A França, mais uma vez, parece prestes a explodir.
A sete meses de uma eleição que pode enterrar o Governo Emmanuel Macron e dar vitória à direitista Marine Le Pen, o país enfrenta uma disparada dos juros da sua dívida pública, enquanto milhares de estudantes protestam contra a decadência do ensino público.
No Élysée desde 2017, Macron fez reformas para atrair investimentos privados e dar mais flexibilidade às regras trabalhistas. Mas o crescimento do PIB permanece lento, ao passo que a dívida pública continuou avançando – e hoje se aproxima de 120% do PIB.
A combinação de incerteza eleitoral e fragilidade fiscal bateu nos juros da dívida pública. Em um ciclo de abertura dos spreads ao redor do mundo, os países mais vulneráveis são os mais castigados – e dessa vez a França está em uma situação política e econômica pior do que a dos países do sul europeu.

Os yields dos títulos de 10 anos da França subiram a 5%, o maior patamar desde 2002 – e acima do pago hoje pelos títulos da Grécia, atualmente em 4,4%.
O Tesouro francês tem mais de US$ 1 trilhão em dívidas vencendo até 2030 e, no próximo ano, planeja vender um volume recorde de cerca de US$ 380 bilhões em títulos, segundo o Wall Street Journal.
“A França tem sido um free rider na Europa há anos. O país vinha escapando impune de seus abusos fiscais evidentes,” disse ao Journal um gestor da Carmignac, uma grande gestora francesa. “A estratégia funcionou enquanto ninguém percebia. Agora, as pessoas começaram a notar.”
Macron, com seu passado de investment banker e discurso reformista, era até certo ponto uma âncora de credibilidade. Agora, com a eleição de maio se aproximando e a probabilidade cada vez maior de populistas saírem vitoriosos, os investidores internacionais estão se distanciando dos títulos franceses.
Tanto Le Pen quanto o esquerdista radical Jean-Luc Mélenchon estão pressionando publicamente pela intervenção do Banque de France e do Banco Central Europeu para controlar a escalada dos juros. Mélenchon disse que, se eleito, vai processar o presidente do BC francês por traição.
O economista Paul Krugman, grande estudioso das crises internacionais, disse que a França segue uma trajetória fiscalmente insustentável.
“A dívida já é muito elevada em relação ao PIB, e o Governo francês continua a aumentá-la ao registrar grandes déficits orçamentários, mesmo na ausência de emergências – como guerras, recessões severas ou pandemias – que justifiquem tais déficits,” Krugman comentou em seu Substack.
“Além disso, a França possui uma população em processo de envelhecimento. Mantidas as demais condições, os custos com previdência crescerão muito mais rapidamente que as receitas,” resumiu o economista.
Krugman citou que a idade mínima de aposentadoria dos franceses, de 62 anos, é generosa na comparação com países como Dinamarca e EUA, nos quais a idade mínima é 67. Macron fez uma reforma recentemente, com aumento gradual para 64 – mas agora os candidatos oposicionistas falam em voltar atrás nessa nova regra.
“Não é preciso ser conservador para considerar insustentável o sistema de aposentadoria precoce da França, especialmente se levarmos em conta que a expectativa de vida dos franceses aos 65 anos é de cerca de 87 anos – dois anos a mais do que nos EUA,” escreveu Krugman.
Ainda segundo o economista, a pressão fiscal decorrente deste generoso sistema público de previdência levou a cortes em outras áreas de gastos, notadamente na educação.
“Na prática, a França está concedendo vultosos subsídios aos franceses mais velhos em detrimento de todo o restante da população,” disse Krugman. “Não surpreende, portanto, a ocorrência de manifestações estudantis em massa por todo o país.”
Na tentativa de aplacar a ansiedade dos investidores, Le Pen, do Rassemblement National (Reunião Nacional) apresentou esta semana as linhas gerais de seu programa para enfrentar o desequilíbrio fiscal, prometendo cortar € 136 bilhões do déficit anual e reduzir os gastos públicos para menos de 50% do PIB.
As propostas, ainda vagas e centradas no combate a desperdícios, não convenceram.
“Várias medidas carecem de uma base ou mecanismo claramente definido, ou dependem de alterações legais e acordos internacionais,” disse o ING em relatório.
Le Pen espera que a racionalização da máquina pública gere € 28 bilhões a partir de 2027, mas, segundo o ING, o fechamento de órgãos públicos, a reorganização de departamentos e a redução de pessoal demandam tempo e envolvem custos de transição.
Uma proposta complicada de levar adiante seria a redução na contribuição da França para o orçamento da União Europeia – mas é algo que não poderia ser decidido unilateralmente. “Alterar o sistema de recursos da UE exigiria acordo unânime e a ratificação por todos os países-membros,” disse o banco holandês.
Segundo a Goldman Sachs, seu modelo proprietário de análises de pesquisas eleitorais coloca Le Pen como favorita para vencer a eleição presidencial, e aponta o Rassemblement National com chances de conquistar a maioria parlamentar.
A respeito das propostas, o banco disse que o cronograma e os detalhes do ajuste enfrentarão desafios significativos de implementação – e questionou a viabilidade de diversas iniciativas apresentadas.
“Não levam em conta diversas lições extraídas de experiências anteriores na elaboração de regras fiscais,” disse a Goldman.











