócios da Chiquita titubearam. Eram assediados havia tempos pela irlandesa Fyffes, cujo plano de fazer uma fusão almejava a liderança mundial no setor. O consórcio dos brasileiros não recuou um milímetro. Acusaram o conselho de promover “decisões estratégicas fracassadas e de destruição de valor dos acionistas”. Subiram o tom, mas o conselho parecia irredutível e devolveu a provocação na mesma moeda: a dupla Safra e Cutrale “superestima grosseiramente” as vantagens de sua oferta e “subestima grosseiramente” o valor da união com a Fyffes, declararam os conselheiros da empresa.

Pouco habituado a escutar “não”, o banqueiro se unira a outro José excepcionalmente rico e de temperamento autoritário. Além disso, enquanto José Safra exibia uma fachada suave e guardava os canhões para os bastidores, José Luis Cutrale não disfarçava sua indignação. A pancadaria passou a rolar solta em comunicados à imprensa, que traziam o nome e o modo de se impor de Cutrale, além de fotos em que aparecia — grandalhão, dono de um senhor bigode — evocando a imagem de um delegado de polícia. Em uma de suas idiossincrasias mais conhecidas, ele mantinha os principais executivos da companhia em casas em um condomínio da família no formato de um coração, no centro de um laranjal.

Os novos parceiros passaram a afirmar que a recusa de sua oferta pelo conselho da Chiquita revelava “irresponsabilidade e falta de discernimento”. Foram mais longe: “cheira a desespero”. A tensão se prolongou por semanas, nas quais, mais de uma vez, os Josés mandaram à mesa de negociação uma “proposta definitiva”. Por fim, a Chiquita dispensou a Fyffes e cedeu aos brasileiros. O conselho de administração aprovou a venda por unanimidade, e a empresa foi vendida aos novos donos por 1,3 bilhão de dólares.